NESTA SEXTA
O malabarismo lírico de Lisete Farias chega ao Theatro Homerinho
Espetáculo gratuito no Theatro Homerinho dialoga com Drummond e propõe experiência de contemplação por meio do circo contemporâneo
“Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo”. O trecho, que mais parece um retrato atual do trabalho, é, na verdade, o início de “Elegia 1938”, poema de Carlos Drummond de Andrade. Publicado em 1940, o texto é um dos mais conhecidos do autor e, ao longo de cinco estrofes, apresenta um lamento sobre a sociedade, em um contexto de pré-Segunda Guerra Mundial, além de uma crítica à mecanização da vida.
Um dos principais poetas da segunda geração do modernismo brasileiro, Carlos Drummond de Andrade fazia das palavras um verdadeiro malabarismo na literatura brasileira. Agora, esse ato quase circense chega ao público de outra forma: não pelas palavras, mas pelo corpo. “Elegia – Malabarismo Lírico”, solo de circo de Lisete Farias, chega aos palcos do Theatro Homerinho nesta sexta-feira (29), inspirado diretamente pelo poema de Drummond.
Reunindo diferentes linguagens artísticas, a intérprete conduz a plateia por temas como amor, fragilidade e tempo, contracenando com o malabarismo de Drummond. Se ele, por um lado, fazia das palavras uma brincadeira, Lisete faz do circo uma linguagem.
O solo é definido pela artista como um convite à pausa, à escuta e à contemplação, oferecendo ao público uma experiência artística que ressignifica o circo como espaço de poesia e reflexão. Segundo ela, o convite para sair das telas e ocupar uma sala de teatro pode ser uma atitude atrevida e desafiadora em tempos de fluxo constante de informações e estímulos visuais.
“Acho que o poder do teatro, no sentido amplo da palavra, convida o espectador a experimentar outros estados de ânimo por meio de estímulos multissensoriais. Estar presente é fazer parte desse universo ímpar que cada trabalho traz à cena”, diz.
De acordo com Lisete, sua relação com o texto de Carlos Drummond começou em 2018, em El Salvador, em uma época em que se sentia atravessada pela angústia e pelo imediatismo.
“Queria levar para a cena essa fragilidade que Drummond sabiamente consegue transmitir por meio de sua poesia. Encontrei narrativas visuais que me ajudam a identificar pontos em comum mencionados por Drummond. Percebo, na estrutura repetitiva do malabarismo, o mecanicismo da vida cotidiana; encontro a melancolia na dança e na manipulação das fitas entrelaçadas utilizadas em cena; a densidade das palavras nas pétalas de rosa vermelha; e a dança vertical como ponto catártico de toda essa carga histórica que cada pessoa carrega”, afirma.
Além disso, ela conta que ambos os malabarismos — o de Drummond, com as palavras, e o dela, com o corpo — dialogam de forma clara.
“Elegia é tão atual que vejo como ponto de interseção a própria discussão sobre a escala 6x1, que traz à tona a exploração do trabalhador e a necessidade de tempo para viver”, comenta.
Se, em “Elegia 1938”, o poema é linguagem e narrativa, o mesmo acontece com as múltiplas formas de arte presentes no espetáculo. “Elegia – Malabarismo Lírico” reúne dança aérea, dança contemporânea, instalação e malabarismo — linguagens que compõem uma única história.
Segundo a artista, o título do espetáculo propõe um encontro entre força e sensibilidade. “Fragilidades e fortalezas são aspectos que pertencem a todos os seres humanos, e a poesia consegue mostrar isso de forma muito hábil, assim como a relação entre o circo e o corpo. São forças que coexistem de forma delicada e arriscada”, relata.
A NOVA ROUPAGEM DO CIRCO
Lisete pesquisa o circo e seu diálogo com a pedagogia e diferentes linguagens das artes cênicas. O que mais a encanta, contudo, é o circo contemporâneo.
“Essa linguagem é muito interessante porque trabalha outra dimensão da dramaturgia, na qual os aspectos da destreza, do espanto e do virtuosismo não são um fim em si mesmos. Esses elementos aparecem de forma sutil, sem tanto protagonismo. Essa busca por uma nova escritura circense se desenvolve com o desejo de aguçar outros sentidos no espectador, rompendo, assim, com um modelo tão definido do circo tradicional”, diz.
Alagoana com passagens por vários países, da Guatemala à Suíça, Lisete falou ao Caderno B sobre voltar a Maceió para se apresentar gratuitamente nos palcos do Theatro Homerinho. “Estou muito feliz por me apresentar em Maceió e, principalmente, por ter escolhido o Theatro Homerinho, que é uma casa nova para os artistas da terra, em um bairro que reúne uma diversidade de atividades culturais e que espero que se sustente ao longo do tempo”, compartilha.
O espetáculo é uma realização da Escena Circo e foi contemplado pelo edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de Maceió (Semce).
“Essa peça tem uma proposta muito aberta, que deixa uma margem ampla para o público processar suas observações e emoções. O que gosto de destacar é justamente essa proposta cênica diferente que o circo contemporâneo apresenta. Talvez a surpresa esteja aí: em encontrar uma dramaturgia circense distinta”, finaliza a artista.
Serviço:
- O quê: Elegia – Malabarismo Lírico, solo de circo de Lisete Farias
- Quando: Hoje, 29 de maio
- Horário: 20h
- Onde: Theatro Homerinho (Rua Sá e Albuquerque, Jaraguá)
- Quanto: Gratuito
- Classificação indicativa: 12 anos
*Sob supervisão da editoria de Cultura