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MÚSICA

Como clássicos internacionais viraram hinos do Nordeste em versões nacionais

Com raízes nos anos 80 e consolidação no forró eletrônico, fusão de gêneros traz de guitarras elétricas a releituras de bandas como Toto, Scorpions e Angra

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| Foto: Reprodução

A melodia conhecida toca na rádio. Você se prepara para cantarolar as primeiras linhas de Africa, do Toto, mas as palavras que surgem em seguida são outras – e em português. É na verdade Eclipse Total, versão que toma emprestada a harmonia da banda norte-americana na voz de Wesley Safadão e Silvânia Aquino.

A faixa, que integra o projeto Meu Forró É Mundo (Ao Vivo), lançado pelo cantor em abril deste ano, acumula mais de oito milhões de visualizações no YouTube e está longe de ser o primeiro sucesso do rock ou pop rock internacional trazido para o gênero nordestino. Prova disso são canções como Hoje à Noite e Agora Estou Sofrendo, ambas da banda Calcinha Preta, que adaptam, respectivamente, Alone (Heart) e Bleeding Heart (Angra), e Mordida de Amor, da Moleca 100 Vergonha, versão de Love Bites (Def Leppard). Além da própria Eclipse Total, cuja primeira versão foi lançada pela Capim com Mel em 2008.

Essa relação é antiga. Vem da década de 1980, época em que o rock e o pop rock estavam em ascensão. O gênero influenciou não só a musicalidade, mas também o estilo: músicos do forró se vestiam de “roqueiros”, com roupas pretas de couro – o que chegou a render à Calcinha Preta a alcunha de “banda de vampiros”.

“A geração de músicos que tocava nessas bandas de forró nas décadas de 80 e 90 foi muito influenciada pela guitarra elétrica e, consequentemente, pelas bandas de rock”, afirma Marcio Mattos, pesquisador e professor de Etnomusicologia e Educação Musical na Universidade Federal do Cariri (UFCA). “Houve uma influência da guitarra elétrica nos grupos de forró. E dependendo do estilo de forró, isso acaba sendo muito mais forte.”

Originalmente, não havia uma conexão expressiva entre os dois gêneros musicais. Artistas como Luiz Gonzaga até usavam a guitarra em suas gravações, prática que começou a ser muito frequente entre as décadas de 1960 e 1970, principalmente depois da Jovem Guarda e do movimento tropicalista, mas as formas de tocar eram outras. Foi a partir do forró eletrônico que essa união se firmou.

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| Foto: Reprodução

Foi assim para Beto Caju, autor de Eclipse Total ao lado de Marquinhos Maraial. Apaixonado por baladas românticas desde criança, ele começou a pesquisar artistas de outros países com mais afinco nos anos 2000.

“Como [Marquinhos] já tinha muito mais experiência que eu e sabia desse meu gosto por música internacional, um dia me apresentou a banda Toto. Quando ouvi Africa, Anna e outros clássicos deles… eu pirei. Virei fã na hora. Os músicos do Toto são referências mundiais. Muitos deles gravaram com os maiores artistas do planeta”, conta.

De referência, Chrystian Lima entende bem. Compositor da Calcinha Preta há quase 30 anos e responsável por O Navio e o Mar, adaptação de Send Me an Angel, do Scorpions, ele afirma que, no caso da banda sergipana, o que aconteceu foi uma junção de gostos. Isso porque o ex-empresário era fã de rock e o próprio Lima é guitarrista, o que fez com que adicionasse elementos do gênero às canções.

“Eu comecei a botar muita guitarra, muita coisa assim. E a Calcinha consegue juntar as pessoas que gostam de uma coisa mais clássica, as mais românticas e as que gostam mais de rock. Consegue juntar esse público todo em um show só”, diz.

COMO SURGE UMA VERSÃO?

