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Ítallo França lança “CATATAU”, disco que parte de Alagoas para pensar o Brasil

Com participações de Zé Ibarra, Marina Nemesio e Tori, álbum mistura memória, linguagem e cotidiano brasileiro a partir do olhar de um artista arapiraquense

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Imagem ilustrativa da imagem Ítallo França lança “CATATAU”, disco que parte de Alagoas para pensar o Brasil
| Foto: Elisa Maciel

Ninguém é uma coisa só. Tem sempre um acúmulo por trás de cada pessoa, de cada cidade, de cada artista. Restos, memórias, manias, amores, ressentimentos, fé, vergonha, desejos, traumas. No português popular, existe uma palavra capaz de carregar tudo isso sem precisar explicar demais: catatau.

Catatau é coisa demais transbordando de dentro da palavra. Foi esse o nome escolhido por Paulo Leminski para seu romance mais hermético e experimental, um livro que parece exigir do leitor um mergulho em um mar de pensamentos sem garantia de retorno. Meio século depois, a mesma palavra reaparece nas mãos do cantor e compositor arapiraquense Ítallo França. Não por acaso.

Lançado nesta semana nas plataformas de streaming, “CATATAU”, quarto álbum de estúdio do artista, reúne Arapiracas, Alagoas, Nordestes e Brasis. Sertões atravessados por baleias vivas, hermetismos pascoais, prosa, poesia, gente e canções que observam o Brasil a partir de dentro. É um disco de acúmulo, de linguagem e de pertencimento, construído por um artista que transforma o próprio território em matéria-prima para pensar o mundo.

Ítallo França faz do cotidiano alagoano um argumento nacional

Com participações de Zé Ibarra, Marina Nemesio e Tori, artista de Alagoas lança seu trabalho mais ambicioso e enraizado
Com participações de Zé Ibarra, Marina Nemesio e Tori, artista de Alagoas lança seu trabalho mais ambicioso e enraizado | Foto: Elisa Maciel

A capa do "CATATAU" foi fotografada em Arapiraca. A sétima faixa do disco começa com “A Maceió do Sururu”. O título é uma palavra que qualquer nordestino reconhece. Quando o novo disco de Ítallo França começa a tocar e se ouve o burburinho do mercado, não dá para imaginar que o artista vai, mais pra frente, samplear um aviso sonoro de um metrô paulistano. Ítallo França não faz concessão geográfica. Parte de Alagoas porque é dali que vê o mundo. No álbum, o mundo aparece inteiro.

"CATATAU" foi lançado pelos selos Esfera e LOCO Records, com distribuição digital da Virgin Music. Coproduzido por Paulo Novaes, o trabalho reúne treze faixas que passeiam por samba minimalista, balada nordestina dos anos 1980, psicodelia e MPB de câmara. No centro de tudo, segundo o próprio artista, está “a palavra e os modos de se construir um discurso dentro de uma canção”.

O disco é habitado por personagens retirados da vida comum, tratados com uma dignidade que o senso estético costuma negar a eles. Pelé é um vendedor de picolés da infância de Ítallo e se transforma em um samba que o compositor define como a peça-chave do álbum. Nina, sua mãe, revendedora de Avon, aparece em uma faixa que mistura memória afetiva com o primeiro governo Lula e a precarização do trabalho doméstico. Lolô, a sobrinha representante da geração alfa, surge entre referências a ancestralidade, K-pop e tranças nagô.

Imagem ilustrativa da imagem Ítallo França lança “CATATAU”, disco que parte de Alagoas para pensar o Brasil
| Foto: Divulgação

Com o mesmo olhar, "CATATAU" observa como pequenos gestos de permanência ainda sobrevivem em meio à lógica exaustiva do trabalho e do consumo, sem retocar o que encontra pelo caminho. O cantor e compositor arapiraquense define o disco como “um respiro” e uma tentativa de chamar o povo para uma conversa, um café com o que alivia e engasga neste Brasil tão vasto.

