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MINIESCULTURAS

Cláudio das Miniaturas recria Alagoas em miniesculturas de 2 centímetros

Artista de Capela explora o cotidiano nordestino em obras que ganham cada vez mais destaque no Brasil e no exterior

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Imagem ilustrativa da imagem Cláudio das Miniaturas recria Alagoas em miniesculturas de 2 centímetros
| Foto: Reprodução/Instagram

Quem é de Alagoas ou já cruzou com as histórias contadas pelo estado, sabe que o barro por aqui tem um lugar especial. Ele aparece em obras que atravessaram fronteiras, como “O Beijo”, de Dona Irinéia, e na imponência do “Boi Bumbá”, do mestre capelense João das Alagoas. Nos últimos anos, o estado tem dado as boas-vindas a uma nova geração de ceramistas, como é o caso de Cláudio Henrique Freire da Silva, popularmente conhecido como Cláudio das Miniaturas.

Sobrinho de João, Cláudio tem 33 anos e também é natural de Capela, na Zona da Mata alagoana. O município se consolidou como um território onde o barro eterniza cenas do cotidiano: lavadeiras, feiras, bois, brincadeiras de rua na argila. Além deles, Capela é conhecida por artistas como Sil de Capela, que foi aluna do mestre. Nas palavras de Cláudio, ela “representa uma pessoa que aproveitou o que aprendeu a levar adiante uma tradição feita no barro, mostrando o que é possível criar através das mãos”.

Imagem ilustrativa da imagem Cláudio das Miniaturas recria Alagoas em miniesculturas de 2 centímetros
| Foto: Reprodução/Instagram

Se as obras de Sil e João ganharam o mundo, Cláudio seguiu esse legado, mas diminuiu a escala. O que marca a autenticidade do alagoano são as peças em miniatura — algumas com apenas dois centímetros de altura. Ele começou ainda criança, aos 13 anos, preparando argila no ateliê do tio e observando as obras de Leonilson, que também trabalha com João. A partir daí, passou a produzir as peças tradicionais, no tamanho convencional, mas sentia que precisava fazer algo diferente.

Segundo ele, a fé sempre esteve presente na trajetória. O artista relata que passou a pedir a Deus para que conseguisse viver da arte quando, em 2011, participou de uma exposição de presépios em Maceió e conheceu Arlindo Monteiro, que faz esculturas em palito de fósforo.

“Quando vi pela primeira vez uma peça tão pequena imaginei que dava pra fazer no barro. Fiz a primeira peça de 2 centímetros no barro de um agricultor, levei pra uma feira e vendi a primeira miniatura. A pessoa que comprou queria para presentear, mas falei pra ela que só tinha aquela, que foi pra testar se eu conseguia vender, e ela falou ‘continua com essas miniaturas que vai dar certo’”, relembra.

Cláudio vive exclusivamente da arte no barro e conta que descobriu vocação ao ver o tio trabalhando
Cláudio vive exclusivamente da arte no barro e conta que descobriu vocação ao ver o tio trabalhando | Foto: Divulgação

Dito e feito. Cláudio não se limitou a Alagoas, tampouco ao ocidente. Em 2023, o artista representou o Brasil no Jingdezhen International Ceramic Art Biennial na China e, no mesmo ano, ganhou um prêmio no Salão de Arte Popular Ana Holanda, na 22ª Fenearte, em Pernambuco. “A Fenearte foi uma oportunidade muito grande de divulgar mais ainda meu trabalho, de conseguir mais clientes e colecionadores”, conta.

Atualmente, ele é o único no estado a trabalhar com miniaturas. O trabalho manual, tão conhecido e produzido por aqui, exige técnica porque em dois centímetros, qualquer tremor pode virar erro. O artesão conta que trabalhar em uma escala tão pequena requer muitas horas de trabalho e paciência devido aos detalhes. “A técnica usada pra modelar uma peça de 2 centímetros muda bastante, pois a maior parte de detalhar a peça é feita com as ferramentas. Tenho facas pequenas, todas adaptadas para poder detalhar as peças, o pincel para dar acabamento, espinho de mandacaru para fazer mínimos detalhes no rosto”, compartilha.

Imagem ilustrativa da imagem Cláudio das Miniaturas recria Alagoas em miniesculturas de 2 centímetros
| Foto: — Foto: Arquivo Pessoal

Também tem que ter cuidado na hora de modelar, na pintura e na quantidade de água para não comprometer a obra. Além disso, as peças são finalizadas com queima a gás — outra etapa que necessita de atenção. “No início da queima, não pode esquentar muito rápido, e na hora de finalizar a queima, [tem que] ter o cuidado de não passar do tempo necessário pra conseguir queimar as miniaturas”, conta.

Mesmo com toda essa tensão, Cláudio diz que a chance de ter uma peça perdida completamente é quase nula. Ele relata que, em média, leva cerca de dez minutos para terminar uma miniatura simples, como a obra “Uma mulher com pote na cabeça”. Embora faça também peças como essa, as favoritas dele são as tradicionais casinhas nordestinas com suas portas e janelas de madeira, paredes coloridas e o cotidiano do interior vivo no barro.

Imagem ilustrativa da imagem Cláudio das Miniaturas recria Alagoas em miniesculturas de 2 centímetros
| Foto: — Foto: Arquivo Pessoal

“A partir do dia que fiz a primeira miniatura de 2 centímetros, foi que decidi reproduzir o cotidiano. As cenas que gosto bastante são as de brincadeiras, em quase todas as obras tem brincadeiras”, conta, orgulhoso do trabalho.

Hoje, morando e trabalhando no ateliê no Pilar, Cláudio vive exclusivamente da arte no barro. Ele conta que, ainda menino, via o tio trabalhando e entendeu “que é possível viver e construir sonhos através da arte”. Seguindo os passos de João, Sil e Irinéia, ele afirma que a nova geração tem se destacado no fazer manual e que as cerâmicas alagoanas têm sido bem recebidas em todos os lugares por onde passa.

Imagem ilustrativa da imagem Cláudio das Miniaturas recria Alagoas em miniesculturas de 2 centímetros
| Foto: Divulgação

A nova geração comentada por Cláudio faz parte de um processo que iniciou há mais de 20 anos, quando João das Alagoas passou a reunir aprendizes e pessoas da vizinhança. Ela envolve nomes como Leonilson Arcandio Holanda, que conheceu o mestre aos 8 anos e se destaca por peças que abrangem temas como o Rio São Francisco e famílias retirantes; e Maria Eroneide Laurentino, a Nena, que é cunhada de João e conhecida pelo “Boi Vazado”, peça que é preenchida internamente por figuras tridimensionais que remetem ao cotidiano.

“É um dom de Deus. Ele nos dá capacidade de trabalhar e ter nosso sustento, a fé de que, entregando nas mãos de Deus, ele nos abre caminhos para mostrar o talento que nos emprestou”, finaliza Cláudio.

Para encontrar obras do artista, basta acessar o perfil dele no Instagram: @claudio.dasminiaturas.

*Sob supervisão da editoria de Cultura

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