HISTÓRICO
Alagoanos Fábio Lins e Fillipi Nascimento vencem o Jabuti Acadêmico 2026
Escritores levam o troféu em categorias distintas com obras que investigam poesia na burocracia brasileira e desigualdade social
De um lado, a relação entre o maior poeta brasileiro e o serviço público. Do outro, uma das perguntas mais antigas e incômodas da sociedade brasileira: por que o diploma não muda o destino de quem nasce pobre? Na noite dessa terça-feira (11), em São Paulo, essas duas questões ganharam o Jabuti Acadêmico 2026. Ambas têm assinatura alagoana.
Fábio Lins, professor da Faculdade de Direito de Alagoas da Ufal, venceu na categoria Administração Pública e de Empresas, Ciências Contábeis e Turismo, com o livro “Drummond e a administração pública: o encontro da poesia com a burocracia na vida e na obra de Carlos Drummond de Andrade”, pela Editora Fórum. Fillipi Nascimento, sociólogo maceioense e pesquisador do Insper, venceu na categoria Economia com “A loteria do nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico”, escrito em coautoria com o economista Michael França e publicado pela Jandaíra.
O resultado é expressivo para um prêmio que recebeu 2.085 inscrições nesta edição e distribui o troféu em 27 categorias. Criado em 2024 pela Câmara Brasileira do Livro, com apoio da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o Jabuti Acadêmico reconhece a excelência da produção científica, técnica e profissional do país. Cada vencedor recebe a estatueta e R$ 5 mil em prêmio. "É motivo de muita comemoração reconhecer obras de alta qualidade que evidenciam a força da pesquisa e da produção editorial acadêmica no Brasil", disse Sevani Matos, presidente da CBL, na cerimônia.
Fábio Lins havia sido indicado pela segunda vez. Anteriormente, o professor da Universidade Federal de Alagoas e do Cesmac disse que a vitória consolida uma metodologia que vem desenvolvendo há anos no Direito Administrativo: o espelhamento biográfico, que consiste em analisar a vida de grandes figuras públicas para compreender as relações entre biografia e burocracia. O livro vencedor investiga como Carlos Drummond de Andrade, que foi servidor público federal por décadas, trabalhando no Ministério da Educação no Rio de Janeiro, traduziu em poesia sua experiência dentro do Estado brasileiro.
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Em 2025, Fábio Lins foi finalista com “Machado de Assis e a administração pública”, obra sobre o escritor que passou décadas como funcionário público antes de a literatura absorvê-lo completamente. O professor e escritor diz enxergar nesses trabalhos uma dimensão além do acadêmico, “a de resgatar a dignidade de servidores públicos que, como Drummond e Machado, constroem legados invisíveis dentro do Estado”.
Fillipi Nascimento é maceioense e construiu sua formação acadêmica em Alagoas antes de seguir para outras instituições. Fez graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia pela Ufal e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Hoje é pesquisador do Neri, o Núcleo de Estudos Raciais do Insper, onde também atua Michael França.
“A loteria do nascimento” partiu de uma coluna publicada na Folha de S. Paulo que repercutiu amplamente e levou os dois a transformar o argumento em obra completa. O livro mostra como o diploma universitário, sozinho, não garante a ascensão social de quem nasce em desvantagem. Um dos capítulos mais densos aborda as cotas universitárias: como elas abriram parcialmente as portas das universidades, mas sem políticas de permanência suficientes, deixando estudantes de baixa renda expostos a moradia precária, jornadas exaustivas de trabalho, racismo e sexismo dentro do próprio ambiente acadêmico.
Outro ponto central é o capital social: mesmo com diploma em mãos, quem não tem redes de contato herdadas segue em desvantagem, porque grande parte das oportunidades profissionais circula por indicação. O coautor Michael França é doutor em Teoria Econômica pela USP, foi pesquisador visitante nas universidades de Columbia e Stanford e é colunista da Folha de S. Paulo.
O Jabuti Acadêmico foi entregue em cerimônia transmitida ao vivo pelo canal da CBL no YouTube. A noite no Teatro Sérgio Cardoso teve apresentação do grupo carioca Chora Mulheres na Rosa, coletivo formado por mulheres instrumentistas com o choro como gênero principal. A curadora desta edição foi Nina Beatriz Stocco Ranieri, pela primeira vez à frente do processo. A obra "História das mulheres no Brasil", da historiadora Mary Del Priore, foi eleita Livro Acadêmico Clássico 2026 por consulta popular.
Confira AQUI a lista completa de vencedores