MÚSICA
‘O deleite sobre a música está se perdendo’, diz Céu ao revisitar álbum
Mais de 20 anos depois do seu disco de estreia, cantora fala sobre o trabalho, que foi relançado em vinil


Na capa de seu primeiro álbum, uma Céu que ainda não havia completado 25 anos de idade encara a câmera com um sorriso confiante de canto de boca. Com os cabelos cacheados emoldurando seu rosto, ela transmite uma energia de elegância despojada num dia ensolarado que casa com as 15 músicas da obra.
A cantora foi clicada na casa que dividia com duas amigas, na Pompeia, em São Paulo, um ambiente de "farra constante, muitas festas e artistas convivendo", como ela define. Nessa época, ela equilibrava a atuação como cantora —de jingles, bares, bandas de jam sessions e backing vocal de música eletrônica— com o trabalho de garçonete no restaurante Spot.
Foi nesse cenário que ela criou e gravou o disco que leva seu nome, nas brechas de agenda em que o produtor Beto Villares podia recebê-la em seu estúdio. O álbum "Céu", lançado em 2005, inaugurou a carreira da artista entrando no ranking da Billboard de mais vendidos dos Estados Unidos, no 57º lugar, um feito para um trabalho em língua não-inglesa.
Mais que isso, o disco rendeu uma rara indicação de um brasileiro ao Grammy americano, na categoria de melhor álbum de música global, além de uma carreira internacional até hoje bem-sucedida. Relançado em vinil pela Noize Record Club, o trabalho que completou 20 anos se mantém como um dos mais bem acabados retratos sonoros da primeira metade da década de 2000.
Mas apesar de inescapavelmente brasileiro, o disco começou a nascer quando Céu, filha de músicos, passou um ano em Nova York, quando tinha 18, tentando estudar música. "Fiquei muito pouco, mas gerou material para eu começar a ser compositora", ela afirma. "As vivências que tive na rua, as porto-riquenhas andando onde eu morava, a galera do rap, essa coisa latente urbana que eu acabei pegando naquele momento me deu vontade de escrever minhas coisas", diz.
"Céu", que marca o encontro de sons tradicionais brasileiros com essa música urbana, foi gravado ao longo de 2004, numa colaboração entre a cantora e o produtor. Para ela, a estética da obra resulta da química com Villares. "Ele entendia onde eu queria chegar e tinha uma paixão pelo Brasil que eu também tenho —e no mesmo lugar, uma pesquisa grande do folclore, um alinhamento."
Os dois recentemente reabriram os arquivos em que trabalharam na época. Primeiro, ficaram surpresos com o tempo que passaram refinando o álbum —praticamente um ano inteiro. Depois, Céu, hoje aos 45 anos, se reconectou com sua versão de duas décadas atrás através do canto.
A voz contida e menos ousada, ainda que já sedutoramente letárgica, dá vida a uma maioria de composições próprias de Céu —12 das 15 do disco. Em "Rainha", sob uma linha de baixo circular e sopros que aludem ao afrobeat de Fela Kuti, ela reconhece a influência da música negra ao retratar uma realeza africana que é "mãe da matéria-prima" e a quem "vai levar vida inteira para lhe agradecer".
Outra canetada de Céu nesse disco é "Malemolência", faixa que atesta a durabilidade da obra. Levada no cavaquinho e violão e com baixo e batidas que ecoam o hip-hop, a música foi remixada pelo DJ mexicano Mandragora, que tem vivência e atuação na cena brasileira e hoje reside na França.
Nessa encarnação, a faixa de Céu virou febre em bailes funk e sets de DJs no Brasil e no exterior, isso antes de virar sample em "Trip do Boyzinho", do cantor baiano Rosemildo Duarte, conhecido como Boyzinho. Dessa vez, a voz da cantora pontuou uma fusão de bregadeira com eletrônica de rave que fez a música estourar novamente.
Vinte anos depois, Céu crê que a música brasileira ainda interessa aos americanos. Ela louva os esforços de Anitta ao tentar entrar no mercado dos Estados Unidos e lembra que o sucesso de seu disco por lá se deve também à aposta do selo Starbucks Hear Music, da famosa cafeteria, que comercializou o álbum no país.
Mas se "Céu" saiu numa época em que a internet ainda engatinhava no Brasil, hoje o mundo digital é a norma. "Sempre fui de ouvir uma coisa e gostar quando era estranho. Não preciso gostar de cara, mas se é legal, vou ficar. Você se debruça sobre o material. Então, esse deleite sobre uma coisa está se perdendo, né? Está tudo virando muito sobre o momento. Mas não sou pessimista, acho que a humanidade anda em espiral —é a espiral do tempo, como disse o Gilberto Gil", conclui.
