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MÚSICA NOVA

Vitor Pirralho experimenta o inacabado ao lançar disco com 18 refrões soltos em apenas 12 minutos

"Refrãos" reúne fragmentos acumulados em blocos de notas e propõe uma provocação ao consumo acelerado usando o próprio formato da era do scroll

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Vitor Pirralho lança álbum que dura o tempo que você levará para ler esta reportagem
Vitor Pirralho lança álbum que dura o tempo que você levará para ler esta reportagem | Foto: RAFAEL AROEIRA

Doze minutos e alguns segundos é tempo suficiente para ferver a água do café. É menos tempo do que boa parte das pessoas gasta escolhendo o que assistir em plataformas de streaming ou do que a maioria perde esperando um ônibus. É, certamente, menos tempo do que usuários de redes sociais de vídeos curtos gastam no scroll infinito. Essa é também a duração de “Refrãos - Esboços de canções que podem acontecer ou não”, o novo disco de Vitor Pirralho. Com 18 faixas, a obra é uma exposição de fragmentos, pensamentos sobre o contemporâneo, quase que um brainstorming feito de frente para o público.

É que o minidisco não quer saber de canções inteiras. É como uma coleção de snippets, daqueles que se usam como fundos musicais em TikToks. “Refrãos” é fruto de um garimpo do artista alagoano em blocos de notas e áudios acumulados ao longo dos anos, agora tratados em estúdio sem perder o desalinho original.

Pirralho soma 27 anos de música e literatura em Alagoas. Nesse tempo, já experimentou um bocado, já versou sobre identidade, filosofia, causas sociais, criatividade como traço indissociável da humanidade, tudo isso e ainda mais embalados na fome antropofágica de Vitor. E é também sobre antropofagia essa nova aventura musical do artista maceioense.

As músicas inacabadas trazem a lógica da experimentação como protagonista. Não as confunda, no entanto, com uma adesão do artista ao ritmo de consumo das redes sociais. Para Vitor Pirralho, trata-se de Zeitgeist.

“Se a gente pensar na tecnologia de cada época, indo lá para o começo do século 20, por exemplo, outras artes tiveram que se adequar ao advento do cinema, principalmente a literatura. O cinema chegou com um ritmo próprio de contar histórias, enquanto a literatura trazia textos densos, extensos, que exigiam dedicação para consumir. Então, diante da edição, do corte, das imagens, a literatura se adaptou, ficou mais ágil, curta, rápida mesmo. A necessidade da época provocou a experimentação. E sempre foi assim. Na literatura também experimentou-se com os poemas-pílula dos modernistas, por exemplo”, reflete o artista.

“Mas eu não vejo isso como uma cooptação do fazer artístico por parte dessa lógica. É claro que determinados artistas são cooptados por uma indústria, pela gerência dessa indústria, que impõe formatos e fórmulas em contratos. Porém, no caso do artista independente, do artista que trabalha da forma que ele quer, é adaptação e experimentação. No meu caso, vejo que a tecnologia do momento impulsionou o processo artístico e criativo nesse sentido da experimentação. Eu fiz esse álbum pensando nessa ansiedade atual, no consumo do formato digital nas redes. Foi desse pensamento que veio a ideia de lançar esboços de músicas”, detalha Pirralho.

Sobre o risco de ser visto como alguém que aderiu à música fast food, Pirralho é enfático. “Existe esse risco, sim. Afinal, é curtinho, do jeito que o mercado de hoje impõe. O disco pode ser interpretado de várias formas, como uma adesão ou como uma provocação. Assim, fazer arte de maneira independente é sempre arriscado. Então assumo esse risco. O disco é, como eu citei antes sobre o cinema, uma adequação de forma, mas é, antes, um aproveitar-se do formato para criticar o próprio formato. Mas, no fim, os riscos estão sempre postos quando se trata de arte”.

Os assuntos de “Refrãos” passam por todo tipo de modernidade. Na faixa de abertura do disco, “Memento meme/F.O.M.O”, Pirralho brinca com a música “Água Mineral”, de Carlinhos Brown. Em vez de “Tá com sede?”, questiona: “Tá com F.O.M.O.?”, sigla em inglês para fear of missing out, o medo de ficar de fora.

Imagem ilustrativa da imagem Vitor Pirralho experimenta o inacabado ao lançar disco com 18 refrões soltos em apenas 12 minutos
| Foto: Gabriel Moreira/Divulgação

“A ideia foi lançar os pensamentos como eles foram registrados, porque assim a gente consegue expor como vem experienciando a vida cotidiana com tantas tecnologias e redes sociais. Me expõe dialogando, transitando por tudo isso, pensando rápido, criando pedaços de coisas. E eu queria lançar em pedaços também, tudo proposital, sem um contexto, mostrando que é, apesar de uma obra fechada, uma obra toda aberta”, afirma Pirralho.

Formado em Letras, Pirralho começou a carreira em 2003, ao vencer o edital estadual Alagoas em Cena. Vieram depois “Devoração Crítica do Legado Universal” (2008), “Pau-Brasil” (2009), “A Invenção é a Mãe das Necessidades” (2019) e “Antropofagroove” (2025). Toda a obra do artista está ancorada no conceito da antropofagia modernista brasileira.

