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UM ANO SEM CACÁ DIEGUES

Caubóis à beira-mar em busca do ‘gol da lua’

Amizade entre Carlito Lima e Cacá Diegues revela as primeiras referências do alagoano que ajudou a mudar o cinema nacional

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Morte do cineasta Cacá Diegues completa um ano neste sábado, 14 de fevereiro
Morte do cineasta Cacá Diegues completa um ano neste sábado, 14 de fevereiro | Foto: ESTADÃO

Havia um coreto e um riacho de água limpa que cortava a cidade e ia dar no mar. O menino Cacá Diegues corria pelas areias da Praia da Avenida, em Maceió, nos anos 1940 e 1950, e costumava gastar muito tempo olhando para o horizonte, nadando e jogando futebol. Quem conta essa história é o amigo de infância Carlito Lima. De acordo com ele, o futuro cineasta ainda não pensava na sétima arte como profissão, mas já gostava de enquadrar as paisagens alagoanas com as mãos, notava a saturação natural do paraíso onde morava e parecia, relata, suspeitar que seu destino seria criar belezas.

Aquele garoto, filho de Manuelito, como a vizinhança e os amigos se referiam a Manuel Diegues, e de dona Zaira Camerino Fontes Diegues, não faria história apenas como o moleque namorador que conquistou até a musa da bossa nova Nara Leão, mas como um dos maiores cineastas da história do cinema brasileiro e do mundo, responsável por dar uma cara ao cinema nacional.

Mas, antes disso, ele nadava com os amigos até os navios atracados ao longe e gritava aos marinheiros: “Cigarretes! Cigarretes!”. Quando conseguiam os maços jogados do convés, a fantasia se completava. “Para nós, meninos de 12 e 13 anos, era o maior negócio que a gente fazia. A gente queria ser homem, rapaz. A gente queria ser igual a caubói… com cigarro no bico”, relembra Carlito, evocando a imagem de John Wayne que viam na tela do Cine Ideal. As histórias eram reinventadas pela turma depois. Em vez da poeira do Velho Oeste, as areias da Praia da Avenida.

Casa onde nasceu Cacá Diegues, em Jaraguá, é ocupada atualmente por um órgão público do governo do Estado
Casa onde nasceu Cacá Diegues, em Jaraguá, é ocupada atualmente por um órgão público do governo do Estado | Foto: Maylson Honorato

Era assim a infância entre os bangalôs 1064, onde vivia o escritor e contador de histórias Carlito Lima, e o 1164, onde morava Cacá Diegues. Esse período era marcado por uma liberdade que hoje parece roteiro de ficção. A “turma da avenida”, composta por cerca de oito a dez garotos, explorava Maceió inteira sobre duas rodas. “A gente andava de bicicleta pra lá e pra cá. E andava de bonde também. Mas a bicicleta era outra coisa muito marcante, saía aquela turma toda de bicicleta. Era muito bonito”, conta Carlito.

A aventura no mar e o simulacro de bangue-bangue pelas areias de Maceió só dividiam a atenção dos garotos com uma paixão nacional: o futebol. Cacá Diegues é descrito pelo amigo de infância como um “tarado por jogar futebol”. As peladas aconteciam na praça, no meio da rua, na praia. “Era de manhã, de tarde e de noite. E, se não tinha escola, começava cedinho e não tinha hora pra acabar”.

Dessa obsessão nasceu o “gol da lua”, uma das memórias mais poéticas da dupla. “Quando era noite de lua cheia, a gente jogava até ela aparecer no céu. Depois que a lua aparecia, o primeiro gol terminava a partida”, explica Carlito, comparando a importância desse momento aos grandes feitos do esporte profissional. “O Pelé tem um gol de placa lá no Maracanã, a gente tinha o gol da Lua aqui. Era a mesma emoção”, afirma.

Amigos de infância, Cacá e Carlito compartilhavam a paixão por Maceió e as saudosas memórias da Avenida da Paz dos anos 1940 e 1950
Amigos de infância, Cacá e Carlito compartilhavam a paixão por Maceió e as saudosas memórias da Avenida da Paz dos anos 1940 e 1950 | Foto: ACERVO PESSOAL

O antigo coreto, onde brincavam de gude e pião, virou cenário de confidências e marcos biográficos. Carlito recorda uma entrevista em que o próprio cineasta confessou que seu primeiro beijo foi no Coreto da Avenida. Ele aproveita essa lembrança para dizer que “as coisas foram mudando”. A amizade, porém, permaneceu.

