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ELA ESTÁ DE VOLTA

A voz que o tempo não calou

Ícone da música nos anos 2000, Luana do Reggae revisita sua trajetória em Maceió e retorna aos palcos neste sábado, na capital alagoana

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Luana do Reggae revisita trajetória em show que acontece neste sábado, em Maceió
Luana do Reggae revisita trajetória em show que acontece neste sábado, em Maceió | Foto: ROSILVADO SILVA

“Ainda te amo demais, mas não dá, não dá mais”. No início dos anos 2000, os versos, retirados da música “Ainda te amo demais”, ecoavam nas festas, ruas e vielas de Maceió. Afinal, naquela época, pensar em música alagoana significava ter muitos nomes emergentes e, entre eles, estava o da maceioense Luana Freire dos Santos, a Luana do Reggae.

Nascida no bairro do Prado, Luana teve a infância atravessada pela música. Em casa, o reggae vinha do repertório do pai; da mãe, vinham as canções de Roberta Miranda. Entre um som e outro, a jovem se apaixonava também pelo forró do Mastruz com Leite, com um imaginário musical diverso e popular.

Foi em 1998, já morando no Vergel do Lago, que Luana deu o primeiro passo concreto em direção à música, com a gravação de Melô de Luana 99. A resposta do público foi imediata. A canção passou a tocar em discotecas do Vergel e, pouco a pouco, a voz de Luana começou a circular pela cidade, impulsionada pelo boca a boca, pelas rádios comunitárias e pela venda informal de CDs, tudo isso vibrando no ritmo do reggae — que, por sinal, era recente: criado na Jamaica, no final da década de 1960, evoluindo do ska e do rocksteady — também ritmos jamaicanos.

Sem investimento, divulgação institucional ou espaço na grande mídia, suas músicas encontraram o público a partir das bases, especialmente nas periferias, construindo uma popularidade sustentada pela identificação e pela fé de quem se reconhecia naquelas letras românticas e diretas. Ao mesmo tempo em que conquistava ouvintes, a cantora também enfrentava críticas e tentativas de deslegitimação. A voz fina e aguda, muitas vezes alvo de comentários pejorativos, era usada como argumento para desestimular sua permanência na música. Ainda assim, o alcance das canções e a resposta do público acabaram se impondo, consolidando Luana como um dos nomes mais populares da cena musical alagoana no início dos anos 2000.

O ponto mais alto dessa trajetória aconteceu em abril de 2001, com o lançamento do CD Luana e Banda. Em uma mesma noite, a artista realizou três shows consecutivos — no Trapiche, no Jacintinho e no Benedito Bentes — reunindo públicos diversos e ampliando o alcance de sua música para além do reggae. A data se tornou um marco na carreira da cantora e na memória da cena musical local, simbolizando o reconhecimento de um trabalho construído fora dos padrões da indústria.

Após três álbuns lançados, no entanto, a trajetória de Luana acompanhou o movimento de muitos artistas que produzem fora do eixo central da indústria musical. Em um cenário cada vez mais adverso para quem vivia de música em Alagoas, a cantora deixou o estado e seguiu novos caminhos no Sul do Brasil. Longe dos palcos, passou a atuar em outra área profissional, enquanto a música permanecia em segundo plano. A distância, mais do que um afastamento definitivo, acabou revelando o quanto o canto seguia sendo parte indissociável de sua vida.

O reencontro com a própria história começou a ganhar forma em 2019, com um convite para o documentário “Ainda te amo demais”, quando Luana decidiu retornar aos palcos. Neste domingo (18), a artista revive o repertório, a nostalgia dos anos 2000 e o vínculo com o público em um show no Verão Massayó. Em uma entrevista exclusiva ao Caderno B, Luana falou sobre a trajetória, o tempo longe dos palcos, sua relação com a música e os pontos marcantes da sua carreira.

CADERNO B - Desde criança você já dizia que queria cantar. Como foi o início dessa carreira? Em que momento esse desejo deixou de ser sonho e passou a parecer possível?

Aos 9 anos passei a morar no Joaquim Leão, no bairro Vergel do Lago. A família do meu pai já vivia no Vergel, e meus domingos sempre foram lá, entre encontros familiares, música, dança e muita convivência.

