ARTNOR 2026
Com linhas agulhas e identidade, artesãs transformam histórias em arte
Jeane Valentim e Francisca Lessa levam à feira trabalhos que unem tradição, memória e geração de renda


Com agulhas e linhas, artesãs transformam a realidade onde vivem, desenvolvendo um trabalho que carrega superação, resiliência e persistência em cada peça construída. Jeane Valentim, com a delicadeza da renda singeleza, e Francisca Lessa, com as histórias contadas em cada bordado, mantêm firme o legado do trabalho feito à mão e impulsionam outras mulheres por meio do artesanato.
Os produtos desenvolvidos pelas duas artesãs estarão expostos durante a Artnor 2026, o maior evento de artesanato autoral de Alagoas, que ocorre entre os dias 19 e 22 de março, no Espaço Armazém, no bairro do Jaraguá. Jeane e Francisca se juntam a outros 80 artesãos para mostrar a riqueza cultural e o legado do estado.
MUITO ALÉM DA DELICADEZA
Jeane Valentim trabalha com a renda singeleza desde os 18 anos e, hoje, aos 53, é uma das artesãs que projetam o nome das peças feitas na Associação das Rendeiras de Singeleza de Paripueira (Artecer). Como a maioria das artesãs, aprendeu o ofício com a avó e hoje contribui para manter vivo o legado da técnica artesanal.
“Quando descobri que a singeleza estava em extinção, que era um bordado de família, passei a ter mais cuidado. Aprendi com minha avó em um momento muito delicado para ela, e isso me tocou profundamente. Sinto esse bordado no sangue. Fico emocionada e arrepiada todas as vezes que começo a criar um produto, e isso me remete à minha avó e às mulheres da minha comunidade”, conta.

O trabalho com as mulheres da Artecer teve início em 2010. Na associação, as artesãs começam às 8h e seguem até as 18h produzindo peças manualmente com cuidado e zelo. O objetivo vai além da produção: transformar a vida das mulheres da comunidade.
“Quero que a associação cresça, quero resgatar mais mulheres e resgatar a renda singeleza. Minha visão é essa: tirar as mulheres da vulnerabilidade social e mostrar que o artesanato tem o poder de transformar. Quando ela melhora a mente, ganha dinheiro, muda a vida dela, das pessoas ao redor e da cadeia produtiva”, afirma.
COLEÇÃO RESGATE

Para esta edição da Artnor, Jeane preparou uma coleção com o propósito de resgatar a renda singeleza e valorizar o trabalho artesanal. Entre as peças estão acessórios, como brincos, mas o destaque são as roupas com bico entremeio, mandalas e patchwork de renda.
“A Coleção Resgate traz três peças que terão um pedacinho de renda feito por todas as artesãs da Artecer. Eu as costurei à mão. É um trabalho 100% manual. Coloquei as mandalas na manga, e as outras duas peças são patchwork de emendas com pedaços de entremeio que têm alto-relevo. Acho que agora vai dar certo, vai bombar”, diz.

Entre as inspirações para a nova coleção está a natureza do litoral de Paripueira. O mar, a areia, os barcos e as flores aparecem nos desenhos das peças.
“Eu me esforço para que tanto as artesãs quanto os clientes entendam que o artesanato feito à mão não é qualquer coisa. É preciso ter respeito. Quando participei da Artnor na edição passada, fiquei deslumbrada, cheguei a chorar porque os clientes ficavam encantados com as peças que levamos. E para este ano vamos trazer ainda mais surpresas”, afirma.
PONTOS E CONTOS

Cada ponto conta uma história. Cada peça carrega riqueza de detalhes nos desenhos criados pelas bordadeiras de Penedo, que transmitem cultura e legado por meio do trabalho manual desenvolvido no ateliê Pontos e Contos. Seja em roupas ou itens decorativos, o bordado transforma peças comuns em arte.
Esse trabalho é desenvolvido pela artesã Francisca Lessa. Engenheira aposentada, ela foi a primeira mulher engenheira a atuar no Baixo São Francisco. Essa trajetória agora se reflete em cada peça criada no ateliê, que transforma histórias em bordados exclusivos.

Filha de bordadeira, Francisca começou a praticar ainda na infância, aprendendo a técnica aos sete anos. Hoje transmite seus conhecimentos para outras mulheres do município de Penedo.
“Com o tempo surgiu a oportunidade de ensinar um grupo de mulheres e comecei esse trabalho. Aos poucos foi crescendo, se desenvolvendo, e hoje temos o grupo de mulheres do Pontos e Contos que são verdadeiras artistas. O trabalho que vejo hoje não é só um bordado, mas uma obra de arte”, diz.
Entre as peças de destaque do ateliê estão vestidos bordados inspirados no acervo arquitetônico, histórico e cultural de Penedo.
“Os vestidos carregam o maior peso do nosso trabalho e estarão na Artnor, em uma coleção que traz história. As pessoas vão ficar encantadas com o trabalho que estamos levando”, afirma.
ARTNOR 2026
Realizada pelo Sebrae Alagoas, a Artnor busca ser uma vitrine do artesanato autoral alagoano, unindo tradição, inovação e desenvolvimento. A edição deste ano traz o conceito “Tecendo o Futuro”. Com entrada gratuita, a programação ocorre das 14h às 21h e inclui a exposição de mais de 80 artesãos, além de oficinas.
Todos os dias haverá apresentações culturais dentro e fora do Espaço Armazém, ocupando também a rua Sá e Albuquerque, no Jaraguá, com festival gastronômico, desfile com marcas do estado e programação no Theatro Homerinho.
