CULTURA
Vida longa ao Homerinho: um ano de palco, rua e povo
Teatro celebra seu primeiro ano revisitando histórias, corpos e vozes que o construíram
Há um ano, o bairro histórico do Jaraguá assistia um cortejo colorido, com plumas e lantejoulas, que marcaram a inauguração de um espaço sobre e para a arte e o povo de Alagoas: o Theatro Homerinho.
Foi na Sá e Albuquerque, em meio aos paralelepípedos charmosos e memórias centenárias do bairro, que a atriz Ivana Iza julgou ser um bom lugar para celebrar a arte dessa terra. Julgou e acertou. Ao longo desses 365 dias de trajetória do local, foram muitas as expressões artísticas que passaram por lá: shows, peças teatrais e espetáculos.
Até a festa de 30 anos de carreira de sua criadora passou pelo palco Selma Brito. Palco esse - nomeado em homenagem à pianista alagoana -, que abrigou histórias relevantes, que nasceram do, para e pelo povo de Alagoas.
Essas histórias se entrelaçam com o bairro. O prédio do teatro, com seu letreiro charmoso, de número 450 e nas cores preto e branco, cruza com a identidade do bairro. É antigo, com memórias de uma cidade que estava aprendendo a ser capital, mas com histórias atuais e vivas de uma cultura que não para. Ivana conta que o Jaraguá ama as pessoas e elas amam o bairro.
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Esse amor mútuo seria o combustível para um espaço que conversa diariamente com a cultura popular e com os diferentes corpos que transitam no Jaraguá. “O sentido de um teatro nascer naquele lugar é o sentido de que ali é o início de tudo da cidade. Quando a gente olha para esse primeiro ano do Theatro Homerinho, a gente entende, com toda certeza, e também com a franqueza do coração, que a cidade ansiava por esse espaço. Ela desejava muito que ele fosse possível, e ele é possível”, afirma.
Segundo Ivana, esse primeiro ano de vida do lugar se materializou nas festas de rua, espetáculos, mostras de cinema e toda a programação construída coletivamente no Homerinho.
“Foi bonito ver um teatro praticamente lotado de terça a domingo com pessoas saindo das suas casas no meio de semana para prestigiar tudo que estava acontecendo ali. Então é um ano de trajetória marcante em sua totalidade. Foi um ano muito poderoso”, diz.
Ao longo desses 365 dias, o teatro levou cerca de 30 mil pessoas, entre moradores e turistas, para prestigiar a arte alagoana. Para Iza, o projeto mais significativo foi o Giro das Tradições. O projeto, realizado quinzenalmente, reúne mestres da cultura popular, dando visibilidade a manifestações que constroem a identidade alagoana.
“Você imagine um projeto que acontece às terças-feiras, que tem uma casa lotada, oferecendo às pessoas o conhecimento que elas não têm sobre cultura popular da sua terra. Então hoje nós temos um projeto lindo, respeitoso, valorizado pelos artistas, os brincantes da cultura popular, patrocinado, apoiado. Isso só prova a sua importância. É o que eu costumo dizer. Se a gente não tem memória, o que é que nos resta?”, reflete.
Se 2025 foi marcado por histórias contadas, cruzadas e criadas no teatro, os sonhos para esse ano são maiores. Segundo Ivana, o intuito é fazer com que as pessoas de fora entendam a importância do que temos por aqui, do que é construído na arte, teatro, música, circo, exposições, ancestralidade, cultura preta, mestres, mestras.
“É um espaço que a gente espera realizar coisas ainda muito grandiosas. É só o começo. Isso aí é só uma fagulha do que ainda vamos queimar ainda para frente. Vai ter muito calor ainda, muita luz saindo de nós. Podem ter certeza disso”, conta.
Além disso, os desejos são cada vez mais projetos nacionais pisando nos palcos do Homerinho e de construção de uma corrente forte, com pessoas nas suas mais variadas formas.
“O Homerinho é um espaço muito criativo, diverso, com tudo o que puder ser abraçado por ele, todas as drags, todos os gays, todos os pretos, todos os trans, todos os héteros, todas as crianças, todas as famílias, todas as pessoas. Quero que ele esteja cada vez mais íntimo das pessoas, mais próximo delas. Porque foi para isso que ele foi criado, né? Eu acho que o teatro é do povo. Ele nasceu para o povo”, conta Ivana.
Ao mesmo tempo que o desejo de projetos de fora ocupa o imaginário para esse ano, o olhar de dentro para dentro não é menos importante. Pelo contrário, é mais especial. “A gente costuma muito olhar para a casa do vizinho, é importante olhar para dentro da sua própria casa, saber sobre ela, entender sobre ela, louvá-la, respeitá-la, ficar feliz por ela. Então o meu desejo é que o público que ocupa o nosso espaço se aproprie das nossas informações e do que estamos oferecendo para eles”, diz Ivana Iza.
A ancestralidade não é em vão. Falar de Homerinho é falar de cortejos ancestrais. Desde o primeiro dia, o teatro leva as pessoas para a rua - com banda fanfarra, cor e alegria.
Agora, para comemorar sua primeira volta ao Sol, o público pode se juntar à felicidade sagrada e popular do teatro neste sábado (31) em um cortejo gratuito. A programação tem concentração na Praça Bom Jesus dos Navegantes.
De lá, o público segue em cortejo pelas ruas do bairro, que contará com a participação do Samba de Roda K’Posu Betá, do Afoxé Odô Yá e do Grupo INAÊ. A chegada do cortejo acontece na porta do Theatro Homerinho, onde a festa continua ao longo da noite com DJs e toda a relevância da cultura alagoana.