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Camarotização e sertanejo no São João: pesquisador aponta a transformação da tradição em espetáculo

Para professor da Ufal, mudanças vão além do gosto musical e revelam uma privatização das celebrações populares

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Imagem ilustrativa da imagem Camarotização e sertanejo no São João: pesquisador aponta a transformação da tradição em espetáculo
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

Quem vive há pelo menos quarenta anos em Maceió provavelmente se lembra de uma época em que o São João acontecia na porta de casa. Cada residência tinha sua fogueira, na vizinhança, quadrilhas improvisadas. Esse mundo, que pouco resiste nos interiores, na capital existe, agora, somente na memória de quem viveu. Essa tradição junina virou objeto de estudo para o professor e pesquisador Bruno Cavalcanti, do Instituto de Ciências Sociais da Ufal. Após anos tentando entender o que exatamente aconteceu com a festa mais nordestina do Brasil, ele publicou o livro O São João de Alagoas: do festejo pré-moderno a espetáculo pós-tradicional. Nesta semana junina, a pesquisa virou tema de um episódio do programa Ufal e Sociedade, da rádio da Universidade Federal de Alagoas.

No podcast, conduzido pela jornalista Simoneide Araújo, Cavalcanti não trata a festa como algo que simplesmente “se perdeu”. Ele parte de uma premissa mais incômoda: as tradições juninas que consideramos antigas são, na sua maioria, invenções do século 20. A estética matuta, os figurinos, a valorização simbólica da vida rural, tudo isso surgiu justamente quando as pessoas já estavam deixando o campo para viver nas cidades. “As tradições foram forjadas no espaço de menos de um século, talvez. No entanto, elas parecem eternizar um passado que na verdade foi também dinâmico”, explicou o professor.

O forró, por exemplo, só ganhou o peso identitário que tem hoje por causa do rádio. Antes, as festas juninas misturavam danças europeias e devoção doméstica. O coco, única forma genuinamente local que chegou a ocupar espaço nos festejos, foi perdendo terreno. Esse movimento contínuo de transformação é o que Cavalcanti chama, apoiado no sociólogo britânico Anthony Giddens, de pós-tradicionalidade — não o fim da tradição, mas uma reorganização da relação que a sociedade mantém com ela.

O problema, segundo o pesquisador, é que essa reorganização nos últimos anos tomou uma direção muito específica: a espetacularização. Festas que eram autoproduzidas pelas comunidades passaram a ser oferecidas como serviço de entretenimento, concentradas em megaeventos que exigem palcos gigantes, amplificação de grande porte e contratos com atrações nacionais. “Antes nós éramos atores brincantes; hoje estamos nos tornando espectadores passivos de atrações musicais que poderiam ocorrer em qualquer época do ano”, afirmou Cavalcanti durante o episódio do Ufal e Sociedade.

É nesse contexto que entra a camarotização. O fenômeno — criação de espaços exclusivos e pagos dentro de eventos públicos — não é invenção do São João, e Cavalcanti localiza suas origens na decadência dos clubes sociais que abrigavam a elite local durante o carnaval. Com o crescimento das cidades, esses clubes fechados perderam sentido. A camarotização seria então uma resposta contemporânea, uma forma de manter a distinção social dentro de um evento de massa. “O que essas pessoas querem é estar no evento e ao mesmo tempo não estar no anonimato. É uma forma de permanecer com a identidade diferenciada”, explica o professor, que observa ainda a dimensão instagramável desses espaços. A festa como cenário, não uma experiência real.

Para quem fica do lado de fora do camarote, o resultado prático é ser empurrado para trás, ver o show pelo telão e assistir a uma privatização silenciosa de algo que antes era coletivo. “É um tipo de privatização dessas celebrações”, resume o pesquisador.

SÃO JOÃO SERTANEJO

A entrada do sertanejo nas programações juninas em detrimento do forró é discutida por Cavalcanti com menos moralismo do que o debate público costuma fazer. Ele questiona o argumento de que o público jovem simplesmente “prefere” o sertanejo, apontando uma circularidade no raciocínio. O problema, segundo ele, não está no gênero musical em si, mas na ausência de políticas públicas que sustentem, ao longo do ano inteiro, a reprodução das culturas populares locais. O frevo resiste no Recife e o samba no Rio não porque esses ritmos sejam mais resistentes, mas porque há equipamentos, oficinas, encontros acadêmicos e investimento contínuo que os mantêm vivos entre as gerações mais jovens. “Ninguém pode gostar do que não conhece”, diz.

Em Alagoas, o paradoxo identificado por Cavalcanti é que a cultura popular é usada como argumento turístico e nas campanhas publicitárias do estado, mas raramente se converte em política permanente. O coco alagoano, que pesquisadores consideram o mais versátil do país em variedade rítmica e poética, vive praticamente no ostracismo, segundo o professor. Artistas como Jacinto Silva e sanfoneiros de primeira linha, como Tororó do Rojão, são citados pelo professor como exemplo de quem o poder público poderia reeditar, promover e tornar referência para as novas gerações. “Esses caras vivem no ostracismo. Morreram e, depois de mortos, o silêncio”, disse Cavalcanti no programa.

A saída, para ele, passa necessariamente por gestores dispostos a ouvir além do setor empresarial e por editais simples, voltados à base, como os que Recife chegou a criar para fortalecer os arraiais de bairro. “A gente não vive só de renda. A gente vive de cultura, de pertencimento. A gente quer comida, diversão e arte”.

Ouça aqui o podcast Ufal e Sociedade

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