CARNAVAL
Depois do apito, vem o frevo
Com 90 anos de história, Bloco Vulcão se consolida como bloco em atividade mais antigo de Alagoas e revela uma cidade que brinca, pula e se reinventa
A cena é a seguinte: é fevereiro na Maceió dos anos 1930. O tradicional Banho de Mar à Fantasia arrasta multidões pela Avenida da Paz, no bairro do Jaraguá, nas prévias de carnaval. Entre o sábado anterior ao Carnaval até a terça-feira, os foliões ocupavam as ruas da capital alagoana, da Rua do Comércio até a Praça dos Martírios.
Por entre os bairros, eram grandes as festas. A principal delas desfilava no Bebedouro, na então Praça Santo Antônio, que era conhecido como República da Alegria graças à Bonifácio Magalhães da Silveira, o Major da Folia.
Como todo carnaval, no canto ficavam os militares da Polícia Militar de Alagoas (PMAL), do Exército, Marinha e Aeronáutica fazendo a segurança da festa. Mas, no meio do compasso do frevo, a insatisfação dos militares da PMAL fazia mais barulho. Afinal, garantir a segurança de uma festa e não poder aproveitá-la deve ser, no mínimo, frustrante.
Foi em 1936 que um grupo de amigos músicos da corporação, José Francelino Teixeira, Sinfrônio Marinho, José Ernesto, Isaac Galvão Cruz, Alípio Rodrigues e Natanael Azevedo, teve a ideia de criar um bloco para cair na folia quando acabasse o serviço. Dito e feito: estava de pé o Bloco Vulcão, que recebeu o nome devido ao calor do momento de sua criação.
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Segundo o jornalista Edberto Ticianeli, esse não foi o primeiro bloco a surgir dessa forma. Ele conta que o Bacalhau do Batata, em Olinda, também surgiu assim em 1962, por iniciativa dos garçons. “Os militares do Exército em Alagoas seguiram o mesmo caminho e criaram o bloco Tromba D’água, mas não durou muito. Posteriormente, já nos anos 50, esse bloco ressurgiu com o nome de Bomba Atômica”, fala.
Hoje, 90 anos depois da grande ideia, o Vulcão é o bloco em atividade mais antigo de Maceió. O Carnaval em Alagoas, pelo contrário, é mais antigo. Para Edberto, embora raramente documentadas, muitas festas carnavalescas já aconteciam no estado ainda no século XIX. “No início do século XX e principalmente após a década de 1930, quando o frevo se popularizou em alguns estados nordestinos, o Carnaval passou a acontecer em quase todos os municípios de Alagoas. Existem registros fotográficos, por exemplo, do Carnaval em 1921 em Passo de Camaragibe”, explica.
Em quase um século, a história do Vulcão guarda episódios memoráveis. No início dos anos 1940, por exemplo, o bloco foi extinto com a proibição do Carnaval no período da Segunda Guerra Mundial, só voltando a desfilar em 1947. Em 2022, no pós-pandemia, o bloco também não baixou a cabeça e transformou o desfile em uma live para os foliões.
A história do bloco da PMAL se funde, em alguns momentos, com a história do carnaval maceioense. Nos anos 1990, o Vulcão participou do Maceió Fest – à época, o maior carnaval fora de época de Alagoas, de 1993 a 2005.
Ao longo dos anos, o bloco cresceu e seguiu o ritmo da cidade. O ponto de concentração, por exemplo, que no século XX costumava ser na Rua Santo Antônio, no bairro da Ponta Grossa, hoje ser na orla marítima da cidade.
A festa na capital alagoana, por sinal, é algo a ser comentado. Na primeira metade do século passado, os festejos da elite alagoana eram, em sua maioria, organizados pelo Clube Fênix Alagoana, fundado em 1896, Sociedade Familiar Terpsícore Jaraguaense, de 1895, e pelo Clube Familiar Heliotropia Jaraguaense, de 1894. Nas ruas, eram diversas as agremiações carnavalescas: Vassourinhas, Maruins, Pedintes, Grevintes, Africanas, Amantes da Folia, Camélias. A lista é extensa e dispersa entre vários bairros de Maceió.
Na década de 1910, alguns anos antes da criação do Vulcão, a cidade guardava a cultura do entrudo – uma brincadeira trazida na colonização que era a principal manifestação do Carnaval do Rio de Janeiro no século XIX, onde os participantes saíam nas ruas jogando ovos e farinha uns nos outros – e do tradicional uso de máscaras.
Por outro lado, com o passar do tempo, a cidade mudou e a folia seguiu essas mudanças. Segundo Ticianeli, a principal delas foi o crescimento do Carnaval do espetáculo. “Isso distancia o evento de suas raízes mais remotas, a festa, centrada no brincante. O Carnaval cobra a espontaneidade, o improviso, a descontração”, fala.
Essa festa citada pelo jornalista se refere aos grandes desfiles, que se tornaram um show de tecnologia e cenografia. Ele conta que essa cultura predomina por ser mais comercial, e que é ela quem determina ou fabrica o sucesso.
“Um frevo composto para o carnaval, dificilmente tocará o ano inteiro ou alcançará o público do país. O último frevo a conseguir isso foi o Banho de Cheiro, do pernambucano, de Caruaru, Carlos Fernando, que tocou o ano inteiro de 1983 em todas as rádios do Brasil”, lembra.
Segundo ele, em Alagoas, o Jaraguá Folia é um marco por manter a festa tradicional no estado. Com 26 anos de história, o circuito surgiu com o objetivo inicial de ajudar a movimentar bares e restaurantes do bairro e hoje é reconhecido como uma das maiores e mais importantes prévias carnavalescas do Brasil.
“A força do Carnaval está mesmo na festa que tira você da normalidade, da rotina, das preocupações. O Carnaval é um estado de espírito, não somente uma festa de uma artista, de um ritmo - já tivemos muitos - ou de uma fantasia. Se perdermos isso, matamos o Carnaval”, conta Edberto.
Dentre as mais de 100 agremiações reunidas na festa, está o Bloco Vulcão – que, esse ano, celebra os 194 anos da Polícia Militar de Alagoas no domingo, 8 de fevereiro, na Orla de Ponta Verde.