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MÚSICA

A grandeza do comum

Em ‘CATATAU’, artista alagoano Ítallo França canta o trabalho, o amor, a vida e a busca por um mundo cheio de preás

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Em entrevista exclusiva, Ítallo França fala sobre o novo trabalho: CATATAU
Em entrevista exclusiva, Ítallo França fala sobre o novo trabalho: CATATAU | Foto: Elisa Maciel/Divulgação

É possível pensar em amores e afetos sem o espaço do posicionamento político? Para Ítallo França, essa é uma missão difícil - mas não impossível. Cantor e compositor, Ítallo é nascido em Arapiraca e, ao longo de quase dez anos, construiu uma obra que caminha justamente no encontro entre o íntimo e o coletivo.

Entre quatro discos - “Casa” (2016), “O Time da Mooca” (2020), “Tarde no Walkíria” (2023) e o recente “CATATAU” (2025) -, França transforma em música o que normalmente passa despercebido na vida ordinária: o trabalhador comum, as relações de vizinhança, as memórias de infância, o futebol de bairro, os amores possíveis e os conflitos de um Brasil visto a partir das margens.

Alagoano morando em São Paulo, seu trabalho também carrega uma atenção especial para o estado onde nasceu. Arapiraca, Maceió, o agreste, o litoral, os personagens anônimos e as manifestações culturais de Alagoas aparecem como matéria-prima de uma escrita que enxerga grandeza na vida cotidiana.

Em “CATATAU”, álbum com 13 faixas lançado em maio deste ano, essas questões ganham novos contornos ao se encontrarem com reflexões sobre trabalho, desigualdade, pertencimento e futuro. “Catatau”, por si só, é uma palavra múltipla - grande, excessiva, difícil de caber em uma única definição. Pode remeter também ao romance experimental de Paulo Leminski que inspirou o título do disco, mas também à ideia de excesso e de um emaranhado de histórias e personagens que se cruzam ao longo das canções.

Quem dá uma pausa para dar play no álbum CATATAU, de Ítallo França, pode perceber que a sensação é como atravessar cidades, interiores e olhar atentamente enquanto personagens anônimos vão aparecendo pelo caminho. Há política, mas ela raramente surge como palavra de ordem; aparece no detalhe - do trabalho, desigualdade, na lembrança de 2002, na Maceió do sururu e dos paredões e do amor que tenta sobreviver ao peso do mundo.

Ao Caderno B, Ítallo França falou sobre a relação entre afeto e política, a vida comum como matéria de arte, o deslocamento entre Alagoas e São Paulo e o papel da música em tempos de desencanto. Confira a entrevista!

Ítallo França fala da forte relação que mantém com Alagoas, mesmo morando em SP
Ítallo França fala da forte relação que mantém com Alagoas, mesmo morando em SP | Foto: Elisa Maciel/Divulgação

GAZETA DE ALAGOAS - Você costuma escrever sobre aquilo que muita gente considera banal: o jogo de futebol, o trabalhador comum, as pequenas alegrias do cotidiano. Em um país acostumado a enxergar o extraordinário como único tema digno da arte, o que te interessa tanto nesses movimentos quase invisíveis da vida comum?

ÍTALLO FRANÇA - É algo que me pergunto também. Fiz um disco em 2020 chamado “O Time da Mooca” que também comentava sobre a vida comum e aparentemente banal de personagens de Arapiraca, onde morei por mais de 20 anos. Quem conhecia o “Time” não estranhou o CATATAU e a comparação foi imediata. Acho que eu escrevo sobre essas coisas por me comover muito com elas. A vida ordinária é sempre extraordinária.

G.A. - Você já comentou que queria fazer um disco sobre trabalho porque sentia que esse debate foi sendo deixado de lado. Como trabalhador, quais das nossas histórias você acha que ainda não foram contadas pela música brasileira contemporânea?

I.F. - Putz, difícil. Acho que muito já foi dito sobre a vida do trabalhador brasileiro na música popular do Brasil, mas ainda é possível, com as novas questões que vão se apresentando no mundo o tempo todo, que esse assunto continue sendo discutido. Foi o que pretendi em CATATAU. Em 2024, eu pretendia fazer um disco sobre questões do trabalho. Na minha cabeça, eu até achava que faria um disco ainda mais “do trabalho” do que acabou se tornando o CATATAU. Claro que eu já pensava sobre isso antes, há anos penso, porém não saberia te precisar o momento em que essa ideia surgiu. Geralmente, a gente convive com os problemas antes de expô-los.

G.A. - Você é formado em Direito e já disse que enxerga a música como um talento que poderia ser desenvolvido como qualquer outro. Como você equilibra disciplina e sensibilidade no seu processo criativo?

I.F. - Eu me acho um compositor de laboratório (risos). Meus amigos mais próximos sabem que passo um tempo sem fim escolhendo a melhor palavra, sugerindo soluções para versos, métricas, sentidos. Sinto prazer nisso, sinto paixão, obsessão. Sensibilidade a gente nasce com ela e pode ir desenvolvendo com a nossa bagagem cultural e o efeito das relações na nossa vida - não necessariamente nessa ordem, porque não há ordem quando o assunto é a nossa cabeça.

