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ESTREIA NO CINEMA

‘A Voz de Hind Rajab’ não deixa morte de menina palestina ser silenciada

Filme, que estreia no Cinema e traz pedidos reais de socorro de criança de cinco anos, concorre ao Oscar

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“A Voz de Hind Rajab” concorre com “O Agente Secreto” ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
“A Voz de Hind Rajab” concorre com “O Agente Secreto” ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro | Foto: Reprodução

Em muitos filmes, cenas e imagens se eternizam na consciência do público. Em “A Voz de Hind Rajab”, que concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, são os sons dos pedidos de socorro de uma menina palestina de 5 anos que jamais silenciarão.

Usando gravações das conversas entre a menina Hind Rajab e atendentes do centro do Crescente Vermelho Palestino em Ramallah, a diretora e roteirista tunisiana Kaouther Ben Hania reconstrói o horror de 29 de janeiro de 2024 — que teve repercussão mundial na época, mas logo acabou esquecido em meio à matança crescente no conflito em Gaza.

Naquele dia, Hind viajava com quatro primos e seus tios para o norte da cidade de Gaza, seguindo as orientações de evacuação das forças israelenses. O carro da família Hamada foi atingido e os tios e três dos primos morreram. Sobraram Hind e Layan, sua prima de 15 anos, que falou com o serviço de resgate do Crescente Vermelho. A ligação não durou nem um minuto, porque o veículo foi alvejado novamente e Layan morreu.

O atendente do Crescente Vermelho consegue entrar em contato com Hind, a única sobrevivente no carro. Ela implora para ser resgatada.

Para reconstituir a tragédia, a diretora usa trechos das gravações originais das conversas pelo celular de Hind com os atendentes da ONG palestina, ao longo das excruciantes três horas e meia em que a menina estava dentro do carro com seus familiares mortos, cercada por tanques israelenses abrindo fogo.

As forças israelenses (IDF, na sigla em inglês) invadiram Gaza após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, que deixaram mais de 1.200 israelenses mortos.

“Vem me buscar. Por favor. Estou sozinha. Vem agora”, diz Hind no filme, para um dos funcionários do centro do Crescente Vermelho em Ramallah, que fica a cerca de 83 quilômetros de Gaza.

Imagem ilustrativa da imagem ‘A Voz de Hind Rajab’ não deixa morte de menina palestina ser silenciada
| Foto: Reprodução

Rana, uma das atendentes, tenta tranquilizar a menina, dizendo que seus tios e primos estavam cansados, dormindo.

“Eles estão mortos. Só tem corpos aqui. Minha família toda. Todo mundo morreu”, responde Hind.

No filme, veem-se apenas os atendentes na sala de controle do Crescente Vermelho e fotos de Hind mostradas por eles. O que está acontecendo em Gaza naquele momento vai sendo imaginado por quem assiste ao filme.

A sensação de urgência se exacerba na medida em que a voz de Hind vai ficando mais fraca e ecoam tiros e explosões ao fundo. A menina estava ferida e sangrava.

“O tanque está perto de você?”, pergunta uma atendente.

“Sim”, diz Hind, com um fiapo de voz.

“Está se movimentando?”

“Sim, está vindo, em frente de mim”.

A ambulância do Crescente Vermelho está a apenas oito minutos do posto de gasolina onde está o carro. Mas os socorristas não podem sair até que tenham sinal verde das forças israelenses, que garantiria sua segurança.

“Aqui no Crescente vermelho, eu, meus irmãos e irmãs temos um pai, e os soldados nos tanques também tem um pai. O nosso pai precisa falar com pai deles, para a gente poder mandar nosso irmão te salvar e o filho deles não atirar”, tenta explicar Rana.

“Mas agora eles estão atirando...”, diz Hindi.

Depois de horas, finalmente as forças israelenses autorizam que os socorristas saiam para o resgate. Mas a ambulância nunca chegou até Hind.

Só ao final vemos imagens reais de como ficou o carro da família Hamada, atingido por mais de 350 tiros, e a ambulância calcinada, destruída por munição pesada disparada de tanques, segundo seis especialistas ouvidos pelo Washington Post. A ambulância estava a 50 metros do carro.

A diretora Ben Hania opta por um híbrido entre documentário e reconstituição. Atores interpretam os quatro funcionários do Crescente Vermelho que atuaram na tentativa de resgate e conversam com a voz real de Hind obtida nas gravações. Em determinado momento, imagens em um celular mostram o vídeo real dos socorristas naquele instante, gravado pela equipe de mídia do Crescente Vermelho. Wesam, a mãe da menina, é entrevistada no final.

O filme, vencedor do Leão de Prata do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, foi o mais ovacionado da história do festival —o público aplaudiu, de pé, durante 23 minutos.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) não admitiram seu envolvimento nas mortes de Hind, sua família e os paramédicos. Em um comunicado, o IDF afirmou que suas forças “não estavam presentes perto do veículo ou dentro do alcance de disparos” do carro da família Hamada.

Mas reportagem do Washington Post mostrou, a partir de imagens de satélite, documentos e depoimentos, que havia ao menos quatro tanques a uma distância de 300 metros do carro onde estava a família morta.

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