Tempo para ouvir
Serafim lança 'Aqui pra nós', álbum que reafirma a força da música autoral nordestina
Obra se opõe ao consumo rápido de música e traz disco com storytelling para ser ouvido de forma integral


O novo álbum do artista maceioense Serafim, intitulado Aqui pra nós, chegou às plataformas digitais no dia 9 de fevereiro. O trabalho foi concebido como uma obra fechada, estruturada com início, meio e fim, opondo-se à dinâmica de lançamentos fragmentados que domina o mercado fonográfico atual. Gravado integralmente no estúdio Maná Records, em Maceió, o projeto reuniu uma equipe técnica e artística exclusivamente alagoana, sob o comando de Thiago Mata e Nayane Ferreira, responsáveis pela produção, mixagem, masterização e identidade visual.
Em um cenário moldado pela pressa e pela fragmentação, Serafim faz um movimento deliberado em sentido contrário. “A ideia é que o ouvinte se sinta parte das músicas”, diz o artista, ao explicar um trabalho que aposta menos no impacto imediato e mais no reconhecimento gradual, construído pela palavra, pela emoção e pela sonoridade.
Essa arquitetura se revela logo na abertura, com “Contando as Horas”, faixa que retorna no encerramento em versão intitulada “Derradeiro”. Dividida em dois momentos, a canção funciona como eixo conceitual do disco. Ao reunir cordel, aboio e cantoria de viola, Serafim condensa ali elementos centrais de sua trajetória e estabelece uma moldura sonora que orienta toda a escuta. No final, a música reaparece marcada pela improvisação e pela força interpretativa, fechando o percurso sem arremates artificiais.

Da produção ao conceito, o artista diz que aposta em criar obras de alcance amplo a partir de um fazer enraizado. Para Serafim, a dimensão regional não limita. Ao contrário, é o caminho mais direto para alcançar o universal.
A presença de Pedro Serafim, irmão do artista, atravessa todo o álbum. Parceiros desde a infância, os dois compartilham referências e modos de pensar música que se refletem nos arranjos e nas instrumentações. Muitas das canções surgiram quando ainda dividiam a mesma casa, e essa convivência se traduz em um disco de identidade familiar, orgânica, onde as escolhas parecem nascer mais do diálogo do que da negociação.
Esteticamente, o trabalho dialoga com a música nordestina produzida nos anos 1970, período marcado pela liberdade formal e pelas misturas sonoras. As referências a nomes como Alceu Valença, Zé Ramalho e Carlos Moura aparecem como base de escuta, nunca como modelo a ser reproduzido. O que interessa a Serafim, diz, é o espírito daquela geração, o cuidado com a palavra, a disposição para experimentar e a exposição da intimidade como força artística. O álbum filtra essas influências pelas vivências do presente, sem nostalgia programada.

A identidade visual, também assinada por Thiago Mata e Nayane Ferreira, acompanha esse raciocínio. Com estética retrô, a capa dialoga diretamente com a musicalidade e reforça a unidade entre som, palavra e imagem, elemento que Serafim trata como parte indissociável do projeto.
Faixas como “Equinócio” equilibram o místico e o pessoal. A música é sustentada por um violão que remete à liberdade melódica dos Novos Baianos e por um baixo que conduz a canção com precisão. “Você Chegou” apresenta um samba de amor que escapa do previsível ao incorporar contornos nordestinos, com a participação de Bruno Palagani no cavaquinho e no bandolim. Em “Tormenta”, primeira parceria composicional de Serafim, com letra de Eduardo Proffa, memória e afeto familiar se entrelaçam em uma narrativa contida, sem excessos.

“A-mar” ocupa um ponto sensível do álbum, construída com cuidado e economia, enquanto “Frevo Arretado”, dedicada ao pai do artista, que vive em Recife, surge como um frevo filtrado pelo olhar alagoano, novamente com a presença de Bruno Palagani. “Cantador Poeta” dialoga com a tradição do repente e do cordel na letra, mas opta por um caminho musical que flerta com o blues rock. Já “Beijos de Capote”, parceria com o multiartista Paulo Caldas, é a faixa mais experimental do disco, assumindo um tom surrealista, com sanfona de Alisson do Acordeon.
Mesmo em diálogo constante com o passado, Aqui pra nós quer falar diretamente com o Brasil de agora. Sem recorrer a slogans ou discursos fáceis, o artista diz que o álbum afirma que a música nordestina autoral permanece em movimento, com capacidade de construir pertencimento e emoção a partir de escolhas estéticas conscientes. O disco chegou às plataformas digitais no dia 9 de fevereiro, propondo algo simples: tempo para ouvir.