A ficha técnica une estados e cenas musicais, costurando essa ideia de um disco de todo mundo. Domenico Lancellotti toca bateria em sete faixas. Zé Ibarra compõe e canta a penúltima música do disco. Marina Nemesio e Tori participam nos vocais. Paulo Novaes, além da coprodução, assume guitarras, violões e backing vocals. Há ainda flauta transversal de Leandro Floresta, pianos de Julia Guedes e Tiago Luz, e gravações realizadas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas. São artistas independentes construindo redes afetivas e criativas fora da lógica das grandes gravadoras. Esse movimento coletivo ajuda a entender o próprio disco.

O álbum também dialoga com uma constelação de referências que vai de Eduardo Coutinho a Graciliano Ramos, de Caetano Veloso a Drummond, de Luiz Gonzaga a João Donato. Nenhuma aparece como um mero enfeite. Todas entram como interlocutoras do que Ítallo tem a dizer.

Cantor e compositor arapiraquense fala sobre trabalho, linguagem, memória e o novo álbum, “CATATAU”, lançado nesta semana
Cantor e compositor arapiraquense fala sobre trabalho, linguagem, memória e o novo álbum, “CATATAU”, lançado nesta semana | Foto: Elisa Maciel

“Janeiro” e “dezembro”, lançadas como singles, compartilham melodia e métrica, funcionando quase como espelhos. Uma projeta o mundo possível da escrita engajada; a outra acompanha o próprio gesto de procurar inspiração no cotidiano.

Se no disco anterior, “Tarde no Walkiria” (2023), Ítallo França investigava a si mesmo, em "CATATAU" parece menos interessado no “eu” do que em responder ao mundo ao redor. E é na busca por essas respostas que o autor faz seus deslocamentos, escancarados na mistura de referências que no fim reverberam uma coisa só, o Brasil. Talvez seja isso mesmo, o Brasil é um catatau.

‘O bom de estar em São Paulo é perceber o quanto sou alagoano’

O cantor, compositor e baixista arapiraquense Ítallo França vive entre São Paulo, onde mora atualmente, e o repertório afetivo que construiu entre o Agreste e Maceió ao longo da última década. Depois da circulação nacional de Tarde no Walkiria (2023) e do alcance de canções como “Retrato de Maria Lúcia”, o artista lança agora CATATAU, quarto álbum de estúdio da carreira. Ao Caderno B, ele fala sobre trabalho, linguagem, memória, geração alfa, precarização e o que mudou em sua maneira de enxergar Alagoas.

CADERNO B. Catatau é uma palavra que significa muita coisa ao mesmo tempo. Por que ela nomeia este disco?

ÍTALLO FRANÇA. Eu gosto da palavra “Catatau” porque, além de engraçada, sonora e muito brasileira, ela parece não se comprometer com apenas um significado e, melhor: pode significar uma coisa e o seu oposto. Nomes assim servem muito bem para intitular coisas de arte. No caso do meu “Catatau”, acredito que seja pelo acúmulo de assuntos que o disco aborda. Catatau como acúmulo, volume de coisas, nesse caso, palavras. E, na capa, estou eu aos meus 10 anos, posando para uma 3x4, quando eu era um catatauzinho.

“Nina do Avon” é ao mesmo tempo a faixa mais íntima do disco e uma das mais políticas. Fala mais sobre ela? Como se equilibra afeto e crítica social dentro de uma mesma canção?

“Nina do Avon” é uma música também sobre minha mãe. “Também” porque entendo não ser só sobre ela e é possível que ela, minha mãe, também não seja a principal questão da música. O ano de 2002, as movimentações do mundo, os anos pós-2002, as movimentações do mundo, o ano de 2025, quando fiz a canção, e as movimentações do mundo foram o fundamento da faixa. Tem essas coisas todas ali descritas, ainda que não estejam.

“Pelé Dotô” você descreve como a canção-chave do álbum. O que um vendedor de picolés tem a dizer sobre o Brasil de hoje que um economista ou um político não conseguem dizer?

