NESTE FIM DE SEMANA
Khrystal cria a sala de estar onde Alagoas encontra o Rio Grande do Norte
Khrystal chega a Maceió e Penedo com o show "Acústica" para o Projeto Seis & Meia; no repertório, a musicalidade que a formou embalada em uma das vozes mais interessantes da música brasileira
O alagoano Jacinto Silva morreu em 2001, aos 67 anos. A potiguar Khrystal tinha, na época, 19 anos e cantava havia pouco tempo pelos bares de Natal. Os dois nunca se cruzaram ao vivo, mas quem ouvir Khrystal tocar seu repertório de coco reconhece, no fraseado rápido e na dicção que ela cultiva desde jovem, um pedaço do que o compositor de Palmeira dos Índios deixou gravado em mais de duzentas canções ao longo de quase seis décadas de carreira. Discípulo confesso de Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva transformou o coco de roda numa arte de trava-língua e batida sincopada, influência que hoje aparece citada por artistas que nunca chegaram a apertar sua mão.
Khrystal aperta e segura nessa mão. Chama Jacinto Silva de professor. É essa mistura, de ritmos potiguares e alagoanos, que ela leva para dentro do show "Acústica", formato que a artista descreve como um convite para entrar na sua sala de estar. A apresentação passa por Maceió no dia 8 de agosto, sábado, no Centro de Inovação do Jaraguá, e por Penedo no domingo, dia 9, no histórico Theatro Sete de Setembro, dentro do Projeto Seis & Meia.
A trajetória de Khrystal até esse palco em Alagoas começou em casa, em Natal, onde aprendeu cedo a gostar de música. Aos 17 anos já se apresentava em bares. Em 2004, uma pesquisa que fez sobre coco resultou no show "O Coco do Brasil", trabalho que lhe rendeu o primeiro prêmio da carreira. Do show saiu, no ano seguinte, a demo "Meia Dúzia ou Seis", laboratório que amadureceu até virar "Coisa de Preto", disco de estreia lançado em 2007 e definido por ela, à época, como uma declaração de amor à raiz da música brasileira. A turnê seguinte passou por mais de cem cidades e levou Khrystal a programas como "Viola, Minha Viola", com Inezita Barroso, e "Sr. Brasil", com Rolando Boldrin. Em 2009, fez temporada na Europa e foi convidada por Alceu Valença para atuar em "A Luneta do Tempo", filme que rendeu à cantora sua primeira indicação ao Kikito, no Festival de Gramado, como melhor atriz coadjuvante.
Entre os pontos altos da carreira de Khrystal está a passagem pelo musical "Elza", montagem sobre a vida de Elza Soares que somou os prêmios Shell, APTR, APCA e Reverência numa turnê que passou por 15 cidades brasileiras entre 2018 e 2020, entre elas Maceió. Khrystal dividiu o papel de Elza com outras seis atrizes, formato pensado pelo autor Vinícius Calderoni para distribuir o peso de uma vida tão longa entre vozes diferentes. Antes da estreia, no Rio de Janeiro, Khrystal e as colegas de elenco visitaram a própria Elza Soares em casa e apresentaram um trecho da peça na sala do apartamento da cantora, que se emocionou e as abençoou. Meses depois, Caetano Veloso publicou um elogio à atuação da potiguar, definindo sua voz como portadora de "dicção diamante de Natal".
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Khrystal está terminando de mixar o próximo disco da carreira, batizado "Aghora". Para viabilizar a etapa final de produção, abriu uma campanha de financiamento coletivo pela plataforma Vakinha, decisão que ela relaciona ao desejo de manter as rédeas do projeto nas próprias mãos. O álbum, segundo a cantora, trata de "curar o passado, viver o presente e cultivar o futuro", e chega num momento em que ela também representou o Rio Grande do Norte e o Brasil no Ano Cultural Brasil-China, dentro da programação do JZ Festival, entre abril e maio deste ano.
A potiguar se apresenta em Alagoas neste fim de semana com o show "Acústica", projeto deliberadamente sem grandes recursos cênicos, com a maturidade artística construída ao longo da carreira como protagonista. No formato reduzido ao violão, ela reconhece que as canções ficam mais cruas e, nas palavras dela, "reveláveis" ao público. A responsabilidade de segurar um show sozinha, sem marcação de falas, é dela e de mais ninguém - o que não parece ser uma missão tão difícil para uma das grandes vozes e presenças de palco da música brasileira deste século.
Quem abre a noite em Maceió é o Coco de Ybiúna, grupo percussivo e autoral nascido em 2022 a partir de cosmovisões de matriz africana e indígena, dedicado a manter viva a tradição oral do coco. O nome vem do tupi: "yby", terra, e "una", preto. Em Penedo, quem sobe ao palco antes de Khrystal é a cantora Maxylene Cruz, dezoito anos de carreira, integrante da banda Cores do Mar e parceira de formatos intimistas ao lado do marido, o violonista Vevel Guitar, com repertório que transita entre MPB e música regional.
