CHARMINHO
Baile charme transforma pista em espaço de pertencimento e resistência negra em Maceió
Movimento nascido nos bailes suburbanos do Rio de Janeiro chega à segunda edição na capital alagoana reunindo música, dança, estética e identidade
Quando a noite cai e as primeiras estrelas começam a aparecer, jovens negros saem de casa com cabelos estilosos, sapatos brilhantes e roupas cuidadosamente escolhidas. Pouco a pouco, chegam ao salão riscado por luzes coloridas. Minutos depois, os corpos já deslizam em sincronia — um passo para frente, dois para o lado, a mão atravessando o cabelo no tempo exato da batida. Os sapatos brilham no piso como se também dançassem. Antes mesmo de o primeiro refrão do R&B chegar aos ouvidos, o charme já está no ar.
Afinal, quando o DJ solta os acordes lentos, ninguém precisa anunciar, mas todo mundo sabe que é hora do passinho. Esse é o baile charme, manifestação cultural nascida no Rio de Janeiro nos anos 1980 e que, décadas depois, continua reunindo pessoas negras em torno da música, da dança e do pertencimento.
Na próxima sexta-feira (22), Maceió recebe a segunda edição do seu próprio Baile Charme, carregando décadas de uma história nacional. O movimento nasceu de forma espontânea durante festas que já aconteciam na capital fluminense. Em uma delas, em março de 1980, o DJ Corello fez as honras: “Chegou a hora do charminho, transe seu corpo bem devagarinho”. Pronto, dali em diante o movimento já estava batizado. Quando chegava determinado dia, as pessoas já sabiam para onde ir para curtir o charminho. Tempos depois, o charme passou a abranger vários gêneros musicais, como modern R&B, slow jam, classics e street soul.
Em poucos anos, o charme já era sucesso. Chegou a São Paulo, Espírito Santo, Bahia e vários outros estados brasileiros. Talvez você até já tenha visto vídeos nas redes sociais, como um que viralizou no ano passado, em que jovens de um baile em Salvador abriam espaço na rua para a passagem de uma viatura policial.
Por aqui, quem trouxe o charme foi Nego Zika, rapper, DJ e produtor cultural da cena hip-hop. Segundo ele, a ideia surgiu da própria comunidade maceioense. “Eu sempre senti que existia em Maceió um público conectado com R&B, soul, black music, charme, anos 2000 e toda essa estética preta urbana, mas que muitas vezes não tinha um espaço pensado pra ele”, diz.
Ele conta que, embora o movimento tenha se popularizado e conquistado novos espaços, o baile tradicional realizado no Viaduto de Madureira continua sendo uma das grandes referências.
“Ele é um símbolo histórico da cultura black e da resistência periférica através da música, da dança e do pertencimento. Aquilo sempre representou muito mais que uma festa. Representa identidade, comunidade e valorização da cultura preta. Então o Baile Charme MCZ nasce inspirado nessa energia, mas trazendo a nossa realidade de Alagoas, da periferia de Maceió e da nossa vivência cultural daqui. Também veio de uma vontade coletiva de criar um ambiente onde as pessoas pudessem se sentir livres, representadas e acolhidas através da música preta”, afirma.
‘NÃO É SÓ FESTA’
A frase de Nego Zika ajuda a explicar por que o baile charme atravessou décadas sem desaparecer. Embora tenha nascido nas periferias cariocas embalado pelo soul e pelo R&B, o movimento sempre carregou algo maior do que música. Nos salões, a dança coletiva, as roupas alinhadas e os passos sincronizados transformaram o baile em espaço de convivência e afirmação negra.
Em Alagoas, essa dimensão ganha ainda mais força diante da própria história do estado. Terra marcada pelo Quilombo dos Palmares e pela resistência negra, o baile charme encontra ecos em uma juventude periférica que busca espaços de pertencimento, expressão estética e celebração da própria identidade.
“Durante muito tempo os espaços culturais mais valorizados não foram pensados para o nosso povo ocupar. O Baile Charme chega justamente mostrando que a população preta periférica também merece viver arte, elegância, lazer e cultura com dignidade”, afirma Nego Zika.
A elegância, aliás, ocupa um lugar central dentro da cultura charmeira. Mas não necessariamente ligada ao luxo. Nos bailes, vestir-se bem também é linguagem: um modo de reafirmar a autoestima através de tecidos alinhados, acessórios dourados, cabelos desenhados e sapatos brilhando na pista.
“A elegância no charme não é sobre luxo, é sobre autoestima. É sobre o povo preto poder se enxergar bonito, estiloso, poderoso e ocupando espaços com confiança”, diz o produtor cultural.