Desde criança eu queria cantar. Ficava cantando em casa, imaginando um futuro diferente e sonhando em um dia gravar um disco. A música sempre foi meu refúgio e minha esperança, mesmo quando tudo parecia distante. O início da minha carreira foi difícil. Eu era muito tímida e não me abria para ninguém. Foram muitas lágrimas, momentos de fome e solidão; muitas vezes era só eu e Deus. Mesmo sem oportunidades, segui firme, sustentada pela fé e pela música, transformando a dor em força e resistência.

Essas vivências moldaram quem eu sou e atravessam minha música até hoje. Meu reggae nasce da memória, do afeto e da resistência de um povo que me ensinou a ser forte sem perder a sensibilidade. É dessa história que vem minha voz e meu jeito de cantar.

Aos 15 anos, você e duas amigas começaram a escrever músicas de forró. Como foi esse primeiro contato com a composição autoral?

Ali descobri que podia transformar sentimento em música. Era difícil pra gente, porque não tínhamos condições financeiras, mas mesmo assim começamos a correr atrás, procurar pessoas e tentar tirar nossas letras do papel. Tudo era feito com muita vontade, pouca estrutura e muito sonho.

O destino me levou até a casa do DJ Marquinhos Rasta, e foi ali que o reggae me escolheu. Até então, eu não sabia que mulheres podiam liderar uma banda de reggae, porque só via homens nesse lugar e achava que era assim. O reggae me mostrou um novo caminho, me fortaleceu e me revelou que eu também podia ser voz, liderança e representação. E é dessa caminhada, cheia de fé, luta e verdade, que nasce a Luana do Reggae.

Você deixou Alagoas em um período que diz que era difícil fazer música no estado. Quais eram essas dificuldades? O que te levou a voltar a sonhar com a música?

Deixei Alagoas em 2013. Faltava apoio, estrutura e incentivo, e ainda tive experiências com empresários mal-intencionados, o que trouxe frustrações e decepções. Tudo isso me fez dar um tempo e seguir outro caminho.

Procurei trabalhar em outras áreas em Maceió, mas estava tudo muito difícil. As oportunidades eram poucas e a instabilidade era grande. Quando fui para o Sul, consegui meu primeiro emprego com carteira assinada, algo que até então eu não tinha vivido. Aquilo foi importante para me dar segurança, sustento e um novo começo, mesmo que a música continuasse viva dentro de mim.

Você morou em União dos Palmares antes de ir para Porto Alegre, quando teve suas filhas e começou a trabalhar em outra área. Mesmo longe, você diz que “tudo te levava de volta à música”. Como esse chamado se manifestava no seu dia a dia?

No dia a dia, tudo me levava de volta à música. Eu cantava em casa, no trabalho, nas tarefas mais simples. Uma melodia, uma letra, uma lembrança sempre me chamavam. Era como se a música me acompanhasse o tempo todo, me lembrando quem eu era de verdade. Mesmo tentando seguir outros rumos, o canto insistia em viver em mim. Era um chamado silencioso, constante, que nunca me deixou esquecer que a música fazia parte da minha essência.

Mesmo longe dos palcos, do nada vinham novas músicas. As letras e melodias surgiam no meio da rotina, sem aviso, enquanto eu cuidava das minhas filhas, trabalhava ou estava sozinha. Era a música me chamando, mostrando que, mesmo em outros caminhos, ela continuava viva em mim. Eu podia até tentar seguir outra vida, mas as canções sempre me encontravam.

Depois de tantos anos e tantas mudanças, quem é a Luana que volta a cantar hoje? O que mudou e o que permanece?

Quando voltei aos palcos em 2019, voltei mais madura e fortalecida pelas experiências da vida. Mudei no olhar e na consciência, mas a essência permaneceu: a mesma voz, a mesma fé e o mesmo amor pela música. Voltei inteira, entendendo que cantar não é só sonho, é missão.

Depois de seis anos longe dos palcos, voltar em 2019 e participar do documentário foi emocionante. Quero agradecer de coração à Flávia Correia e sua equipe, que tornaram esse reencontro possível e ajudaram a mostrar minha história e minha música para o mundo. Em 2019 foi um encontro de despedida com minha mãe. Eu tinha que voltar para este momento acontecer. Deus já sabia e ele preparou o documentário para que eu pudesse me despedir dela. Tenho certeza!

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