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MÚSICA

Mateus Beurlen estreia em português e faz da incerteza uma canção

Em novo EP, artista alagoano percorre amor, medo e ressurreição sem oferecer respostas, e fala sobre desistência, parceria e a coragem de continuar

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Imagem ilustrativa da imagem Mateus Beurlen estreia em português e faz da incerteza uma canção
| Foto: Pedro Sant

Tem algum momento em que a arte simplesmente não dá conta? Há quem diga que ela cura. Mateus Beurlen parece esperar outra coisa: que ela o acompanhe. Não importa se desperta alegria, desconforto ou até nojo. Para ele, a arte sempre encontra um jeito de alcançar quem a atravessa.

A resposta ajuda a entender “Amanhã Nunca Se Sabe”, EP lançado nessa quarta-feira (8). Embora atravesse o amor, a decepção e o medo, o novo trabalho não parece interessado em oferecer respostas. Ao longo de três faixas, faz da vulnerabilidade um lugar de permanência, tendo a música como possibilidade de caminhar pelos impasses da vida. Ou, como o próprio disco sugere, continuar tentando mesmo quando o amanhã permanece uma incógnita.

Natural de Alagoas, Mateus construiu sua trajetória na cena independente entre bares, teatros e festivais de Maceió. Depois de estrear com Sunflower (2023), um álbum inteiramente em inglês, apresenta agora seu primeiro trabalho em português. A música, aliás, entrou cedo em sua vida. Foi ouvindo os Beatles — especialmente a forma como Paul McCartney transformava cenas cotidianas em canções — que Beurlen descobriu o desejo de compor. A admiração é tão grande que o acompanha até na pele, tatuada com um submarino amarelo em referência à banda inglesa.

O Caderno B ouviu o EP com exclusividade e, em uma conversa sobre memória, amizade, literatura, música independente e as perguntas que insistem em permanecer mesmo depois que uma canção termina, Mateus Beurlen falou sobre o processo de criação de “Amanhã Nunca Se Sabe” e sobre a coragem de continuar acreditando — nas pessoas, na arte e no que ainda está por vir.

GAZETA DE ALAGOAS: Ouvindo esse EP, tive a sensação de que ele usa o amor para falar de outra coisa. Sobre o que você acha que é esse disco?

Mateus Beurlen: Esse disco fala sobre as fases do amor. Fala sobre aquele amor infantil, o primeiro contato com o amor, a primeira quebra de coração e a primeira ressurreição — digamos assim — de como você se cura e quais os processos para se curar. Mas ele também fala mais do que só sobre amor. Porque, vendo um pouco de fora, parece falar também sobre a minha relação com a música. Já cheguei a pensar em desistir.

Esse título pode ser lido de dois jeitos. Pode nascer do medo — porque amanhã nunca se sabe. Mas também pode nascer da esperança. Em qual desses lugares você escreveu?

Do lugar da esperança. A primeira música que escrevi para o disco foi “E se”. Ela é uma música esperançosa. Por mais que fale de um caso triste, no final a resposta é que você só tenta. Você continua tentando, porque a vida é assim e faz você tentar.

Sunflower era um disco inteiramente em inglês. Em que momento você percebeu que essas histórias precisavam ser contadas na sua língua? O que mudou na forma como você decidiu se aproximar de quem escuta?

Percebi logo depois que lancei o álbum. Senti falta desse reconhecimento. Todo mundo que vinha falar comigo dizia que amava as músicas, que eram maravilhosas, mas que sentia falta de serem em português, porque não entendia direito a letra, não entendia o que eu estava falando. Resolvi tentar escrever em português. É difícil escrever em português. Foi mais complicado, mas mudou tudo. A forma de descrever as sensações, o que eu quero passar, as pessoas. Mudou completamente, porque agora tenho um vocabulário muito mais extenso na minha língua natal.

“E se” não termina quando você encontra uma resposta, mas quando você decide continuar sem ela. Você acha que crescer é parar de esperar certezas para poder viver?

Acho que crescer é justamente isso. Você não precisa ter certeza para viver. Não consegue ter certeza do que vai acontecer no dia em que acorda. Não sabe nem o que vai comer no café da manhã com toda certeza, porque pode acordar e mudar de ideia, ou simplesmente não ter o que queria. A vida é assim. A cada ano que passa a gente vai amadurecendo, vai crescendo. E parte desse amadurecimento é abrir mão da certeza de tudo.

Você acha que existe um pouco de todas as pessoas que você ama dentro das músicas que escreve?

Sim e não ao mesmo tempo. Às vezes é um processo inconsciente, mas parte da minha música também nasce de um lugar fictício. Crio ideias e situações para poder descrever. Mas existe parte de mim que só existe porque encontrei outras pessoas pelo caminho. Foi meu pai quem me apresentou os Beatles. Na música brasileira, minha mãe me apresentou Gilberto Gil. As coisas foram acontecendo. Se não fossem as pessoas que encontrei durante esse caminho, eu não seria o Mateus Beurlen.

Nas suas músicas ninguém parece ocupar o lugar do culpado. As pessoas simplesmente são humanas. Isso é uma escolha sua ou você realmente acredita que quase toda dor nasce menos da maldade e mais do desencontro?

Realmente acredito que a dor nasce menos da maldade e mais do desencontro. Às vezes por falta de espaço para ser quem você é, às vezes é uma angústia reprimida e guardada por anos e anos. E isso se torna dor. E é uma escolha também.

Existem parcerias importantes nesse EP, como Wado. Você consegue imaginar esse disco existindo sem as pessoas que estavam por perto?

Esse disco não existe sem as pessoas que participaram dele. Sem a participação do Wado, do Jair Donato, do Henrique Muniz, que me ajudou no processo e estava lá acompanhando tudo. Não teria sido a mesma coisa sem eles.

Como vocês encontraram um equilíbrio entre experimentar e ainda fazer músicas que soassem como “Mateus Beurlen”?

Soar como Mateus Beurlen é um tanto quanto específico, porque não quero soar da mesma forma a minha vida inteira. Parte do meu processo é exatamente isso. Soar como Mateus Beurlen tem muito a ver com essa busca por inovação, com essa vontade de fazer algo maior e sempre querer algo novo — um som que só eu ouvi na minha própria cabeça.

Se daqui a dez anos você reencontrar esse disco, o que espera descobrir sobre quem o escreveu?

Espero descobrir que finalmente o sonho está dando certo, que é possível ser artista e viver com dignidade sem se preocupar.

No fim das contas, esse disco fala muito sobre continuar tentando. Hoje, o que ainda faz você querer tentar?

A música. A perseverança, acreditar num sonho que às vezes parece impossível de acreditar.

* Sob supervisão da Editoria

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