O CHARMINHO
Para quem frequenta, o baile também funciona como memória afetiva. As músicas remetem aos anos 1990 e 2000, atravessando gerações entre refrões conhecidos, coreografias coletivas e referências da black music.
Mas, no baile charme, a música nunca vem sozinha. Os corpos se organizam quase naturalmente em coreografias coletivas. Os passos deslizam em sequência: o desfile, o sambinha, a mão atravessando o cabelo. Não importa se alguém conhece todos os movimentos ou se está entrando na roda pela primeira vez. Aos poucos, o lugar inteiro parece aprender junto.
No charme, a dança se transforma em linguagem coletiva. Surgida ainda nos bailes suburbanos do Rio de Janeiro, a chamada dança charme ajudou a construir a identidade do movimento através da elegância, da sensualidade e da sincronia entre os participantes.
A dança charme é construída a partir de sequências de passos executados coletivamente ao som do DJ, transformando a pista em um espaço de expressão corporal e conexão entre os participantes. Suas influências vêm dos bailes soul e funk das décadas de 1970 e 1980, movimentos que ajudaram a moldar tanto a estética quanto a musicalidade do charme. Embora o termo tenha se popularizado apenas nos últimos anos, muitos dos movimentos que hoje identificam o estilo — como o passo do desfile, o sambinha e o jat foe — já faziam parte dos bailes há décadas. Marcada pela elegância, sensualidade e sintonia entre os corpos, a dança se tornou um dos principais símbolos da cultura charmeira, reafirmando o baile como espaço de resistência, pertencimento e identidade negra.
Em Maceió, essa atmosfera também aparece como forma de acolhimento. “A dança coletiva cria uma sensação muito forte de comunidade. As pessoas se conectam através da música, da dança e da troca de energia. O baile acaba virando um espaço onde muita gente se sente confortável para ser quem é, sem julgamento”, diz Nego Zika.
Para muitos frequentadores, é justamente nesse momento que o baile deixa de ser entretenimento e passa a ser um espaço onde pessoas negras podem existir coletivamente com liberdade, afeto e autoestima.
“Muitas vezes nossa cultura foi colocada à margem ou tratada apenas como nicho. O Baile Charme mostra que existe público, existe potência cultural e existe uma juventude querendo se reconhecer nesses espaços”, afirma o produtor.
Apesar do crescimento do movimento, manter iniciativas como essa ainda envolve desafios estruturais. A falta de incentivo financeiro e apoio institucional continua sendo uma das principais dificuldades enfrentadas por produtores culturais independentes ligados à cultura periférica.
“Produzir cultura preta periférica muitas vezes significa trabalhar com poucos recursos e enfrentar falta de incentivo, patrocínio e investimento. Mas existe uma força muito grande da comunidade e do público que acredita no movimento. É isso que mantém o Baile Charme vivo”, diz.
CAMINHOS FUTUROS
Apesar do crescimento do movimento e da resposta positiva do público, manter um baile como esse de pé ainda exige insistência. Segundo Nego Zika, em Maceió, assim como em outras cidades do país, iniciativas ligadas à cultura preta periférica frequentemente enfrentam dificuldades para conseguir incentivo financeiro, apoio institucional e patrocínio.
Para ele, o desafio não está na falta de interesse do público, mas na forma como manifestações culturais negras ainda precisam disputar reconhecimento.
“Produzir cultura preta periférica muitas vezes significa trabalhar com poucos recursos e enfrentar falta de incentivo, patrocínio e investimento. Muitas vezes eventos ligados à cultura negra ainda precisam provar o tempo todo sua importância cultural e econômica”, afirma.
Ainda assim, ele acredita que o fortalecimento do baile passa justamente pela construção coletiva criada em torno dele. Segundo o produtor cultural, é a própria comunidade que mantém o movimento vivo, ocupando a pista, compartilhando os eventos e transformando o espaço em ponto de encontro da juventude preta maceioense.
“Existe uma força muito grande da comunidade, dos artistas independentes e do público que acredita no movimento. A gente entende que fortalecer a cultura preta em Alagoas também é continuar uma história de resistência que vem desde Palmares”, diz.
No fim da noite, quando as luzes começam a diminuir e a batida desacelera por alguns instantes, a juventude negra segue viva. Alguém ajeita a roupa diante do reflexo improvisado no vidro; outro repete o passinho pela última vez antes de ir embora. É assim, em meio à noite, que o baile charme segue fazendo o que faz há décadas: transformando música em abrigo.
*Sob supervisão da editoria de Cultura