LITERATURA EM DESTAQUE
A 'Geografia do desconforto' de Guilherme Ramos, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura
Autor de Maceió conta como virada profissional o levou a tratar a escrita como expediente até finalizar livro reconhecido nacionalmente
Em agosto do ano passado, o multiartista alagoano Guilherme Ramos, 53 anos, se viu diante de um desafio inescapável: montar um quebra-cabeça de dez mil peças, todas transparentes. A situação impossível é, evidentemente, uma alegoria. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2026 na categoria Poesia, o autor usa essa imagem para traduzir o labirinto em que se meteu para escrever “Geografia do desconforto”, o livro que garantiu a vitória inédita para um autor alagoano. O certame foi concorrido, com quase 3 mil inscritos — 1.203 apenas na categoria poesia.
O livro é uma subversão pessoal. Ramos já publicou prosa, histórias infantis e cordéis. Nada disso justificaria, à primeira vista, a incursão poética que ele faz na nova obra, ainda inédita, que será publicada pela Senac Rio no final do ano. “Geografia do desconforto” mistura o olhar de um cronista, a percepção de um compositor e a voz de um profissional das artes cênicas para fazer nascer poemas que largam a métrica do cordel, rejeitam a linearidade recorrente na prosa e acordam do sonho infantil.
“Eu vejo como três movimentos, pensando musicalmente, ou ato 1, ato 2 e ato 3 do teatro ou da dança. O livro nasce desse lugar de mistura de linguagens, que é algo que já acompanha a minha trajetória. Para visitar esses caminhos de desconforto, eu tive que me colocar nesse lugar novo como escritor também, escrever poesia como eu não havia feito antes, desafiar a forma, mudar o jeito, eu gosto sempre de pensar a escrita como um trabalho de progresso, eu tento sempre fazer algo mais ambicioso do que já fiz”, afirma Guilherme Ramos.
O título e o conceito vêm da Uncomfortable Geographies, área associada à Geografia Humana e Cultural que estuda como o desconforto físico, emocional, social ou político se manifesta e molda nossas relações com os espaços. Ligada diretamente à Geografia das Emoções e aos estudos de afeto, essa ideia defende que o desconforto não é apenas um sentimento interno individual, mas uma força corporal e social que produz, limita ou transforma os lugares urbanos e sociais.
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Em “Geografia do desconforto”, essa ideia se desdobra em três territórios que dão estrutura ao livro: sangue, asfalto e espelho. No sangue estão memórias de família e heranças afetivas — o que sua avó dizia do marido, o que sua mãe repetia sobre a própria mãe. O asfalto nasceu de uma cena que Guilherme revisita com frequência, a de rodoviárias impecavelmente limpas às cinco da manhã, sem que ninguém veja quem faz esse trabalho: “asfalto olha para os tipos de invisibilização que existem no mundo”. Já o espelho abandona a rua e volta para o corpo que escreve. “São poemas que puxam mais pro existencialismo, pra questão da autoestima, da síndrome do impostor, da loucura”, resume o autor, que em seguida descreve um eu lírico que atravessa família e sociedade só para, trancado em casa, ter que enfrentar a si mesmo.
“Eu realmente estava tentando montar um quebra-cabeça. E eu olhei para o que eu já tinha feito, para o período que eu estava passando, tive que entrar de cabeça num labirinto de memórias, de emoções, de percepções sobre a sociedade que a gente vive e, por fim, olhar nesse espelho. Nossa, foi difícil fazer esse negócio, trabalho grande. Enfim, quando terminei, estava esgotadíssimo”, continua o poeta.
Escrito entre agosto e dezembro do ano passado, o livro veio num período em que, após 27 anos trabalhando, o autor se viu obrigado a se reinventar profissionalmente. Foi na sua arte que encontrou um ombro, conta o escritor, que revela o que talvez tenha sido o impulso para a obra, na sua exploração de questões sociais e laborais.
