LITERATURA
Entre o verso e o sentir, a poesia da arapiraquense Giovanna Lunetta
Poeta alagoana transforma experiências íntimas em reflexão sobre afeto, identidade e pertencimento
“Eu escrevo o que me atravessa, e eu atravesso o mundo como uma mulher negra, nordestina e que ama mulheres.” Aos 11 anos, Giovanna Lunetta encontrou na escrita um caminho para entender o que sentia — e, desde então, nunca mais saiu dele. Hoje, sua poesia carrega as marcas da travessia que é crescer, se reconhecer e aprender a nomear emoções no mundo.
Mulher negra e nordestina, Giovanna escreve a partir de um lugar que é, ao mesmo tempo, pessoal e político. Natural de Arapiraca, sua trajetória atravessa temas como identidade, afeto, corpo e pertencimento, sempre guiada pela sensibilidade. Em sua poesia, o que é íntimo ganha dimensão coletiva. Para ela, escrever é uma forma de existir no mundo.
“Para uma mulher negra e que ama mulheres, escrever sobre amor, ternura, desejo e delicadeza também é um gesto político. Falar de afeto, num mundo tão duro, é uma forma de preservar o coração. E preservar o coração também é uma forma de resistência. Acho que uma das mais fortes, inclusive”, diz.
Se escrever é uma forma de existir, também são muitas as maneiras de fazê-lo. Para Giovanna, a poesia pode organizar — ou simplesmente acolher — o que é sentido. “Minha escrita é muito íntima e nasce de um lugar de muita honestidade. Eu acho que escrevo também pra desengasgar o mundo, para convencer as pessoas de que elas podem e merecem colocar para fora, sabe?”, reflete.
A poesia, diferentemente de outras formas de arte, tem métrica. É nesse momento que letras e contagem se juntam para formar um texto ritmado, harmônico. Como em uma equação, um dos elementos que não pode ser excluído dessa matemática, para a arapiraquense, é a vulnerabilidade.
Protagonista de tantas obras na literatura, é nos textos de Lunetta que ela se destaca. Autora de “Chorar é coisa de gente grande” e “O Sol vem depois”, Giovanna conta que sua escrita vem tanto dos atravessamentos da vida quanto do cotidiano. “Ser vulnerável exige coragem, porque desarma a gente e desarma o outro também. Hoje, a minha vulnerabilidade é um dos meus maiores orgulhos”, afirma.
Ao mesmo tempo que a vulnerabilidade é um ato de bravura, também é ser mulher. Lunetta conta que, muitas vezes, a poesia é mais sobre sentir tudo, e com profundidade. “Acho que as mulheres são socialmente autorizadas a sentir, mas nem sempre a aprofundar o que sentem. Muitas de nós aprendem a cuidar, a dar conta, a não incomodar, e às vezes falamos só uma parte do que sentimos e guardamos o resto. A minha poesia é um convite pra sentir tudo e olhar com profundidade pro que a gente sente”, afirma.
Além disso, para ela, chorar pode ser tão eficaz quanto escrever. Na conversa, que instigou o lado mais íntimo da escrita, Giovanna relatou que, assim como sempre anda com um caderninho para lá e para cá, o choro é um ato rotineiro. “Eu choro quando vejo algo bonito, quando estou em paz, quando algo me emociona profundamente. O choro, pra mim, é um sinal de que a vida me atravessou de verdade. E acho que tudo passa rápido demais e é muito incerto pra gente não ser atravessada, pra achar que o choro precisa ser contido”, contou.
Essa sensibilidade toda não nasceu só nela. Assim como uma geração de mulheres que sentem muito — e de tudo um pouco —, as avós de Giovanna, Lúcia e Zezé, são suas maiores inspirações.
“Minhas avós, Lúcia e Zezé, me ensinaram muito sobre ternura e cuidado. Minha avó Zezé, hoje, aos 90 anos, é uma pessoa que olha devagar, que escuta, que encontra beleza nas coisas mesmo depois de ter vivido coisas tão difíceis. Acho que a minha forma de sentir e de escrever tem muito dessa sensibilidade: prestar atenção e continuar vendo beleza quando nem tudo é só beleza”, relembra.
Do mesmo jeito que se encontrou com as avós, Lunetta sente que outras mulheres podem se encontrar na sua poesia. Segundo a poeta, essa escrita abre portas para novas formas de sentir, relacionar e sonhar, além de novas possibilidades, perspectivas e posturas no mundo.
“Hoje, eu me entrego muito mais. Me preocupo menos em fazer bonito e mais em ser verdadeira. Também tenho mais consciência do alcance da minha escrita, e isso me faz escrever com mais responsabilidade, sem perder a intimidade. No fim, a poesia continua sendo esse lugar que me acompanha em tudo: na festa, no choro, na vida”, finaliza a artista.