G.A. - Em "Nina da Avon", o ano de 2002 aparece quase como um personagem. Existe uma geração inteira que guarda esse período numa espécie de memória afetiva coletiva — Copa do Mundo, mudanças políticas, transformações culturais. O que 2002 representa para você? E por que voltar a esse ano especificamente?

I.F. - Acho que 2002, ao menos no que imagino daquele Brasil, marcou um tempo de autoestima e esperança no nosso país. Eu tinha 10 anos, era um menino meio consciente e guardo essa sensação. O Brasil era o país do futebol e pela primeira vez um líder operário se tornava presidente da república. O ano de 2002 parecia sinalizar um tempo de mudanças.

Em CATATAU, Ítallo Ítallo França canta o trabalho, o amor, a vida e a busca por um mundo cheio de preás
Em CATATAU, Ítallo Ítallo França canta o trabalho, o amor, a vida e a busca por um mundo cheio de preás | Foto: Elisa Maciel/Divulgação

G.A. - ⁠“Dezembro” constrói uma cartografia afetiva de Alagoas, reunindo manifestações que raramente aparecem juntas nas representações oficiais do estado. Que Alagoas você sente necessidade de registrar nas suas canções?

I.F. - A Alagoas do Manifesto Sururu de Edson Bezerra, com o acréscimo de um olhar demorado para os interiores: uma Alagoas rural, distante das águas, mormacenta pelo dia, fria pela noite. Uma Alagoas dos negros, dos indígenas, dos cortadores de cana. Alagoas dos Caetés. Existe uma fonte inesgotável de música que vibra do povo que construiu esse estado.

G.A. - Alagoano morando em São Paulo, como é habitar esse entre-lugares? Você sente que precisou sair para ampliar as possibilidades da sua carreira ou acredita que essa ainda é uma narrativa que precisamos questionar?

I.F. - Devemos questionar tudo, mas é difícil conseguir avançar na construção de uma carreira artística dentro do estado de Alagoas. Optei, a muito custo, por ir e me estabelecer na cidade de São Paulo e tenho mais oportunidades aqui. Em Alagoas, quando morei aí, pouco ou quase nada acontecia.

G.A. - Há uma frase do geógrafo Milton Santos em que ele diz que o lugar é onde o mundo se realiza. No seu caso, Arapiraca e Maceió aparecem constantemente nas canções, mesmo depois da mudança para São Paulo. O que a distância faz com a memória desses lugares?

I.F. - Bonito você citar o Milton. Quando eu estava produzindo o CATATAU, junto com Paulo Novaes, pensei em incluir uma fala do Milton [em entrevista ao Roda Viva da TV Cultura] na introdução da faixa “janeiro”. A frase ficou longa e logo percebi que eu precisava de uma frase curta e aí optei por “um mundo cheio de preás”, do Vidas Secas, na voz do nosso conterrâneo Erom Cordeiro. O lugar é onde o mundo se realiza e onde ele foi realizado (risos). Vivi muitos anos nessas duas cidades e a distância que hoje se impõe reforça também um pertencimento e transforma o nosso ponto de vista. É interessante ver Alagoas de longe, desde que não seja por muito tempo.

G.A. - Quem foram as pessoas — artistas, amigos, compositores — que ajudaram a formar o seu ouvido e a sua maneira de fazer música?

I.F. - Na faixa “dezembro” tem o verso “Janu, Quiçá, Acá, Forró”, que se refere ao Janu, a banda Quiçaça e o grande músico Afrísio Acácio, que era sanfoneiro e tocava forró. Todos eles, artistas arapiraquenses, formadores da minha história com a música. Em São Paulo convivo bastante com os conterrâneos Marina Nemésio e João Menezes, que participaram do CATATAU. Hoje eles também são fortes influenciadores da minha canção.

G.A. - "Retrato de Maria Lúcia" e “tire uma hora pra lembrar de mim” mostram uma delicadeza muito grande ao tratar dos afetos, enquanto Catatau carrega discussões duras sobre trabalho, desigualdade e política. Para você, qual é a relação entre amor e posicionamento político? É possível pensar um sem o outro?

I.F. - Deve ser possível, mas difícil. Constantemente, os nossos afetos estão também submetidos à maneira como idealizamos o mundo e o acúmulo de conhecimentos que assimilamos durante a vida. Isso, por si só, já é um filtro. O filtro pode se combinar com nossas visões políticas e tudo é possível. Nas minhas canções de amor, a política mora no detalhe.

G.A. - Quando você começou a lançar músicas, há cerca de dez anos, o Brasil era outro, Alagoas era outra e você também era outro. Se pudesse conversar com o Ítallo que lançou “Casa”, o que diria sobre o artista que você se tornou hoje? E o que aquele Ítallo ainda preserva dentro de você?

I.F. - Acho que eu ainda preservo o prazer de fazer músicas, o que é sensacional. É tão comum a gente ver por aí pessoas envolvidas em trabalhos que não fazem sentido com suas vidas. Não no meu caso. Me realizo escrevendo e criando coisas de arte. O Ítallo de 10 anos atrás estava começando o que estou continuando. Então, eu diria: continuo com você.

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