“Segurei na arte. Eu passei 27 anos produzindo para os outros, entregando muito. Quando me vi ali, resolvi fazer a produção que fazia para os outros, para mim. Tenho escrito oito horas por dia. Eu não posso endoidar, eu repetia, me lembrando muitas vezes da pandemia. Comecei a escrever, escrever e escrever”, relata.
“Às vezes apareciam contos, crônicas, rimas — porque pra gente que nasce em Alagoas rimar é muito fácil — e eu ia entalhando, buscando tirar do que saía o sumo, fazendo, muitas vezes, um trabalho de transfiguração daqueles textos em poesia. Eu vejo o romance como 24 quadros por segundo. O conto é stop motion. A poesia é foto. Então eu precisava incorporar esse fotógrafo, buscar aquele instante essencial dos sentimentos”, continua Ramos.
“E eu mudei meu estilo nesse caminho do livro, meu desconforto foi abolir a rima, foi desafiar meu eu lírico. E, nesse desconforto, construí uma poesia diferente — minha, diferenciada, mais contemporânea também. Eu, pessoalmente, sempre gostei mais de outros formatos, porém este é dez vezes mais difícil. Não se faz uma poesia dessas em um dia. Teve poesia que levei um mês, três meses para terminar”, completa.
PRÊMIO COLETIVO
Quando estiver lançado, “Geografia do desconforto” dará uma rara oportunidade para um escritor alagoano: viajar pelo Brasil falando sobre sua obra e sobre literatura. Guilherme Ramos diz que levantará uma bandeira: ainda se faz boa literatura na terra de Graciliano e Jorge de Lima.
“Quando um escritor de Alagoas ganha um prêmio como esse, é sempre um prêmio coletivo. Uma forma de a gente falar para as pessoas lerem a literatura alagoana e lerem mais também. Eu quero que escritores que têm seus projetos guardados, que muitas vezes desanimam de publicar ou inscrever em um prêmio, vejam que é possível conseguir”, diz.
A percepção de Guilherme Ramos sobre a literatura alagoana encontra sustento factual. Em menos de um ano, escritores locais conquistaram importantes reconhecimentos. No ano passado, Ana Maria Vasconcelos, com Longarinas, venceu o Prêmio Oceanos, um dos mais relevantes da língua portuguesa. Neste ano, duas obras de pesquisadores de Alagoas arremataram o Jabuti Acadêmico: A Loteria do Nascimento, do maceioense Fillipi Nascimento e do economista Michael França; e Drummond e a Administração Pública, do jurista Fábio Lins.
Guilherme Ramos quer também inspirar jovens escritores. “Quantas vezes a gente não ouve que arte não dá em nada? Eu quero, nessas andanças, também falar com os jovens, mostrar que, sem a arte, eu teria já enlouquecido. Precisamos da literatura”, afirma o vencedor do Prêmio Sesc.
A relação com a poesia começou na infância. Quando Guilherme tinha dez anos, a mãe levou para casa uma revista com um poema. Ele leu, ficou encantado e passou a reescrever o texto como se fosse seu. Ano após ano, tenta lembrar dos versinhos que o encantaram pela primeira vez, mas sua mente sempre lhe prega uma peça. “Não vem, eram só quatro versinhos, mas eu não consigo lembrar nem uma vírgula”, diz.
Mas o efeito da poesia é perpétuo. “Por isso, acredito que o contato com a poesia pode ser a virada de chave para qualquer pessoa, jovem ou adulta. Nas oficinas de escrita criativa que dou, muitas em escolas, eu faço questão de dizer para os adolescentes que eles se permitam. Como podem dizer que não gostam de algo que não conhecem direito? Às vezes você bota um hip-hop pra galera, tira a batida, e percebe que a letra é poesia. A poesia está em todo lugar. E você pode encontrá-la se quiser, como eu encontrei montando meu quebra-cabeça de dez mil peças. Todas transparentes.”