NOS CINEMAS
‘A Noite de Alaíde’ chega aos cinemas com a história da única voz negra da Bossa Nova
Filme de Liliane Mutti combina ficção, animação e documentário para revisitar a trajetória de uma das fundadoras do movimento musical brasileiro
Há um episódio central no filme que está chegando aos cinemas nesta quinta-feira (16): certa noite, sem ter com quem deixar os filhos pequenos, Alaíde Costa os levou para a casa noturna onde se apresentava. O marido apareceu, buscou as crianças e as entregou para outra família criar. O ponto de partida narrativo de “A Noite de Alaíde” é esse episódio real, que concentra a contradição que atravessa toda a trajetória da cantora: uma voz que o Rio de Janeiro dos anos 1950 e 1960 precisava escutar, mas que a vida doméstica, as gravadoras e o racismo estrutural tentaram calar de formas diversas.
Nascida em Água Santa, subúrbio do Rio de Janeiro, Alaíde Costa revelou-se cantora ainda adolescente, apresentando-se em programas de calouros na Rádio Tupi. Sua primeira aparição pública foi num circo, marcada pelo irmão mais novo sem que ela soubesse. A mãe não aprovava. Mesmo assim, a menina do subúrbio carioca foi construindo carreira até chegar às rodas da zona sul do Rio, onde passou a conviver com João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Johnny Alf — os nomes que definiriam a Bossa Nova. Alaíde foi a única mulher negra no núcleo do movimento, ao lado de figuras que hoje são tidas como a tríade de ouro do gênero.
O que veio depois foi um apagamento documentado. Junto com Johnny Alf, outro pioneiro negro da Bossa Nova, ela foi vetada da lendária apresentação no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962. As gravadoras a ignoraram no momento em que o movimento ganhava o mundo.
Sete décadas e mais de 20 discos depois, em outubro de 2023, Alaíde voltou ao Carnegie Hall para o espetáculo “The Greatest Night Bossa Nova” e recebeu uma ovação de mais de cinco minutos de pé.
É sobre essa história, de resistência acumulada ao longo de décadas, que trata o filme de Liliane Mutti, diretora baiana que vive entre o Brasil e a França. O longa combina imagens de arquivo com encenações de atores feitas com rotoscopia, técnica em que os atores atuam em cena e sobre eles é aplicada a animação, além de trechos documentais com a própria Alaíde. Quatro atrizes interpretam a cantora em diferentes fases da vida. A voz que narra e atravessa o filme é a dela mesma.
Mutti já havia percorrido território semelhante com “Miúcha — A Voz da Bossa Nova” (2022), que foi exibido em 47 países e integra canais como ARTE, Canal+, GloboPlay e Curta!
“A Noite de Alaíde” circulou em festivais antes da estreia comercial: foi exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris como sessão de encerramento, participou do Marché de Cannes e do MIFA, no Festival de Annecy. Agora estreia simultaneamente no Brasil e em Portugal, com distribuição da Bretz Filmes no Brasil e da Zero em Comportamento em Portugal. Em Maceió, o filme entra em cartaz no Arte Pajuçara.
Aos 90 anos, Alaíde Costa tem mais de 20 discos gravados ao longo de sete décadas de carreira e nunca deixou de cantar nem de gravar, atravessando todos os formatos de distribuição musical, do 78 RPM ao streaming. Nos últimos anos, parcerias com nomes como Emicida, Pupillo e Marcus Preto renovaram seu reconhecimento: o álbum “O que os meus calos dizem sobre mim” (2022) foi eleito o melhor lançamento fonográfico de MPB no 30º Prêmio da Música Brasileira.