HISTÓRIA
A República da Alegria: o Carnaval de Bebedouro
Como bairro ensinou Maceió a brincar o Carnaval e hoje lida com as marcas deixada pela mineração
A República da Alegria, como era conhecido o bairro de Bebedouro, em Maceió, foi palco dos anos de ouro do carnaval maceioense. Foi no início do século XX, antes da década de 1910, que o bairro passou a concentrar algumas das principais manifestações festivas da capital, reunindo celebrações populares que transformavam ruas e praças em extensão da própria festa.
Naquele tempo, o carnaval ocupava o cotidiano do bairro e fazia de Bebedouro um destino certo para quem queria brincar. No centro do início dessa história está o Major Bonifácio Magalhães da Silveira, militar, político, homem das artes e, acima de tudo, folião.
Pernambucano, Major Bonifácio desembarcou em Alagoas em 1885, aos 18 anos, onde passou o resto da vida. Sua trajetória foi marcada no militarismo e na política – comandou a Polícia Militar e foi deputado estadual –, mas era na festa onde seu coração se encontrava. Morador do bairro, ficou conhecido como Major da Alegria ao organizar festas que entraram para a história da cidade.
Era na então Praça Santo Antônio – que depois viria a receber seu nome após seu falecimento e posteriormente passou a ser a Praça Coronel Lucena Maranhão – que o Major organizava as festas do bairro. Era lá ainda onde desfilava a principal festa do Carnaval na primeira década do século.
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Foi dali que Bonifácio ajudou a moldar o carnaval tradicional de Maceió. Percebendo a importância simbólica e estratégica da praça como espaço de encontro, propôs que os festejos fossem centralizados na área. A iniciativa transformou o bairro em referência para a folia da capital e consolidou Bebedouro como ponto de partida dos grandes cortejos carnavalescos.
O legado do Major atravessou gerações e décadas da capital. Uma reportagem da TV Gazeta, exibida em 2017, mostrou o desfile do Bloco da Raposa, tradicional do bairro, fundado em 2007 – o nome fazia até referência a um clube de futebol do local, o Cruzeiro Esporte Clube Bebedouro. O bloco, que se concentrava no Sol de meio dia na rua Manoel Sampaio, seguia por sete quilômetros e arrastava cerca de 2.500 brincantes pelas ruas estreitas do bairro. No ano, o bloco homenageou Dona Cícera, que ajudou a fundar a festa e criou a “dança da pata choca”.
Uma outra matéria da emissora mostra a prévia das prévias de Carnaval agitando as ruas do bairro em 2019, com calor, frevo, fantasias, muita animação, e com direito até aos tradicionais bonecos gigantes da folia.
Foi no ano de 2020 que Maceió começou a assistir o descaso com a cultura do bairro. Devido ao início das rachaduras após o afundamento dos solos pela mineradora Braskem na cidade, o bairro de Bebedouro ficou sem seu carnaval.
A suspensão da festa não foi momentânea. Com o avanço do crime socioambiental, Bebedouro passou a conviver com o esvaziamento das ruas, o fechamento de casas históricas e a interrupção de práticas culturais que atravessaram gerações. O bairro que, por décadas, foi sinônimo de encontro e celebração, passou a ser associado ao medo, à incerteza e ao abandono.
Naquele ano, a tradicional programação carnavalesca da Praça Lucena Maranhão foi cancelada por questões de segurança, de acordo com a Fundação Municipal de Ações Culturais (Fmac). As rachaduras no solo tornaram inviável a ocupação do espaço que, no início do século XX, havia sido o quartel-general da República da Alegria. Pela primeira vez em décadas, o silêncio substituiu o som das bandas, dos frevos e dos cortejos que costumavam tomar as ruas do bairro.
Bebedouro ensinou Maceió a brincar o carnaval a partir da rua, do encontro e da coletividade. A ausência da brincadeira no bairro escancarou uma perda que vai além da festa. Para moradores, pesquisadores e agentes culturais, o que se interrompeu ali foi uma prática coletiva de pertencimento, construída ao longo de mais de um século.
Onde antes o Major Bonifácio organizava festas que tomavam a cidade, hoje restam marcas de um passado que insiste em não ser apagado. A República da Alegria já não ocupa as ruas como antes, mas segue existindo na memória de quem viveu e de quem ainda luta para que Bebedouro não seja lembrado apenas como território ferido, mas como berço de uma das mais importantes tradições culturais de Maceió.
A Gazeta de Alagoas entrou em contato com a Fmac para saber quais ações podem ser tomadas pelo município para garantir a preservação dos costumes e tradições do bairro, mas não teve retorno.