“O pai do Cacá era um intelectual, um homem respeitado e autor de livros muito importantes para o Brasil. E aqui na Avenida moravam ou transitavam também outros grandes nomes, como Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José Lins do Rêgo. E, quando esse pessoal se reunia, o Cacá também estava lá na mesa com o pai, ouvindo. Era um intelectual também, só não sabia disso ainda. Mas houve um momento em que todos esses intelectuais foram embora para o Rio de Janeiro. Foi um êxodo”, relembra Carlito Lima.

A família Diegues foi uma das que se mudaram para a Cidade Maravilhosa. No entanto, segundo Carlito, isso não abalou a relação dos amigos. Pelo menos uma vez por ano, a comitiva voltava às origens. “Era aquela festa. Dona Zaira não gostou muito de ir embora daqui, fazia questão de que viessem sempre. E a gente ia também. A casa de dona Zaira, no Rio, virou a ‘Embaixada de Alagoas’ em terras cariocas. Uma generosidade que o Cacá e sua esposa Renata fizeram questão de preservar”.

Carlito Lima assina o argumento do filme "Deus Ainda é Brasileiro", último longa do cineasta alagoano, protagonizado por Antônio Fagundes
Carlito Lima assina o argumento do filme "Deus Ainda é Brasileiro", último longa do cineasta alagoano, protagonizado por Antônio Fagundes | Foto: GABRIEL MOREIRA

Aquela vivência compartilhada, em que a realidade de pular do teto do trapiche de açúcar e jogar bola à beira-mar se misturava à ficção dos filmes de faroeste, plantou as sementes de uma parceria que duraria oito décadas. Inclusive, Carlito Lima é autor do argumento que baseou “Deus Ainda é Brasileiro”, último filme de Cacá.

“Eu fui para a posse do Cacá na Academia Brasileira de Letras [o cineasta alagoano ocupava a cadeira de nº 7]. No outro dia, ele me chamou para um almoço e lá me pediu para escrever o argumento do filme. Eu fiquei muito lisonjeado. E lembrei da primeira vez que vi um cartaz de um filme dele, lá no Recife, e senti muita alegria por ele”, relembra Carlito Lima.

Hoje, o antigo bangalô onde viveu a família Diegues é uma repartição pública ligada à Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas. A casa onde viveu Carlito é um prédio residencial. Para o escritor octogenário, resta a memória. “Faz muita falta aquele tempo, faz muita falta o amigo Cacá. Era muito inteligente e gentil. Era um intelectual grandioso, mas de uma simplicidade como eu nunca vi. Sobraram essas nossas histórias, né? A gente viveu muita coisa aqui nessas ruas, nesse coreto, nessa Praia da Avenida”, reflete.

Coreto marcou infância e juventude dos amigos em Maceió
Coreto marcou infância e juventude dos amigos em Maceió | Foto: Maylson Honorato

Em sua última entrevista à Gazeta de Alagoas, um ano antes de falecer, Cacá Diegues ressaltou a amizade com Carlito e seu amor por Maceió. “Minha relação é muito profunda. Eu não sei explicar direito, porque saí daqui com seis anos de idade. Fui com meu pai, que ia trabalhar no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, meus pais odiavam o Rio, achavam a cidade horrível, então todo verão nós voltávamos para Maceió. Chegávamos antes do Natal e só voltávamos para o Rio depois do Carnaval. Então, passei minha infância e adolescência ainda em Maceió. O Rio era o lugar do trabalho, e Maceió, o lugar do prazer, da diversão e da cultura. Isso é indispensável na minha vida. Tudo o que eu sei de cultura, de prazer de viver, conheci em Maceió”, afirmou Cacá.

“Eu dei sorte, porque minha mulher [a produtora Renata Almeida Magalhães] adora Maceió. Eu brinco dizendo que ela gosta mais da cidade do que eu. Então, volto pelo menos uma vez por ano a Maceió. Posso dizer que não tenho mais nada a ver com a cidade, mas, ao mesmo tempo, tenho. Porque também aconteceu o seguinte: a casa dos meus pais, no Rio, era uma espécie de embaixada de Alagoas. Todos os alagoanos que iam para o Rio de Janeiro passavam por lá, ou para almoçar ou até para se hospedar. Posso dizer que minha vida sempre esteve cercada de Alagoas”, complementou o cineasta.

Encostado no coreto da infância, Carlito recorre a uma lenda africana para falar dos últimos dias de Cacá Diegues. “Lá na África, o elefante nasce num lugar e passa o tempo todo andando, a vida toda, 100 anos rodando. Quando chega perto de morrer, ele volta para o lugar onde nasceu. De uns 5 anos pra cá, o Cacá vinha três, quatro vezes para Maceió. Estava quase morando aqui outra vez. Acho que era a ‘síndrome do elefante’”, relata o amigo de infância, ao lembrar do menino que brincava de ser um caubói e do adulto que decidiu filmar pescadores, camponeses e favelados.

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