TRADIÇÃO
Da rede ao filé
Projeto capacita artesãos do Pontal da Barra a confeccionarem as próprias redes onde é feito o bordado


No Pontal da Barra, o tempo anda em pontos miúdos. Cada nó, cada entrelaço da rede carrega histórias de família, de vizinhança, de mulheres sentadas à porta de casa transformando linha em renda, renda em sustento. O filé, patrimônio cultural e imaterial de Alagoas, sempre foi mais do que artesanato: representa linguagem, memória e identidade.
Mas antes do desenho ganhar forma e aparecer delicado sobre a rede, existe um saber quase invisível — a própria construção dessa base. Foi para iluminar esse começo que nasceu o projeto “De Rede a Rede”, uma iniciativa da Associação de Artesãos do Pontal da Barra, em parceria com a Braskem, que reuniu moradores do bairro para aprender algo essencial e, até então, pouco dominado ali: fazer a rede onde o filé acontece.
Durante um mês, 18 participantes se encontraram para aprender, trocar e resgatar um conhecimento que parecia simples, mas que mudava tudo. Muitas artesãs dominam os pontos do filé com maestria, mas dependiam da compra das redes prontas, vindas de fora da comunidade.
Aprender a produzir a própria rede significou fechar um ciclo antigo e abrir outro, de mais autonomia e pertencimento.
“É como completar o caminho do filé”, explica Thayse Lima, presidente da Associação. “Muita gente sabe bordar, mas não sabia fazer a rede. A gente comprava fora. Agora, aprendendo aqui, as pessoas produzem e a própria comunidade passa a comprar delas. O recurso fica no bairro e todo mundo cresce junto", destaca a representante dos artesãos.

O curso também revelou histórias que atravessam gerações. Único homem da turma, Luiz Carlos da Cruz cresceu vendo o filé acontecer dentro de casa. A mãe, as tias, a avó — todas faziam parte desse ritual cotidiano. Hoje soldador, ele aproveitou as férias para se sentar do outro lado da tradição.
“Sempre vi o filé como coisa de mulher, mas ele sempre esteve presente na minha vida”, conta. “Minha filha, de 11 anos, já faz filé. Quando apareceu o curso da rede, senti que era minha vez de aprender. Foi um resgate da cultura do bairro e da minha própria história", diz.
Entre as mulheres, o sentimento era de conquista. Raquel de Lima aprendeu filé ainda adolescente, em outro projeto comunitário. Fazer a própria rede, agora, trouxe uma sensação inédita de independência.
“Antes eu sempre comprava pronta. Hoje, sei fazer todos os tamanhos. Dá orgulho saber que o filé que eu faço começa do zero, pelas minhas mãos".
A oficina foi conduzida pela artesã Claudete de Lima Agostinho, a Dete, referência no filé e guardiã desse saber transmitido de forma oral, paciente, quase ritualística. Ao lado dela, dois jovens do bairro, Daniel Samyd, de 15 anos, e Pedro Henrique, de 14, ajudaram a ensinar o que aprenderam na escola, mostrando que a tradição também se renova quando encontra espaço para seguir adiante.
Ao fim do curso, mais do que redes prontas, o que ficou foi a sensação de continuidade. No Pontal da Barra, tradição não é peça de museu: é algo que se aprende, se pratica e se transforma. De rede em rede, o filé segue sendo tecido, agora com ainda mais autonomia, orgulho e sentido de pertencimento.