“A antropofagia sempre foi a mola mestra, o fio condutor da minha arte”, diz. “Desde que tive contato com o conceito, entendi que tudo é antropofagia: você cria de acordo com o que consome. É um processo natural do fazer artístico. Mesmo quem nunca ouviu falar do movimento produz sob esse guarda-chuva, porque devorar o que já foi feito e traduzir aquilo à sua forma não é reprodução por repetição, é reinterpretação”, afirma.

Essa lógica de devorar e traduzir explica por que ele nega estar apenas repetindo uma fórmula depois de duas décadas testando fragmentos. O público que o acompanha, hoje, também é feito de duas camadas de tempo. “Temos um público híbrido. Uma parte me acompanha desde o formato físico e resiste a esse novo momento; outra parte já nasceu no século 21 e acompanha a arte de outra forma, sem conhecer outro modelo”, explica. “Não é uma insistência minha em seguir testando formatos, eu diria que é inquietação. Nunca fui muito de fórmula. Minha fórmula sempre foi não ter fórmula”, completa.

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A recusa em se render a fórmulas já rendeu, décadas atrás, encontros inesperados. Em 2009, por exemplo, Ney Matogrosso, de passagem por Alagoas, leu uma entrevista do artista alagoano, na qual ele explicava o conceito do seu álbum recém-lançado “Pau-Brasil”. O multifacetado artista da MPB disse que precisava conhecer Vitor Pirralho, dando início a uma parceria duradoura. Matogrosso já gravou “Tupi Fusão”, de Pirralho, e também participou do álbum “A Invenção é a Mãe das Necessidades”, na faixa “Rumos e Rumores”. Nesse mesmo trabalho, Pirralho colabora com Zeca Baleiro, Pedro Luís, Ellen Oléria, Tonho Crocco, Luiz de Assis e Boby CH.

Sem gravadora hoje, guarda de um selo grande uma experiência que prefere não repetir. “Não foi uma experiência interessante”, resume, sem detalhar. “Fazer música fora do mercado exige que você seja apenas você mesmo. Isso é bom”.

Esse ‘ser você mesmo’ em Alagoas tem um preço. Ao ser questionado se hoje há espaço para artistas fora da cartilha no estado, ele desloca o argumento para outro tempo verbal. “Essa pergunta é perene, é desde sempre. Se existe desde sempre, a resposta é não, não temos esse espaço”, afirma. “Mas a internet democratizou o acesso. Conseguimos produção e divulgação próprias, sem depender da estrutura tradicional. Antes, editais de fomento ficavam fechados a poucos. Hoje estão mais expostos. Não é uma melhora significativa, mas é uma pequena melhora”, admite.

E como a pequena melhora não paga conta, a outra metade dos dias de Pirralho pertence à sala de aula. Apontado por ex-alunos como um dos melhores professores que já tiveram na vida, Pirralho pode surpreender com o comentário a seguir. “Não tenho a docência como uma paixão. Ela é mais uma questão trabalhista, laboral”, diz. “Apesar disso, ela está cercada de paixões, claro. A troca de conhecimento, o ensinar e o aprender, isso sim envolve paixão. Mas cumprir horário e preencher caderneta, essa burocracia, a formalidade capitalista, não me interessa. Já através da arte tenho o espaço de fazer a minha própria cátedra”, completa.

Perguntado sobre o que sobra quando tudo vira scroll infinito, ele recorre até ao latim e recusa a visão meramente negativa sobre as dinâmicas modernas.

“Acho que não é uma questão de sobrar. Hoje, toda a produção de conteúdo, incluindo a arte, está voltada para esse modelo da internet, do scroll infinito, do skip infinito, do excesso de informação. Eu acho que tudo vai se adaptar a isso, como as coisas já se adaptaram anteriormente. E tudo, todo tipo de arte tá dentro desse novo jeito de ver e enxergar o mundo. E aí, como falamos no início, muitos serão cooptados, mas muitos irão subverter. Muitos serão engolidos e muitos vão confrontar. Muitos vão se render. Hoje temos literatura virtual. Daqui a 100 anos, alguém dará um nome a esse tipo de literatura, como já nomeamos a literatura concreta, a tropicália e todas as experimentações que vieram antes. Um dia terá literatura de TikTok, eu não sei. No fim, tudo vira meme”, diz o artista, que retorna à faixa que abre o disco novo.

Imagem ilustrativa da imagem Vitor Pirralho experimenta o inacabado ao lançar disco com 18 refrões soltos em apenas 12 minutos
| Foto: Gabriel Moreira/Divulgação

“Memento mori significa lembre-se de que você vai morrer, então viva de forma proveitosa porque você é finito”, explica. “Com a internet virou outra coisa: lembre-se de que você pode virar meme, ser eternizado como meme. Virar meme costuma ser bom para o mercado, você viraliza. Hoje é isso: lembre-se de que você vai ser eternizado, não mais de que você é finito. Será?”, conclui.

O disco “Refrãos - Esboços de canções que podem acontecer ou não” está disponível em todas as plataformas digitais. O projeto foi contemplado pelo “Edital Xameguinho – Fomento à Música”, realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura (MinC), operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult). O trabalho do artista também pode ser acompanhado pelas redes sociais, no @vitorpirralho.

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