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LITERATURA

Valter Hugo Mãe volta ao Brasil com ‘O século dos imbecis’

Vencedor dos prêmios Saramago e Oceanos, o escritor angolano-português lança romance sobre ignorância, tirania e o fascínio contemporâneo pela estupidez

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Escritor português Valter Hugo Mãe vem a Curitiba para o Festival da Palavra. Foto: Divulgação
Escritor português Valter Hugo Mãe vem a Curitiba para o Festival da Palavra. Foto: Divulgação | Foto: Divulgação

Valter Hugo Mãe carregou uma cena por duas décadas: umas costureiras numa vila recebendo uma cliente estranha, a quem chamavam de Mulher Torta. Escreveu umas trinta páginas em 2006 e parou. Outros livros vieram, entre eles “O filho de mil homens” e “a máquina de fazer espanhóis”, que lhe rendeu o Prêmio Oceanos, mas aquelas costureiras permaneceram como o que o próprio autor descreve como “uma assombração”. O que o prendia ali não era o riso, era outra coisa: “Achei que havia ali um perigo para correr. E gostei dessa sensação de perigo”.

O perigo amadureceu e virou “O Século dos Imbecis”, lançado em Portugal no mês passado e no Brasil nesta semana pela Biblioteca Azul, quando o autor completou trinta anos de carreira. Nascido em Angola em 1971 e criado no norte de Portugal, Valter Hugo Mãe desembarcou ontem em Paraty para abrir a programação da Casa da Arquitetura na Flip. Entre os livros que vieram antes está também “o remorso de baltazar serapião”, vencedor do Prêmio José Saramago. Foi a Flip de 2011, inclusive, que o revelou ao público brasileiro e, segundo ele, mudou sua trajetória.

O romance se passa numa pequena vila de montanha habitada pela cobiça, pelo boato e por uma fé que vacila. No centro está Agilulfo, um marquês deslocado no tempo que fica inteligente quando sobe a montanha e emburrece quando a desce. A chave da fábula o próprio autor entrega sem cerimônia: “Se você quiser, o Agilulfo é o próprio celular. A gente pode usar o celular para subir a montanha, ficar brilhante, aprender tudo, saber tudo, conhecer tudo; ou então a gente pode usar o celular para descer a montanha, emburrecer, ficar rindo da estupidez, da ignorância”.

O título chegou antes do fim do livro, numa crônica de 2022, quando o mundo esperava sair da pandemia transformado. Valter Hugo apostou no contrário: as pessoas sairiam cansadas, amuadas, sem reservas de generosidade para oferecer. Nesse cansaço, diz ele, os déspotas prosperaram. “A gente normalizou essa tirania, que é muito feita do errático, é muito feita da mentira, da falsidade e da desfaçatez”.

O que o espanta não é que haja ignorância — “não teremos mais imbecis do que outros séculos tiveram”, disse à CNN Portugal —, mas que ela tenha perdido o pudor num momento em que tudo quanto é possível saber está na palma da mão. As mídias sociais, onde ele identifica o que chama de “cidadania demissionária”, recebem um diagnóstico sem meias palavras: “É torpe, é sempre torpe. O primeiro uso é sempre degenerativo, é sempre lúdico, infantil. Para fazer o bem a gente leva mais tempo. A gente pensa que o bem é o natural — e não é verdade, o bem precisa de um esforço”.

A saída, para ele, não está na tecnologia nem num otimismo de autoajuda. Está na filosofia e no direito. “A salvação é o direito à ética, é a filosofia, é voltar ao pensamento, à introspecção.” E defende regulamentação sem pudor: “Não tem isso de liberdade pura no universo humano. Liberdade pura é um convite ao saque, é um convite ao aproveitamento”.

Num romance atravessado por boatos e sentenças, a personagem que aos poucos toma conta da narrativa é a Criada — quase invisível no começo, presa ao trabalho e à humilhação, ela “rouba o livro”, admite o autor. A razão é direta: “Ela faz o futuro.” Contra a herança parada e a tentação de entregar tudo às máquinas, ela representa o que Valter Hugo chama de “cultura das mãos”.

No Brasil, a conversa entre o escritor e seus leitores tem uma dimensão que foi além do literário. Quando revelou publicamente o desejo nunca realizado de ser pai, o acolhimento que recebeu o surpreendeu. “É uma surpresa para mim, esse lugar vulnerável, de um homem mais vulnerável, de uma masculinidade mais vulnerável, de repente fazer todo o sentido na contemporaneidade.” Sobre a diferença entre os dois países, tem uma leitura precisa: Portugal, com quase novecentos anos, já sente o peso de tudo que ficou para trás. O Brasil é outra coisa — “um território de começos, é um projeto de começos”. E conclui: “O Brasil é um pouco o futuro, o Brasil está depois de nós”.

É agarrado a essa ideia de futuro que ele define o que a literatura pode neste século: “Pode ser um lugar de resistência e, sobretudo, haverá de ser um lugar de testemunho.” E vai além: “Eu escrevo para resistir e, se eu não puder fazer nada, eu vou simplesmente testemunhar. Eu estou querendo assistir ao que acontece, eu estou querendo ser prova. Se isso der tudo errado e a gente recuar séculos na dignidade, na construção humana, eu estive lá e eu vi, eu tentei evitar”.

O livro “O século dos imbecis” já está à venda nas livrarias e na internet.

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