NO PALCO, O TEMPO
Peça “Três Mulheres Altas” reúne as atrizes Ana Rosa, Helena Ranaldi e Fernanda Nobre em Maceió
Montagem premiada será apresentada na capital nos dias 9 e 10 de abril; trama põe gerações em confronto e discute envelhecimento e passagem do tempo
Três idades e uma mesma vida repartida diante do público. Nos dias 9 e 10 de abril, no Teatro Gustavo Leite, em Maceió, a montagem de Três Mulheres Altas, dirigida por Fernando Philbert, convoca as atrizes Ana Rosa, Helena Ranaldi e Fernanda Nobre para um acerto de contas atravessado por memória, desgaste, humor ácido e lucidez. No centro da cena estão três personagens, mas principalmente o que o tempo fez delas. No meio do quarto onde a trama se desenrola, a pergunta, enorme: “Como me transformei nisto?”.
Edward Albee escreveu a peça no início dos anos 1990, quando já era um nome incontornável do teatro americano. O texto logo se firmou como um clássico contemporâneo, recebeu o Pulitzer de Drama e foi lido, desde então, como uma obra de alta exposição emocional, em que matéria íntima e forma rigorosa se encontram sem cair em chave confessional. Em Três Mulheres Altas, ele organiza esse material em dois atos e em três mulheres chamadas apenas de A, B e C. O recurso é frequente no teatro. É como se o autor retirasse delas o conforto da identidade nominal para deixá-las mais perto de uma experiência compartilhável, a de olhar a própria vida de fora, ou de muito perto, quando já não há distância segura.
Aos 83 anos, Ana Rosa assume a personagem A, uma mulher com mais de 90 anos, doente, cercada por lembranças truncadas, frases interrompidas e ressentimentos antigos. B, interpretada por Helena Ranaldi, orbita ao redor dela como cuidadora e interlocutora, numa relação que combina zelo, cansaço e atrito. C, papel de Fernanda Nobre, surge como a advogada encarregada dos assuntos práticos de uma mulher que já não consegue responder por toda a própria vida burocrática.
O que começa como convivência tensa num quarto vai abrindo outras frentes, como maternidade, casamento, desejo, dinheiro, posição social, machismo, ruína do corpo e dureza dos vínculos familiares. Albee trata tudo isso sem solenidade. O texto tem ironia, certa crueldade e um humor que aparece quando alguém resolve dizer o que, em geral, se administra em voz baixa.
Foi esse desenho dramático e a atualidade das provocações de Três Mulheres Altas que primeiro atraiu Ana Rosa, que é um grande nome do teatro e da teledramaturgia brasileira. “Sim, foi justamente o tema que me chamou para o espetáculo. E essa história tão bem contada, de uma forma tão inteligente que o Albee escreveu, englobando três personagens em várias épocas diferentes”, conta.
O interesse pelo papel veio na mesma direção. Segundo ela, pesa ali a densidade de uma personagem que parece deslocada no tempo, mas que está viva. “A minha personagem, que é a mais velha das três, traz toda a experiência de vida que ela tem, que é uma coisa assim fascinante e muito bem escrita”, pontua, acrescentando que um dos desafios de interpretar A foi a necessidade de mergulhar em uma subjetividade que antecede sua própria geração.
“Esse é um aspecto muito interessante da montagem, porque, ao atravessar as vivências de três mulheres de tempos distintos, a gente encontra formações muito distintas. Eu não tive contato com as experiências que a minha personagem teve. Ela nasceu no começo do século. E entrar nesse universo é desafiador. Era um tempo em que a mulher não tinha representatividade alguma, a mulher dependia do marido. A única função dela era ter filhos e cuidar da casa. E não podia votar”, reflete Ana Rosa.
A peça não transforma esse passado em explicação sociológica. Deixa que ele apareça no temperamento da personagem, no modo como ela lembra, acusa, exagera, se contradiz e tenta manter algum domínio sobre o que ainda lhe resta. É nesse terreno que a montagem de Philbert trabalha. Em cena, três idades da mesma mulher se observam sem complacência, como se a consciência tivesse sido repartida em camadas que já não conseguem se proteger umas das outras.
