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DO BRASIL ATÉ A UCRÂNIA

Música alagoana volta a viralizar e é cantada por mulheres ucranianas em plena guerra

Popularizada pelo Barbatuques, 'Baianá', da Mestra Maria do Carmo, ganha versões ao redor do mundo; conheça a verdadeira origem da canção

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Imagem ilustrativa da imagem Música alagoana volta a viralizar e é cantada por mulheres ucranianas em plena guerra
| Foto: Valentina Levchenko - Arquivo pessoal

Boa noite povo que eu cheguei / mais outra vez apresentar meu baianá”. Você certamente já ouviu os versos da música “Baianá”, do grupo Barbatuques, sejam embalados por um beat eletrônico no remix do DJ Alok, vídeos nas redes sociais ou ecoando em múltiplas vozes de um coro. Fato é que a canção, lançada em 2011, já atravessou o mundo — do Brasil à Ucrânia. E, embora tenha ganhado dimensões globais, suas raízes seguem fincadas em Alagoas.

É comum que, de tempos em tempos, a música ressurja em alguma trend viral nas redes sociais — a que está em alta no momento são pessoas apresentando seus bairros ou cidades ao som da canção, usando até imagens de drone.

Mas, neste mês, brasileiros foram surpreendidos por um coral feminino ucraniano interpretando a música. O Caderno B entrou em contato com a maestrina do grupo, Valentina Levchenko. Segundo ela, a escolha por “Baianá” nasceu da força que a canção carrega, bem como do poder, da energia corporal e de um senso imediato de presença e vitalidade.

Canção popularizada pelo Barbatuques ganha versões ao redor do mundo e evidencia origem em folguedo alagoano
Canção popularizada pelo Barbatuques ganha versões ao redor do mundo e evidencia origem em folguedo alagoano | Foto: Divulgação

A entrevista foi realizada em inglês, com tradução livre da reportagem.

“Muitas das mulheres no vídeo [que viralizou] são de diferentes partes da Ucrânia, especialmente do leste, que continuam trabalhando com crianças em diferentes condições, perto da realidade da guerra. Através dessa música, conseguimos trazer um pouco de força, energia e alegria”, disse.

Valentina contou que precisou adaptar o arranjo musical para o estilo do grupo, já que a versão original é complexa e requer bastante preparação. “Nós cantamos a estrutura principal juntas e, no refrão, dou a elas a liberdade de achar suas próprias harmonias com as quais se identifiquem”, compartilhou.

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Ela afirma que conheceu a música muito antes que fosse famosa, quando passou um tempo no Brasil e conheceu Fernando Barba, do Barbatuques, e logo se apaixonou pela melodia. “Quando as pessoas escutam essa melodia, independentemente da cultura, elas não conseguem evitar que o corpo responda. Há um senso imediato de alegria, movimento e energia”, relata.

ANTES DA UCRÂNIA, MACEIÓ

Essa melodia, agora conhecida mundialmente, nasceu na capital alagoana, pelo grupo de folguedo Baianas Mensageiras de Santa Luzia, fundado em 1970 pela Mestra Maria do Carmo Barbosa e o Mestre Paulo Olegário. Em uma conversa com o Caderno B, Vanessa Góes, que dá continuidade ao trabalho de Maria do Carmo, disse não saber ao certo quando “Baianá” foi incorporada pelo grupo Barbatuques, mas que frequentemente recebe vídeos de diferentes artistas em diversos lugares do mundo cantando a obra.

Embora o nome remeta à Bahia, as baianas são um folguedo popular alagoano, surgido da junção do Samba de Matuto com a modificação do Maracatu, ambos de Pernambuco. “Tem elementos do pastoril, que trazem a cor azul e a encarnada, e as moças que ficam na frente, que são chamadas de embaixadoras, e tem a mestra e a contramestra, que fazem evoluções, dança, um instrumento de percussão, que é o zabumba e o ganzá”, explica Vanessa.

‘É ALAGOAS’

@dracindyfernandez Brasil 🇧🇷 Tour Favela da Rocinha 🇧🇷 #favela #rocinha #baiana #drone #riodejaneiro ♬ Baianá - Barbatuques

Essa troca cultural, que se iniciou em terras pernambucanas, resultou em uma grande celebração da cultura alagoana dentro e fora do Brasil. “É uma expressão que a Mestra falava pra gente, para o grupo dela, que ela não queria dinheiro, mas que ela queria que a voz dela, a música dela, ecoasse no mundo, que realmente é o que aconteceu. Ela não viu, mas a música dela tá no mundo todo, porque em vários lugares do mundo pessoas tocam e cantam essa música”, lembra Vanessa.

Para Valentina, essa troca cultural é importante para seu trabalho. “Eu gosto de misturar tradições e gosto de combinar a música ucraniana com a brasileira. Eu até gravei um álbum onde usei ritmos brasileiros em músicas ucranianas. Mas, ao mesmo tempo, eu me aproximo com respeito: aqui na Ucrânia, eu compartilho os ritmos do Brasil com as pessoas e vejo como elas os apoiam”, conta.

Por fim, a quase 35 horas de distância das terras europeias, o desejo em Alagoas é um só: o reconhecimento. “Quando as pessoas mandam essas músicas pra gente, elas citam nesses posts, em redes sociais, a Mestra Maria do Carmo e as baianas, porque muita gente não sabe, muita mesmo, que essa música está ligada ao nosso folguedo”, diz Vanessa. “O que eu gostaria é que a gente fosse um pouco mais valorizado. Muitas pessoas falam ‘viva a Bahia’, mas não é da Bahia, é de Alagoas”.

*Sob supervisão da editoria de Cultura

Tags:

Baianá Barbatuques cultura alagoana Folguedo Popular Música Ucraniana Troca Cultural

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