LITERATURA
Coleção Palmar tensiona disputas sobre memória e identidade em Alagoas
Do Quebra de Xangô a outros silenciamentos, seleção de obras da Imprensa Oficial Graciliano Ramos busca dar voz ao pensamento local
Na educação básica, são muitos os capítulos da história: colonização, inconfidência mineira, abolição da escravidão. No caso de Alagoas, aprende-se sobre o ciclo da cana-de-açúcar, Marechal Deodoro e alguns povos indígenas. Mas a história é longa e, por vezes, alguns capítulos são esquecidos ou silenciados. Por aqui, um dos casos mais relevantes para a memória alagoana foi o Quebra de Xangô, episódio de violência religiosa que devastou terreiros em Maceió e que, por muito tempo, permaneceu à margem do debate público.
“Lembrar e esquecer são dois lados da mesma moeda, e há passados que são silenciados”, diz o antropólogo Maicon Marcante, ao falar sobre o Quebra, que completou 114 anos em fevereiro. Ao longo de sua pesquisa, que agora ganha forma em livro, Marcante parte de vestígios, marcas e escolhas que reconstroem a trajetória da Coleção Perseverança, um conjunto de 211 objetos sagrados que resistiram ao ataque de 1912.
Mais de um século depois, esses mesmos objetos ocupam outro lugar. Em 2024, a coleção foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e passou a ser reconhecida como patrimônio cultural brasileiro. É nesse movimento de resgatar o que foi apagado que se insere a Coleção Palmar, lançada recentemente pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Reunindo obras que atravessam diferentes períodos e perspectivas, a iniciativa propõe olhar para Alagoas a partir de suas camadas, da formação territorial às experiências religiosas.
Para o diretor-presidente da Imprensa Oficial, Mauricio Bugarim, a proposta vai além da publicação de livros. “A Palmar é mais uma coleção que reconhece e valoriza história e cultura alagoanas. Além de cultivar o sentimento de pertencimento, ela reafirma o compromisso do Governador Paulo Dantas em fortalecer a produção literária local, acolhendo escritores alagoanos ou radicados em Alagoas e cujas obras retratam o nosso estado. Isso também contribui, sobremaneira, para a formação de cada vez mais leitores. É assim que a Imprensa Oficial se consolida como braço social do Governo de Alagoas, transformando vidas por meio do incentivo à leitura”, afirma.
Mas colocar essas histórias em circulação não é um gesto neutro. Ao reunir e publicar esses títulos, a editora pública passa a ocupar um lugar decisivo: o de selecionar quais narrativas ganham visibilidade e circulam com legitimidade. Segundo Clarice Maia, coordenadora editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, a coleção ainda não está completa e pode receber novos livros que contem a história do estado por outras perspectivas. “Há uma busca cuidadosa de autores, parceiros e avaliação para que os livros expressem a história ou a narrativa sobre ela”, afirma.
Em meio a tantos capítulos, o estado se constrói como um território de disputas simbólicas, de identidades nacionalmente conhecidas e outras que sobreviveram à margem, sustentadas pela oralidade e pela resistência.
Para Maicon, as memórias são atravessadas por questões políticas. “No Brasil, em geral, há alguma dificuldade para se lidar com nossas memórias sensíveis, e nós temos muitos exemplos disso, como a escravidão. Acredito que o Quebra de Xangô passou (e ainda passa) por diversas tentativas de silenciamento, tanto na forma de rasura do próprio episódio como na banalização de seus efeitos”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele relata observar uma mudança gradual, em um espaço onde mais pessoas passam a discutir o episódio — seja na imprensa, seja em políticas públicas, como o questionamento sobre o nome da Avenida Fernandes Lima, que carrega a memória do jornalista, advogado e político apontado como um dos responsáveis pelo Quebra de Xangô.
Sua pesquisa, intitulada “Coleção Perseverança: uma etnografia da mediação no processo de patrimonialização”, é um dos quatro livros da Coleção Palmar, ao lado de “A Ocupação das Terras do Quilombo dos Palmares e a Criação de Vilas”, de Genisete Sarmento; “O Negro na Civilização Brasileira”, de Arthur Ramos; e “Negócios da Escravidão em Alagoas”, de Luana Teixeira. “Às vezes tenho a impressão de que é possível falar da maioria das principais memórias e esquecimentos de Maceió a partir da Perseverança”, diz Maicon.
Na leitura dele, a Coleção Perseverança também reinterpreta a forma como o passado é narrado. Marcas nos materiais, ausências no acervo e até os critérios que definiram o que foi preservado ajudam a revelar não só a violência da Quebra de Xangô, mas também os silenciamentos produzidos depois dela.
“Patrimônios sensíveis” — como define o autor — carregam tensões que não começam no passado, mas se atualizam no presente. No caso da Perseverança, essas fricções passam, sobretudo, pela relação entre o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), responsável pela guarda do acervo desde 1950, e o povo de santo, que reivindica reconhecimento e participação ativa nas decisões sobre o destino desses objetos.
Esse deslocamento — de objeto de estudo a sujeito de decisão — reconfigura também o sentido do próprio patrimônio. Se antes os itens eram vistos a partir de um olhar externo, hoje a sacralidade passa a ocupar o centro da discussão, em um contexto mais amplo em que grupos historicamente subalternizados têm reivindicado direitos sobre seus objetos musealizados e suas histórias.
Ainda assim, o caminho não é linear. A interlocução com os povos de terreiro, fundamental para a pesquisa, foi marcada por aproximações e choques. A tentativa de conciliar práticas museológicas com preceitos religiosos expôs limites e negociações constantes: o que pode ser exibido, como deve ser preservado, quem decide. Com a presença crescente de pessoas do Axé nos espaços acadêmicos, a separação entre “olhar científico” e “vivência religiosa” começa a se embaralhar, abrindo espaço para novas formas de produção de conhecimento.
É nesse cruzamento que a trajetória da coleção se conecta a uma história maior, de um estado que ainda negocia suas formas de lembrar. Em Alagoas, onde tantas narrativas foram construídas a partir de recortes específicos, revisitar esses vestígios é também confrontar os limites do que foi contado até aqui.
COLEÇÃO PALMAR
- A Ocupação das Terras do Quilombo dos Palmares e a Criação de Vilas, de Genisete Sarmento
- Coleção Perseverança: uma etnografia da mediação no processo de patrimonialização, de Maicon Marcante
- O Negro na Civilização Brasileira, de Arthur Ramos
- Negócios da Escravidão em Alagoas, de Luana Teixeira
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*Sob supervisão da editoria de Cultura