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Morre o jornalista e escritor alagoano Luiz Gutemberg

Jornalista e escritor alagoano morreu aos 88 anos em Brasília; autor de ‘O Anjo Americano’, ele ajudou a reformular o Jornal do Brasil e fundar a revista Veja

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Imagem ilustrativa da imagem Morre o jornalista e escritor alagoano Luiz Gutemberg
| Foto: Reprodução

Luiz Gutemberg morreu em Brasília no último domingo (16), aos 88 anos, de uma pneumonia que o mantinha internado no Hospital do Coração. O velório foi realizado nessa segunda-feira (17), no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, também na capital federal.

Mas Gutemberg nasceu em Maceió, em 24 de agosto de 1937. Aos 16 anos entrou na redação da Gazeta de Alagoas, onde aprendeu o ofício. Dois anos depois seguiu para o Rio de Janeiro, cidade que concentrava então os maiores jornais do Brasil. Não voltaria a morar em Alagoas.

No Jornal do Brasil encontrou o que marcaria o resto da sua vida. Chegou no fim dos anos 1950, quando o jornal passava pela reforma editorial e gráfica conduzida por Odylo Costa Filho, transformação que o tornaria referência da imprensa brasileira. Dividiu a redação com Carlos Castelo Branco, o Castelinho, cuja coluna diária era leitura obrigatória de quem quisesse entender o poder. Ali, ainda jovem, cobriu casos de repercussão nacional, entre eles a prisão do pistoleiro alagoano José Crispim, que morreria em confronto com a polícia em 1968, episódio que décadas depois viraria também matéria de uma de suas peças de teatro.

Passou pelas revistas Manchete e Mundo Ilustrado. Ainda em 1968 tornou-se editor-assistente no grupo que lançou a revista Veja, e dois anos depois transferiu-se para Brasília para chefiar o escritório da publicação na capital federal. Foi ali que decidiu ficar.

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Comandou o Jornal de Brasília em um momento de renovação do jornal, criou e dirigiu por cerca de 15 anos o semanário José, conhecido como Jornal da Semana Inteira, e fundou o DF Brasília, veículos próprios pensados para escrutinar os bastidores da capital. Na televisão, tornou-se rosto conhecido como analista político da Rede Bandeirantes, onde também esteve à frente da operação da emissora na cidade, comentando ao vivo momentos como a eleição de 1989.

Bacharel em Direito, foi professor de Técnica de Jornal na Universidade de Brasília. Serviu ainda como assessor especial da Presidência da República no governo José Sarney, posto que lhe deu acesso direto ao que mais tarde converteria em livro.

O Jogo da Gata Parida nasceu desse período. Lançado em 1987, passou meses na lista dos mais vendidos. O romance narra como o Serviço Nacional de Informações, o SNI, grampeava telefonemas e vasculhava a vida íntima de candidatos não chancelados pelo Palácio do Planalto, à cata de escapadas que servissem para barrar sucessões durante o domínio militar. Ainda hoje é citado em obras de referência sobre o período, como A Ditadura Acabada, de Elio Gaspari.

O restante da obra seguiu por caminhos parecidos, sempre com um pé nos bastidores e outro na ficção. Escreveu as biografias Moisés, Codinome Ulysses Guimarães e Quem É Pedro Simon, além de Quem É Jorge Bornhausen, e organizou a edição comemorativa dedicada a Ulysses Guimarães. Assinou os romances Rendez-vous no Itamaraty e Cadastro Geral dos Suspeitos de Ódio ao Presidente, e as peças O Homem Que Enganou o Diabo e Ainda Pediu Troco, Auto da Perseguição e Morte do Mateu, Auto da Lapinha Mágica e O Processo Crispim. Em 2023, fechou o círculo aberto quando jovem repórter: publicou JB: A Invenção do Maior Jornal do Brasil, sobre a reforma que testemunhara no início da carreira.

Foi em O Anjo Americano, porém, que a Maceió de Gutemberg apareceu com mais nitidez, e com mais desconforto. O romance se passa na cidade, no fim dos anos 1940, e tem como cenário o Bela Vista Palace Hotel, então o mais chique da cidade, onde um americano recém-chegado se vê às voltas com um crime que o obriga a atravessar os vícios e os costumes da sociedade alagoana da época. O público não demorou a aproximar o livro de dois outros clássicos assinados por conterrâneos: Angústia, de Graciliano Ramos, e Ninho de Cobras, de Lêdo Ivo. Ao ser relançado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, o próprio Gutemberg comentou o desconforto de ver o nome ao lado dos dois, e insistiu em se descrever como repórter antes de romancista, autor de um texto que ele chamava de tecnicamente jornalístico.

Para ele, no entanto, Angústia é que continuava sendo o “romance-síntese de Maceió”, o único capaz de conter, num só livro, todas as nuances da cidade que os dois autores compartilharam. Escreveu sobre isso um ensaio, e voltava ao tema sempre que podia.

Numa das últimas entrevistas que deu em Alagoas, na Flipontal de 2018, Gutemberg provocou, como gostava de fazer, sobre o sentimento que os alagoanos nutrem pelos seus intelectuais. Lembrou que Jorge de Lima, o maior poeta que esta terra pariu, morreu longe, em terra estranha, e que Graciliano saiu escorraçado, foi preso injustamente e nunca recebeu de volta o afeto que dedicara ao Estado. Para Gutemberg, nada disso havia mudado. “Os alagoanos gostam tanto dos seus ídolos, que os botam pra correr”, disse. “Os alagoanos têm tanto orgulho dos seus intelectuais, mas não têm nenhum carinho por eles”.

Talvez seja por isso, mais do que pelo acaso de uma vaga na Veja, que ele próprio resolveu construir a vida longe das terras caetés.

Chegou a concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa. A incursão na política local, claro, não prosperou.

Em 1996 recebeu o título de cidadão honorário de Brasília, concedido pela Câmara Legislativa do Distrito Federal, e ocupou a cadeira 8 da Academia Brasiliense de Letras, cujo patrono é José Lins do Rego. Nessa segunda, a Abert, Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, lamentou a morte em nota. A entidade atribuiu a Gutemberg inteligência e espírito crítico, e citou os livros e biografias que deixou como registro da política brasileira.

Nos últimos anos, dedicou parte do tempo ao ativismo ambiental. Em 2022 participou do documentário Luiz Gutemberg: Uma História de Luta na Resex Mestre Lucindo, sobre seu envolvimento na criação da reserva extrativista marinha no Pará. O Correio Braziliense o descreveu como uma “mente inquieta intelectualmente”, sempre atrás de alguma novidade, um homem que reunia gente ao redor de si só para falar de política e dos personagens que conhecera, que não foram poucos.

Gutemberg era casado com a também jornalista Rosângela Bittar, que chefiou a sucursal do Jornal do Brasil em Brasília e foi repórter especial do Estado de S. Paulo. Deixa a esposa e cinco filhos.

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