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QUADRILHAS JUNINAS

Uma dança que é a cara do Nordeste

Das cortes europeias aos arraiais nordestinos, quadrilhas juninas seguem como uma das principais expressões da cultura popular brasileira

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Quadrilhas juninas se tornaram uma forte expressão cultural do Nordeste
Quadrilhas juninas se tornaram uma forte expressão cultural do Nordeste | Foto: Ailton Cruz/Arquivo

O ano era 1808. Recém-instalada no Brasil, a corte portuguesa trouxe na bagagem hábitos, costumes e manifestações culturais que ajudariam a moldar a vida social do país anos depois. Entre elas, estava a “quadrille”, dança de salão popular entre a aristocracia francesa, inspirada em formações do country dance inglês e marcada pela disposição de casais em fileiras e pelos movimentos coreografados.

Séculos depois, a cena ainda é reconhecível: pares organizados, passos ensaiados e um grande convite à celebração coletiva. O que mudou foi o contexto. Incorporada às festas juninas brasileiras, a antiga dança europeia ganhou novos ritmos, sotaques e significados até se transformar em uma das expressões mais emblemáticas da cultura popular nordestina: a quadrilha junina.

As próprias festas de junho são resultado de encontros culturais ao longo do tempo. Originalmente associadas às comemorações pela fartura das colheitas durante o solstício de verão no Hemisfério Norte, elas foram incorporadas pela tradição católica e passaram a homenagear santos como São João, Santo Antônio e São Pedro. No Brasil, especialmente no Nordeste, essas celebrações ganharam identidade própria.

Muita coisa mudou até aqui. Os figurinos tornaram-se mais elaborados, as coreografias ganharam teatralidade e as apresentações passaram a reunir centenas de participantes e torcidas apaixonadas. Entre as décadas de 1930 e 1960, o forró consolidou-se como a trilha sonora dos festejos juninos, fortalecendo ainda mais a relação entre música, dança e tradição.

Mesmo em constante transformação, a essência permanece: celebrar o encontro, a coletividade e a cultura popular. Não por acaso, em 2024, a quadrilha junina foi reconhecida como manifestação da cultura nacional.

Para o pesquisador João Lemos, o percurso da quadrilha no Brasil é um exemplo de como as manifestações culturais se transformam à medida que são apropriadas por quem as vivenciam. “A quadrilha vai criando sua identificação própria com elementos ameríndios e também com elementos afro-brasileiros. Isso vai sendo inserido na forma da dança, do cortejo, da roda. É um processo natural de evolução da manifestação cultural”, fala.

Público poderá conferir mais uma edição do Forró e Folia a partir da segunda-feira
Público poderá conferir mais uma edição do Forró e Folia a partir da segunda-feira | Foto: Ailton Cruz/Arquivo

Essa adaptação permitiu que uma dança aristocrática europeia se tornasse uma expressão profundamente enraizada no Nordeste. Ao longo do tempo, elementos locais foram incorporados às apresentações sem que as características originais desaparecessem completamente. Movimentos como o anarriê e o anavantú, a roda, o túnel e o casamento matuto permanecem presentes em muitas quadrilhas, inclusive nas estilizadas, que hoje ocupam os concursos juninos.

Mas as transformações não ficaram restritas ao aspecto simbólico. Segundo João Lemos, as quadrilhas se tornaram também um importante motor econômico durante o período junino.

“Hoje elas são parte essencial da potencialização do turismo e da economia nordestina. A quadrilha movimenta costureiras, músicos, produtores, cenógrafos, locadores de estruturas e uma série de profissionais. É uma cadeia econômica muito significativa”, afirma.

A força das quadrilhas está diretamente ligada ao forró. Para o pesquisador, o gênero musical foi fundamental na consolidação da identidade cultural nordestina ao longo do século XX.

O palco da tradição

A mistura entre memória e renovação poderá ser vista em mais uma edição do Forró & Folia. Há mais de duas décadas realizado pela TV Gazeta, o concurso consolidou-se como uma das principais vitrines da cultura popular alagoana, valorizando o trabalho dos quadrilheiros e contribuindo para a preservação de um patrimônio cultural que atravessa gerações.

Em 2026, o evento ganha ainda mais força com a parceria da Liga das Quadrilhas de Alagoas (LIQAL). A transmissão ao vivo das grandes finais pela TV Gazeta ampliará o alcance do espetáculo para os 102 municípios de Alagoas.

De 22 a 26 de junho, o Parque da Pecuária, em Maceió, receberá as apresentações das quadrilhas participantes em uma estrutura preparada para acolher grupos, torcidas e visitantes. Além das disputas, o espaço contará com praça de alimentação, comidas típicas e áreas de convivência, reunindo elementos que fazem dos festejos juninos uma das mais importantes manifestações culturais do estado.

As quadrilhas classificadas disputarão a grande final no dia 26 de junho, em uma celebração que sintetiza a trajetória dessa tradição: uma dança que nasceu nos salões da Europa, ganhou novos significados em terras brasileiras e encontrou no Nordeste um dos seus maiores símbolos de identidade, pertencimento e festa.

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