loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
terça-feira, 10/03/2026 | Ano | Nº 6177
Maceió, AL
31° Tempo
Home > Caderno B

MULHERES DA ARTE

Mulheres que pensam a arte em Alagoas

Artistas alagoanas falam sobre criação, linguagem e os caminhos que encontraram para transformar experiência em arte

Ouvir
Compartilhar
Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Whatsapp
Fotografia, dança, cinema e literatura: em comum, as experiências femininas que atravessam linguagens artísticas
Fotografia, dança, cinema e literatura: em comum, as experiências femininas que atravessam linguagens artísticas | Foto: Acervo pessoal

De um lado, uma mulher atrás de uma câmera escrevendo sensações com a luz. Do outro, a escrita surge da forma mais literal possível, com papel e caneta que dão origem a livros e mais livros. Em outra ponta, uma artista escreve na dança, em movimentos calculados que, de fora, parecem leves e espontâneos. A alguns quilômetros de distância, uma jovem faz cinema e brilha em Cannes — um dos mais relevantes festivais do audiovisual mundial. O que une essas quatro histórias é a arte feita por mulheres alagoanas.

Cada gesto artístico carrega uma pergunta sobre presença, autoridade e permanência. Foi a partir dessas indagações que o Caderno B ouviu a artista visual Gabi Coêlho, a bailarina Bibi Amorim, a escritora Érika Santos e a cineasta Stella Carneiro. No Dia da Mulher, celebrado no domingo (8), elas falam menos sobre obstáculos e mais sobre o que move seus processos criativos e as formas que encontraram de transformar experiência em linguagem.

Muitas vezes, a arte começa antes da resposta. Pode nascer no corpo, no gesto ou em uma pergunta que ainda não sabe exatamente o que quer dizer. Para muitas mulheres artistas, criar também é uma forma de pensar o mundo e de se posicionar dentro dele. Não apenas reagindo ao que esperam delas, mas construindo outras maneiras de existir, olhar e narrar.

A artista visual alagoana Gabi Coêlho
A artista visual alagoana Gabi Coêlho | Foto: Acervo pessoal

Para algumas pessoas, reconhecer-se artista não é uma epifania repentina, mas um processo. A artista visual Gabi Coêlho lembra que, durante muito tempo, sentiu que precisava provar a legitimidade do próprio trabalho. Com o tempo, essa lógica deixou de ser o centro de sua prática.

“Existe sempre uma suspeita sobre o trabalho de mulheres, principalmente longe dos grandes centros, como se fosse um teste eterno. Hoje eu não trabalho para provar. Trabalho para aprofundar. Entendi que a legitimidade não é um selo e que ela se constrói na consistência da pesquisa e com a permanência”, relata.

Em suas obras, a fotógrafa recorre ao autorretrato e à fotoperformance para investigar o corpo como território sensível e campo de tensão. Mais do que representar uma identidade fixa, o corpo aparece como pergunta.

“Eu retiro marcadores evidentes como gênero ou origem não para universalizar, mas para desestabilizar. Quando a identidade não está explícita, o espectador perde as ferramentas para classificar rapidamente quem está vendo. E nesse vazio algo começa a incomodar”, explica.

A escritora e livreira alagoana Érika Santos
A escritora e livreira alagoana Érika Santos | Foto: RENNER BOLDRINO

Se na fotografia o corpo aparece como imagem e fragmento, na escrita ele surge como origem da própria linguagem. Para Érika Santos, a escrita nasce primeiro no corpo para depois ganhar forma no papel. Autora de Esconjuro, Flores Floresta e Procurar o Mar é Exercício Noturno, ela diz que a linguagem precisa permanecer aberta às transformações da experiência.

No livro Esconjuro, que transforma o desastre urbano em matéria poética, ela afirma que a escrita não nasce de uma intenção rígida, mas de uma escuta atenta ao que surge. “Há luto, denúncia, ritual, desejo e vingança. Mas o poema tem seu próprio curso: ele se apresentou, e minha função foi traduzi-lo, dar um corpo para ele”, conta.

Para ela, a linguagem precisa manter certa indisciplina, uma capacidade de ocupar os espaços sem ser consumida por eles. “A escrita deve ser maleável como a água. Eu acredito numa linguagem insubordinada”.