Em entrevista, Khrystal fala sobre a etiqueta de "artista regional", o disco financiado pelo próprio público e o que muda quando só ela, o violão e uma plateia dão o tom da festa
Há uma tensão em ver uma cantora associada a ritmos populares nascidos de festa e de grupo se apresentar sozinha, num formato intimista de sala de estar. É como se a mesma música que nasceu para ser cantada em roda, na praça, precisasse agora caber num só violão e numa só voz, ou talvez precisasse que essa voz sozinha regesse o coro, conduzisse o público com a manha de quem domina o ofício e reduzisse tudo, como se reduz um caldo no fogo baixo, até sobrar só o essencial. Desse caldo, que mistura tradição oral e música contemporânea, nasce uma sala de estar que também poderia ser um terreiro, lugar de reunião para um folguedo se apresentar. A mestra é Khrystal.
A conversa a seguir passou por essa mistura de raiz e reinvenção, do primeiro contato com o coco alagoano ao disco novo que está prestes a lançar.
GAZETA DE ALAGOAS. Como foi o encontro com a obra de mestres alagoanos como Jacinto Silva? O que essa musicalidade te trouxe?
KHRYSTAL. Jacinto Silva é um formador do meu gosto por música brasileira. O amor pelos cocos que eu tenho vem muito dele, um artista especial. Ritmo, clareza, timbre lindo, me inspira até hoje. Meu professor.
Existe uma canção nordestina, de outro estado que não o seu, que você sente que poderia ser sua, que você teria composto, se pudesse?
“Gente é Pedra”, de Socorro Lira e Gabi Buarque. Sem dúvida, uma grande canção que eu queria ter feito. Que bom que elas fizeram.
Você já sentiu na prática alguém te enquadrando como “regional” ou como “a nordestina” mesmo antes de te ouvir cantar? O que se ganha e o que se perde nessa etiqueta?
A etiqueta nordestina é algo honroso para mim, não tenho problema com isso. Mas é importante que o restante do Brasil olhe pra gente com menos estereótipos e mais profundidade, até pra se entender melhor dentro dessa grande tribo chamada Brasil.
O que te fez escolher o financiamento coletivo para o “Aghora” nesse momento da carreira?
Meu principal interesse é ter total controle sobre esse lançamento. Fazê-lo de maneira independente me dá autoralidade num sentido mais amplo. As rédeas ficam nas minhas mãos. O financiamento coletivo me dá essa liberdade.
O disco fala em “curar o passado, viver o presente, cultivar o futuro”. Qual dessas três partes foi a mais difícil de criar nesse novo trabalho?
Curar o passado é o mais trabalhoso, exige mais em muitos sentidos. É um processo bonito que precisei encarar pra seguir a vida. Tento fazer do tempo um aliado, e o disco trata dessa tentativa.
Depois de representar o Brasil na China este ano, o que mudou no seu olhar sobre o que é “música brasileira” lá fora?
Foi uma experiência muito linda. A música brasileira é muito respeitada na China, a gente sente isso forte assim que chega. Vi e senti o que já sabia: a música brasileira é respeitada mundo afora.
O Brasil ainda precisa descobrir o Brasil? Falo da sua cultura e potências.
Sempre é tempo do Brasil conhecer mais o Brasil. O país é gigante, ainda é difícil circular como a gente gostaria. Faço o que posso pra chegar ao máximo de pessoas possível, mas é uma luta.
Depois de quase trinta anos de carreira, ainda existe tesão pela música, ou isso virou outra coisa? Ofício, responsabilidade, hábito?
Ainda existe tesão, ofício, responsabilidade, tudo que precisa pra me manter trabalhando feliz. Meu casamento com a música é feliz, nossa relação é fiel e apaixonada.
Teve algum momento em que você pensou em parar?
Eu pensava mais nisso quando era mais jovem. Isso foi sumindo.
O que muda em você quando sai a banda e fica só o violão na frente do público?
A responsa fica concentrada, as canções ficam mais cruas, mais reveláveis ao público.
Existe uma canção sua que você já não canta mais ao vivo? Por quê? E o contrário, alguma canção antiga que ganhou um sentido novo com o tempo?
Muitas eu não canto mais, pelo simples fato de não fazerem mais sentido pra mim. Algumas antigas se ressignificam e flutuam no roteiro, de acordo com meu sentimento.
No formato de sala de estar, tem algum momento em que você se surpreende com o que acaba contando à plateia?
Sim, porque é tudo muito espontâneo, não tem marcação de falas. É a plateia que dá o tom da festa e me deixa à vontade pra dividir histórias.
O que você diria para Khrystal de 17 anos, cantando em bar em Natal, se pudesse mandar um recado?
Siga firme, vai dar tudo certo.
Um convite para os alagoanos, que inclusive te adoram, para este encontro em Maceió e Penedo?
Estou feliz de chegar com esse show tão diferente pra vocês, que já me viram em tantas configurações musicais diferentes. Esse show mostra o tempo passando por mim e me empoderando nesse lugar de musicista, que muito me honra e me satisfaz. Que sejamos felizes nesses encontros.
SERVIÇO
- Projeto Seis & Meia com Khrystal
- Maceió: 8 de agosto (sábado), Centro de Inovação do Jaraguá. Abertura da casa às 17h30, apresentações a partir das 18h30. Ingressos a partir de R$ 70 (meia-entrada), com opção solidária mediante doação de alimento.
- Penedo: 9 de agosto (domingo), Theatro Sete de Setembro. Ingressos a partir de R$ 50 (meia-entrada), com opção solidária mediante doação de alimento.
- Classificação livre.