Uou, não sei. Ensaiei algumas respostas, mas não consegui pensar nada melhor que sua provocação. “Pelé Dotô” traz a questão da precarização do trabalho em diferentes níveis e épocas. Acho uma canção-chave porque esse tema era uma das minhas obsessões antes mesmo de iniciar o disco ou pensar sobre ele. Gosto do que consegui escrever nessa letra e da fina ironia que, aliás, passeia pelo “Catatau” inteiro.

O disco foi feito de forma muito coletiva, com muita gente talentosa e uma rede de artistas independentes. Como isso muda o resultado final e como o processo foi diferente do seu disco anterior?

Eu não queria mais fazer um disco só com a minha cara. Queria a minha cara, sim, mas junto com outras caras também. Houve um tempo, e talvez isso tenha sido geracional, em que parecia legal tocar tudo, gravar tudo e fazer um disco com ficha técnica de um nome só. Eu tenho pavor. Queria um trabalho coletivo, abraçado por outros grandes artistas, ouvido por eles também. E foi bom demais. Estar em São Paulo ajudou muito nisso. Nos dois últimos discos, eu só não fiz isso por uma questão de pandemia e escassez de recursos.

Em “Alô Alô, Lolô”, sua sobrinha entra no disco como representante de uma geração. O que te fez olhar para ela, para o K-pop e o inglês com tanta seriedade?

Fiz a música como um aceno à geração alfa, da qual Lolô faz parte. Eu não faço coro com quem gosta de ridicularizar os novos hábitos da juventude. Do contrário, eu adoro. E aprendo no meu consciente e satisfeito lugar de millennial. Claro: tem coisa ruim também se passando na cabeça dos novinhos e tenho noção do que acontece, às vezes quero não ter, mas não se deve jogar o bebê com a água do banho. Em tudo, existe o que se aproveita e o que não. Sou curioso e tenho boas expectativas sobre os mais jovens e quero enxergar o que eles estão enxergando. Isso é político. Por isso, a “tanta” seriedade. (risos).

“Baleias vivas no Sertão”. Me fala um pouco sobre essa construção. O que ela quer dizer hoje?

Baleia morreria no sertão de Vidas Secas e “acordaria feliz num mundo cheio de preás”. Os preás que ela caçava para o consumo de Fabiano e sua família. Ela é a heroína que morre no romance-conto de Graciliano Ramos. Na letra de “janeiro”, quis sugerir um mundo em que Baleia não morresse.

Você traz o sujeito mundano como centro do álbum, evocando inclusive o trabalho. Como você vê o trabalho atualmente, justamente quando o país discute o fim da escala 6x1, por exemplo?

Fui trabalhador celetista por alguns anos e em diferentes períodos da minha vida. Em Arapiraca, Maceió e São Paulo. Sempre na escala 6x1. Aquilo era muito ruim. Para mim, faltava tempo para se viver uma vida com qualidade e eu sempre pedia demissão desses empregos. Sinto que há um sentimento coletivo de que a escala 6x1 tem que acabar. Não faz sentido continuar. A questão do trabalho no disco acontece porque, além do interesse pelo tema, também tive experiências como CLT e no trabalho informal, claro.

Que consequências existem quando alguém se reconhece como é? Pergunto isso porque você já disse que em “Tarde no Walkiria” reconheceu sua cor e que agora lida com as consequências.

A gente passa a enxergar um mundo diferente e isso pode doer como pode alegrar. Existe beleza e tristeza em tudo que a gente ousa conhecer melhor. Digo por mim: vale a pena. Em “Tarde no Walkiria” e, mais ainda, em “O Time da Mooca”, essas questões naturalmente se apresentaram na minha vida e fui lidando.

Por fim, o lugar é algo muito central no teu trabalho: Arapiraca, Alagoas, Brasil. Como é sua relação hoje com sua cidade, estado e país?

Relação de amor total. Arapiraca é a terra-mãe, onde nasci e me criei por 23 anos. Maceió é a cidade onde morei por cinco anos e que me formou como adulto. Sinto um amor louco por Maceió. O bom de estar em São Paulo é perceber o quanto sou alagoano. E essa é a melhor coisa. No disco, isso fica escancarado.

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Álbum Catatau cultura alagoana Ítallo França Memória e Identidade Música Nordestina Produção Musical Coletiva

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