Essa relação entre corpo, experiência e linguagem também atravessa a obra de Gabi Coêlho. “Eu sei que, antes de qualquer imagem, existe uma leitura social do meu corpo, e isso atravessa qualquer coisa que eu produzir. O que me interessa é deslocar esse olhar automático e fazer com que o corpo deixe de ser uma estrutura pronta para julgamento e se torne um lugar de pergunta”.

Na mesma fluidez da escrita e dos atravessamentos entre arte e vida está a dança. Única bailarina cadeirante de Alagoas, Bibi Amorim conta que, para ela, o movimento amplia uma gramática que já existe.

A bailarina Bibi Amorim
A bailarina Bibi Amorim | Foto: Acervo pessoal

“A dança sempre foi plural, mas faltavam vocabulários que nascessem de corpos como o meu. O que faço não é ‘uma adaptação’, é uma linguagem própria, construída a partir das minhas possibilidades reais. Meu corpo escreve passos que nunca existiram antes — e isso também é dança”, relata.

“Acho que o público vê primeiro a cadeira. Mas o que eu gostaria que vissem é a artista. Antes de qualquer símbolo, existe alguém com técnica, estudo, intenção e potência. Quero que o impacto inicial seja substituído rapidamente pela consciência de que ali existe dança, não ‘superação’”, acrescenta.

Para Stella Carneiro, que saiu de casa aos 17 anos para estudar cinema em São Paulo, existe uma dose de teimosia em tentar ocupar espaço na arte. Talvez seja esse o traço comum de muitas trajetórias femininas no campo cultural.

Segundo ela, estar em um espaço historicamente dominado por homens, como o Festival de Cannes, sendo uma mulher negra e nordestina, tem um significado especial.

A cineasta alagoana Stella Carneiro
A cineasta alagoana Stella Carneiro | Foto: Acervo pessoal

“Eu estava ao lado de outros realizadores nordestinos. Mas fui a única alagoana do meu grupo na Quinzena dos Cineastas em Cannes. Ter um filme exibido em um festival tão importante, no mesmo ano em que Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho foram premiados, foi uma grande conquista. Vem com uma responsabilidade muito grande”, conta.

Stella afirma que, ao olhar para si mesma no passado, percebe que poderia ter aproveitado mais algumas oportunidades.

“Eu quero dar é um cascudo naquela menina. Uma bronca mesmo. Estudei na FAAP com bolsa mérito, ou seja, estudei muito para ocupar aquele espaço, pois passei em terceiro lugar. Era possível filmar em 35mm, e a universidade revelava os rolos. Muitos colegas aproveitaram isso, mas me faltou coragem. Eu ainda era muito insegura naquela época e não me imaginava como diretora”, lembra.

Desafio aceito

Ao olhar para as trajetórias dessas artistas alagoanas, o Caderno B propôs também um exercício de retorno às meninas que elas foram um dia. Às lembranças que moldaram suas identidades e suas linguagens.

No fim, escrever o mundo a partir dessas memórias é também um recado para as que virão depois: criar continua sendo uma das formas mais potentes de permanecer.

GABI CÔELHO

Meu bem, sua sensibilidade é seu maior tesouro. Não esconda suas coisas mais bonitas para parecer forte. Também não esqueça que sentir medo não é sinal de fraqueza, é sinal de movimento. Encare o mundo, mesmo trêmula. Você encontrará muita beleza no caminho, mas precisa estar atenta e presente. Não queira ser maior do que é. Você não precisa.


BIBI AMORIM

Pequena Bibi, obrigada por nos trazer até aqui. Foi o seu sonho de criança e sua coragem absurda que nos fizeram chegar. Você, ambiciosa demais para uma jovem, subiu no palco naquele 8 de dezembro de 2006 e mostrou a todos que, se você tem um sonho, precisa realizá-lo, custe o que custar. Obrigada por isso. Sigo com você dentro de mim, com sua inocência e capacidade de sonhar alto.

ÉRIKA SANTOS

Querida Érika, que bom que você encontrou a ficção. A realidade não é um bom lugar.

STELLA CARNEIRO

Stella, por favor, faça um acervo com as filmagens que você fez com seus irmãos e com as filmagens da sua família. Cuide bem desse material, pois nele existem memórias de pessoas que não estão mais com a gente.

*Estagiária sob supervisão da editoria de Cultura

Relacionadas