Os critérios para a adaptação são muitos. Os produtores e compositores analisam se a divisão da melodia permite a adaptação da letra em português e se as batidas da original se encaixam na do forró. “E normalmente, no rock, a maioria das músicas funciona”, afirma Lima. “Uma lenta, mais romântica, como Love of My Life, do Queen, a gente não coloca no forró. Uma das que pegamos foi Bleeding Heart, do Angra, e a adaptação seguiu mais ou menos o jeito que eles tocam.”

Imagem ilustrativa da imagem Como clássicos internacionais viraram hinos do Nordeste em versões nacionais
| Foto: Reprodução

Um outro critério, porém, se destaca: a música original ser um sucesso atemporal. “Quando você escolhe uma música dessas e consegue acertar a história da versão, a chance de ela também virar sucesso no Brasil aumenta muito”, diz Beto Caju. “Mas nem toda música internacional serve para virar uma versão comercial. Às vezes a divisão da melodia dificulta a adaptação da letra em português. Em outros casos, o refrão funciona muito bem em inglês, mas perde força quando é cantado em português.”

Para Marcio Mattos, é possível ver de duas formas a transformação de músicas internacionais em sucessos do forró. A primeira é como uma antropofagia cultural, uma oportunidade de democratização das melodias do rock. Mas esse movimento pode ser encarado também como um “certo comodismo” dos compositores, segundo o professor.

“É muito mais fácil regravar uma música já conhecida. E muitas dessas bandas de forró foram criadas mesmo para render financeiramente. Eram grupos patrocinados por empresários e o propósito era fazer sucesso e reverter lucro. Então, eles gravavam músicas para ter uma repercussão no rádio, vender CDs, essa coisa toda. Tem um certo comodismo em se apoiar em músicas que já estavam fazendo sucesso, porque era praticamente certeza de que iria haver também uma boa receptividade do público [às adaptações]”, diz.

DIREITOS AUTORAIS

Quando o assunto são versões brasileiras de sucessos internacionais, entra em cena outra questão: os direitos autorais. Quão livre um artista é para adaptar uma música de outro? Será que isso geralmente é feito de acordo com a legislação?

A advogada Carina Lucena, mestra em Propriedade Intelectual e Inovação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), afirma que, há poucas décadas, muitas dessas músicas costumavam ser lançadas sem a devida autorização.

Isso se devia muito ao funcionamento da indústria do forró: as bandas gravavam os CDs promocionais, distribuíam em massa nos shows e as músicas estouravam antes mesmo de qualquer contrato ser assinado.

“No cenário atual, especialmente com plataformas de streaming, sistemas internacionais de identificação de obras, fiscalização automatizada, gestão profissional de catálogos musicais, é cada vez mais comum que as adaptações sejam previamente licenciadas. Ainda assim, pode acontecer o lançamento de versões sem autorização”, diz Carina.

A advogada explica que, conforme a Lei de Direitos Autorais brasileira, a tradução ou a adaptação de qualquer obra musical para outro idioma ou ritmo depende de autorização prévia e expressa do titular dos direitos autorais da obra original.

“No caso dos chamados ‘rocks em forró’, muitas vezes ocorre uma adaptação da obra musical, seja pela tradução da letra, seja pela criação de uma nova letra inspirada na obra original. O artigo 29 da Lei de Direitos Autorais estabelece que a adaptação, tradução, arranjo ou qualquer transformação da obra depende de autorização prévia e expressa do titular dos direitos autorais.”

Entre as possíveis penalidades para o uso não autorizado de uma melodia, estão a retirada imediata da música de todas as plataformas, a proibição de execução em shows e a apreensão de cópias físicas. Processos indenizatórios por danos materiais e danos morais por modificação não autorizada da obra também estão entre as punições.

Segundo Chrystian Lima, o padrão é pedir a liberação do artista original antes da gravação, mas já houve exceções.

“Já aconteceu da banda gravar e não conseguir a liberação; de tentarmos pedir, não dar tempo deles responderem ou não responderem por outro motivo. Se não consegue liberação, não lança”, diz. Ele admite, porém, que vez ou outra aconteceram lançamentos sem autorização no passado. “Mas sempre se resolveu, graças a Deus.”

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