A dinâmica entre as atrizes é decisiva para que esse mecanismo funcione. Ana Rosa descreve o processo como “um trabalho de construção delicioso sob a batuta do Fernando Philbert e com a parceria da Helena Ranaldi e da Fernandinha Nobre”. Foram quase dois meses de ensaio, num convívio que, segundo ela, segue se alterando a cada apresentação. “A cada novo espetáculo a gente descobre novas nuances e a gente solidifica mais ainda essa parceria dentro do palco. tem sido muito gostoso e muito interessante construir isso. E é ainda mais interessante porque o público vem acompanhando essas descobertas”.
Fernanda Nobre, que vive a versão mais jovem, diz perceber com clareza como esse jogo encontra plateias de idades diferentes. “Os jovens se identificam muito com a minha personagem, por ela estar de olho no futuro, de ver as possibilidades sobre quem serão. Já o público mais velho se reconhece ao olhar para trás e ver quem se tornou a partir das escolhas que fez”, analisa.
A cenografia de Natália Lana, o desenho de luz de Vilmar Olos, a trilha de Maíra Freitas e o figurino e visagismo de Tiago Ribeiro ajudam a sustentar esse ambiente de confronto, em que o quarto deixa de ser apenas espaço doméstico e passa a concentrar tempos sobrepostos. O texto, escrito por Albee logo após a morte da mãe adotiva, tem dureza particular ao lidar com decadência física e exposição moral. Em vez de suavizar a passagem do tempo, coloca em cena seus desconfortos, seus desarranjos e sua carga de memória.
Helena Ranaldi, que interpreta B, a mulher de 52 anos, identifica aí uma reflexão. “Acredito que a vantagem dessa passagem é poder lidar melhor com a vida, se conhecer melhor, conseguir entender as transformações e perceber que, muitas vezes, nós não temos controle sobre a vida. Mas entre dizer isso e viver isso há um abismo muito grande. E é desse desconforto que nascem os diálogos entre essas três mulheres”, afirma.
Para Ana Rosa, essa discussão sobre velhice ganha também um aspecto técnico. Ao falar da própria profissão, ela indica o nível de disciplina necessário para sustentar em cena uma mulher cuja autonomia se desfaz aos poucos. “Para nós, artistas, a forma que a gente estuda e que a gente expõe a nossa profissão é muito diferente das outras profissões. Se a pessoa trabalha no escritório, ela pode ir com um pé engessado, com um dente inchado. O ator não. O nosso instrumento de trabalho é o nosso físico, a nossa voz. Então, a gente tem que estar sempre com tudo trabalhando direitinho. O que eu quero enfatizar com isso é como é tão diferente a perspectiva que se tem dessa passagem do tempo, conforme mudam as nossas experiências particulares. Nós artistas temos uma forma completamente diferente de lidar com o tempo e a velhice”, expõe.
A conversa inevitavelmente toca no etarismo, tema que atravessa a peça e o mercado em que ela circula. Ana Rosa fala desse ponto sem abstração, a partir de quem continua em atividade intensa depois de décadas de palco, televisão e estrada. “Esse problema do etarismo, o tempo passou e a gente ainda lida com isso, esse certo preconceito”, afirma. Ao mesmo tempo, observa uma movimentação em curso e chama atenção para a necessidade de novos textos que deem centralidade a personagens mais velhos: “Vamos torcer para que haja novos autores que possam escrever histórias para pessoas também de mais idade, onde elas sejam as protagonistas, que é o caso da nossa peça”, complementa.
A atriz veterana diz que chega a Maceió com a expectativa de refletir sobre tudo isso junto ao público, em uma noite divertida e de muita emoção. “A reação do público é incrível, porque as pessoas se identificam muito com as personagens. Quem não se identifica com a mais velha, se identifica com a de 50 e poucos anos, ou os mais jovens se identificam com a mais jovem.” Para ela, essa identificação se amplia porque o espetáculo mobiliza experiências reconhecíveis dentro de qualquer família. “Sempre tem uma avó, uma tia, um tio, algum parente já idoso, então todas as experiências que são mostradas no espetáculo, as pessoas têm algum tipo de identificação. Vamos ao teatro! Espero vocês”.
SERVIÇO
- O quê: Espetáculo 'Três Mulheres Altas', de Edward Albee - Com Ana Rosa, Helena Ranaldi e Fernanda Nobre
- Quando: 9 e 10 de abril, às 20h
- Onde: Teatro Gustavo Leite (Centro de Convenções de Maceió)
- Quanto: De R$ 25 a R$ 200
- Vendas: Sympla.com.br