LITERATURA E CINEMA
Clássico de Jorge de Lima, ‘Calunga’ será adaptado para o cinema
Sob direção de Claufe Rodrigues e produção de Renata Magalhães e Pedro Bial, filme resgata a vida nos manguezais de Alagoas e aposta em produção com forte identidade local
As águas alagoanas, que Jorge de Lima imortalizou com o lirismo e o inconformismo de sua prosa em 1935, preparam-se para deixar o repouso das estantes e ganhar o movimento das telas. Quase um século após o lançamento de Calunga, o romance social que mergulhou na “mãe-lama” dos manguezais de Alagoas terá sua primeira adaptação cinematográfica, sob a direção de Claufe Rodrigues e com a produção associada de Renata Magalhães e Pedro Bial.
O projeto será apresentado oficialmente no dia 17 de abril, na Assembleia Legislativa de Alagoas, durante a solenidade de entrega do título de cidadã alagoana à cineasta Renata Magalhães, viúva de Cacá Diegues e atual presidente da Academia Brasileira de Cinema. A ocasião marca um reencontro do cinema com a identidade visual e humana do estado, longe do Sertão calcinado que normalmente domina o imaginário nordestino nas telas brasileiras.
Aqui não se trata da terra exaurida pela seca, mas de um cenário de abundância hídrica onde a miséria se esconde sob o espelho d’água. É o que o diretor define como um “Vidas Molhadas”, em alusão ao clássico de Nelson Pereira dos Santos inspirado em Graciliano Ramos. “Se Nelson Pereira dos Santos fez Vidas Secas, Calunga será o nosso Vidas Molhadas”, afirma Claufe Rodrigues.
A narrativa acompanha Lula Bernardo, um homem que carrega no corpo e na memória as marcas da fuga de uma infância miserável nos alagados. Ele retorna com o ímpeto de “curar” aquela terra, trazendo métodos sanitários para combater doenças como a maleita e o impaludismo. No entanto, seu progresso choca-se com o domínio arcaico do Coronel Totô, um senhor que governa o povoado através da criação de porcos e do medo.
O ator Marcos Palmeira confirmou interesse em interpretar o protagonista. Para o papel do coronel, está escalado o alagoano Chico de Assis, que ganhou projeção nacional em filmes de Cacá Diegues rodados em Alagoas, como Deus é Brasileiro, e em novelas como Velho Chico. O elenco contará com cerca de 70% de profissionais do estado.
O conflito central ganha contornos místicos e desoladores com a chegada do inverno. Entre as chuvas e a lama, surge a figura de um santo milagreiro, cuja presença acaba por desmantelar a pouca organização social e a frágil cadeia produtiva dos cambembes. Esses personagens, descendentes dos índios caetés empurrados pelos senhores de terra para os manguezais, formam o núcleo humano da obra: uma população marginalizada que retira do mangue o sustento diário em condições de extrema precariedade.
Para Claufe Rodrigues, que também assina o roteiro, a transposição da obra para o cinema representa uma oportunidade de retirar Jorge de Lima das bolhas estritamente literárias. “É uma história universal, em que dois reinos miseráveis se enfrentam, simbolizando a luta entre bem e mal, novo e velho, conhecimento e ignorância”, explica o diretor, que já dedicou parte da carreira a documentar a vida de grandes escritores, entre eles Fernando Pessoa e o próprio Jorge de Lima.
A produção terá sotaque marcadamente local. Toda a infraestrutura técnica, dos barracões de carpintaria à cenografia, será instalada em Alagoas. O filme conta com a fotografia de Nonato Estrela e a direção de arte de Luciana Buarque, nomes que irão traduzir visualmente o universo dos catadores de mariscos e pescadores que habitam as margens das lagoas. A preparação de atores ficará a cargo de Chico de Assis.
O projeto, viabilizado pela Poetica Produções através da Lei do Audiovisual, tem o governo de Alagoas como primeiro patrocinador. Além do longa de ficção, está prevista a realização de um documentário sobre a vida dos cambembes a partir do material de bastidores, uma tentativa de registrar, para além da ficção, a realidade de um povo que encontrou no manguezal seu último refúgio e sua única fonte de vida.
Nascido em União dos Palmares em 1893, Jorge de Lima tornou-se um dos principais escritores brasileiros do século 20, autor de poemas célebres como “Essa negra Fulô” e de obras reconhecidas internacionalmente, como Invenção de Orfeu. Médico, artista plástico e político, exerceu mandatos como deputado estadual em Alagoas e vereador no Rio de Janeiro. Dentro de sua vasta produção, Calunga figura como o livro mais social, relançado em 2023 pela Alfaguara em edição que marcou os 130 anos de seu nascimento e os 70 anos de sua morte.