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LITERATURA

‘Grande Sertão: Veredas’ é difícil mesmo? Especialistas analisam obra

Livro de João Guimarães Rosa, que está completando 70 anos, traz elementos comuns na atualidade

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Imagem ilustrativa da imagem ‘Grande Sertão: Veredas’ é difícil mesmo? Especialistas analisam obra
| Foto: Reprodução

Publicado em 1956, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, foi reconhecido desde seu lançamento como uma das obras mais importantes da literatura brasileira. Em resenha publicada naquele ano, Antonio Candido destacou sua capacidade de transcender o regionalismo ao transformar a realidade do sertão em uma reflexão universal sobre a condição humana. Prestes a completar 70 anos, o romance permanece relevante por abordar questões como bem e mal, medo, morte, violência e amor.

A narrativa é conduzida por Riobaldo, ex-jagunço e fazendeiro, que relata suas experiências no sertão a um interlocutor chamado “doutor”. Ao longo do monólogo, revisita suas aventuras, conflitos e a relação afetiva com Diadorim, personagem cuja identidade continua despertando debates. A obra inovou tanto pela forma quanto pela linguagem, tornando-se referência fundamental da literatura brasileira.

As comemorações pelos 70 anos incluem novas publicações relacionadas ao autor e à obra. Entre elas estão biografias de Guimarães Rosa, um audiolivro narrado por Caio Blat, uma edição comemorativa do romance e livros de crítica, memória e ensaio dedicados ao universo rosiano.

O livro de Guimarães Rosa é considerado fundamental para a literatura brasileira, frequentemente estudado em escolas e universidades, apesar de descrito como uma leitura desafiadora. O que o exatamente o torna tão genial? É mesmo uma leitura difícil? Como embarcar no universo de GSV?

Especialistas destacam diferentes razões para a importância do romance. Para Yudith Rosenbaum, professora de literatura e crítica literária, Rosa transforma o sertão mineiro em representação da complexidade do Brasil e da experiência humana, articulando dimensões históricas, míticas, metafísicas e psicológicas. A obra combina aventura, amor e guerra, ao mesmo tempo que problematiza conceitos como verdade, destino, acaso e livre-arbítrio.

O pesquisador e crítico literário Erico Melo, por sua vez, considera o romance o ponto culminante do regionalismo moderno e, simultaneamente, sua superação. Para ele, a trama épica, a invenção linguística, o caráter filosófico das reflexões de Riobaldo e a poesia presente na narrativa formam uma combinação singular na literatura mundial.

Já a professora e tradutora australiana, Alison Entrekin, ressalta a capacidade do livro de reunir múltiplas dimensões: narrativa de grande alcance, revolução formal e renovação da linguagem. Segundo ela, a obra permanece aberta a novas interpretações e continua gerando debates e pesquisas acadêmicas.

Os especialistas concordam que a leitura proporciona contato com uma linguagem original, marcada pela fusão entre oralidade sertaneja e elaboração literária. O leitor encontra uma reflexão sobre o Brasil e suas contradições, além de uma narrativa que alterna momentos de beleza, humor, violência e questionamentos existenciais.

A atualidade da obra também é frequentemente destacada. Temas como violência, desigualdade, marginalização, ausência do Estado, abuso de poder e conflitos morais continuam presentes na sociedade contemporânea. Além disso, o romance discute a complexidade das identidades humanas e a impossibilidade de reduzir o bem e o mal a categorias fixas.

Um dos aspectos mais marcantes de Grande Sertão: Veredas é sua linguagem. Guimarães Rosa combina fala popular, regionalismos, palavras de origem estrangeira, neologismos e construções inovadoras. O resultado é uma escrita que pode parecer estranha inicialmente, mas que amplia as possibilidades expressivas da língua portuguesa. Sua inventividade formal é apontada como uma das maiores realizações da literatura brasileira.

Quanto à dificuldade da leitura, os especialistas reconhecem que o início pode ser desafiador devido à linguagem e à estrutura narrativa fragmentada. No entanto, afirmam que a compreensão se torna mais natural à medida que o leitor se familiariza com a voz de Riobaldo. Recomenda-se persistência, leitura em voz alta, atenção aos nomes das personagens e, se possível, uma releitura após a conclusão do livro.

Ao definirem a obra em poucas palavras, os especialistas enfatizam sua dimensão de travessia e transformação. Para Rosenbaum, ela se resume na frase “Viver é muito perigoso”; para Melo, é “transmutação e atravessamento”; e, para Entrekin, constitui um rito de passagem para quem deseja compreender a complexidade do Brasil.

Entre as leituras recomendadas após o romance estão Sagarana, especialmente o conto A hora e vez de Augusto Matraga, Primeiras estórias e Corpo de baile, conjunto de novelas que integra o mesmo universo criativo de Grande Sertão: Veredas.

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