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GIRO DAS TRADIÇÕES

Rima afiada do mestre João de Lima é atração no Theatro Homerinho

Mestre da viola e da poesia integra programação do projeto Giro das Tradições e faz apresentação gratuita nesta terça-feira (31), às 19h

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Imagem ilustrativa da imagem Rima afiada do mestre João de Lima é atração no Theatro Homerinho
| Foto: Lula Castello Branco/Agência NC

“Com as ordens do Pai Celestial

Minha nuvem de versos é imensa

Se jorrar meia hora o povo pensa

Que é outro dilúvio universal

Derramando uma chuva de cistral

Enche toda barragem: chega mina

Toda água barrenta se refina

Fica doce igualmente melancia

Só um pingo da minha poesia

Enverdece a paisagem nordestina.”

Dizem que basta uma única palavra para que o coração e a mente de João de Lima se encham de inspiração — e que, dessa alquimia silenciosa entre memória e métrica, nasçam estrofes como essa, capazes de enverdecer não apenas a paisagem nordestina, mas qualquer sala de espetáculos onde o mestre decide soltar a voz. Usa-se a palavra "dizem" porque é assim que se fala de uma lenda.

Nesta terça-feira (31), às 19h, ele sobe ao palco do Theatro Homerinho, no Jaraguá, como atração do projeto Giro das Tradições, com entrada gratuita e classificação livre. A noite se anuncia como um encontro direto do público com um dos maiores violeiros e repentistas do Brasil. A apresentação é para todos os públicos.

O Giro das Tradições é uma iniciativa do Instituto de Vivências Artísticas (IVA) em parceria com a Secretaria de Turismo de Alagoas (Setur/AL), criada para aproximar o público alagoano das manifestações culturais mais enraizadas no estado. Cada edição convoca um representante da cultura popular nordestina para ocupar o palco do Theatro Homerinho, um dos espaços mais simbólicos de Maceió.

João de Lima chega a essa edição com uma trajetória que começa em Porto Real do Colégio, onde nasceu em 1943. A infância se deu em torno da roça e da cantoria. O pai, Damásio Correia Lima, era cantador, e o menino cresceu acompanhando desafios, festas e encontros em que a viola conduzia a noite. O aprendizado veio antes de qualquer formalização. Ao observar, ouvir, repetir, errar, voltar a tentar, entendeu que a poesia tinha ali a mesma função da enxada, era sobrevivência.

Imagem ilustrativa da imagem Rima afiada do mestre João de Lima é atração no Theatro Homerinho
| Foto: Reprodução

Essa base nunca deixou de aparecer no que escreve e canta. A paisagem do interior, os caminhos de terra, os trabalhos do dia e as conversas ao redor das casas permanecem como matéria recorrente, estrutura do pensamento poético do mestre. É desse lugar que surgem muitas das imagens que percorrem seus versos, conduzidas por uma métrica que se mantém firme mesmo quando improvisada.

O médico e folclorista viçosense Théo Brandão foi o grande porteiro da carreira de João de Lima. Foi ele quem o levou para cantar ao vivo pela primeira vez em uma rádio, abrindo o caminho para o programa A Hora dos Municípios, transmitido para todo o Nordeste. O alcance era enorme: cerca de 500 cartas chegavam por dia pedindo ao mestre que fizesse rimas ao vivo. A empreitada deu tão certo que ele virou atração permanente, passando depois pelas rádios Palmares e Progresso, sempre carregando a viola e os versos improvisados.

O rádio foi o trampolim, mas o sonho era maior. João de Lima queria ser famoso em todo o Brasil — e conseguiu, a passos metódicos e decididos. A convite do locutor Haroldo Miranda, apresentou-se nas TVs Rádio Clube de Pernambuco e Jornal do Comércio, no Recife. No Rio de Janeiro, conheceu radialistas e conquistou espaço nas principais emissoras da capital fluminense. Participou do trono do Show de Calouros do Chacrinha, do programa O Povo na TV no SBT, do Sem Censura na TV Educativa, de gravações para o Projeto Minerva com narração de Sérgio Chapelin, e até sentou na poltrona do Jô Soares.

Com mais de 20 folhetos e 25 livros publicados, João de Lima de Alagoas construiu uma obra marcada pelo que ele próprio chama de poesia limpa. São versos escritos em português correto, com rimas precisas, que podem ser ouvidos em qualquer escola, igreja ou casa de família.

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Para ele, o clichê do cantador com dicção arrastada e anasalada distorce a realidade. "O sertanejo não fala assim. Mesmo que seja analfabeto, não fala com aquela linguagem horrível, usando uma tonalidade vulgar ou pejorativa", disse em entrevistas ao longo da carreira.

A saudade é o combustível mais recorrente nos versos de João de Lima. Uma saudade específica, geográfica e sensorial. O cheiro da roça de Porto Real do Colégio, a textura da terra seca, os pés descalços na infância, as alpercatas que só largou quando já era homem feito. É dessa reserva afetiva que emergem imagens como a da paisagem nordestina que enverdece com um único pingo de poesia.

João de Lima é patrimônio vivo de Alagoas. Ao longo da carreira, ele também se dedicou a transmitir o ofício. Ensinou cantadores de todas as idades, inclusive veteranos que foram seus discípulos, e frequentou escolas com versos de conselho sobre fumo e violência, adaptando a forma do repente às necessidades do presente. Nesta terça-feira, sobe ao palco do Theatro Homerinho munido de uma viola, mas, principalmente, dessa trajetória cimentada em poesia. O convite, de acordo com a atriz Ivana Iza, proprietária do teatro mais movimentado da capital alagoana, é para entender, sem muita explicação, como a poesia de João de Lima de Alagoas é capaz de enverdecer a paisagem.

SERVIÇO

  • O quê: Giro das Tradições - com o cantador João de Lima
  • Quando: Hoje, terça-feira, 31 de março
  • Horário: A partir das 19h
  • Onde: Theatro Homerinho — Jaraguá, Maceió
  • Quanto: Gratuito | Classificação: Livre

Tags:

Cultura Popular Folclore Alagoano Giro das Tradições João de Lima Poesia Nordestina Teatro e Música

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