GUARDIÕES DO GUERREIRO
Mestres de Maceió mantêm viva a tradição que é símbolo da cultura popular alagoana
Grupos da Chã da Jaqueira e Chã de Bebedouro preservam figurinos, músicas e saberes de um dos principais folguedos populares do estado
Os mestres exibem na cabeça suas igrejas de espelhos, miçangas multicoloridas e fitas de todas as cores; o apito toca e a marcação dos pés pisando ritmados no chão ganha mais energia; espadas cortam o ar em uma batalha sem perdedores, enquanto a rainha, trajada de luz, rodopia dançante ao som da sanfona e do pandeiro. A cena digna de um universo fantástico descreve trechos de um folguedo considerado Patrimônio Imaterial do Estado de Alagoas: o Guerreiro.
Pesquisadores registram que o Guerreiro alagoano reúne referências do Reisado, Pastoril, Bumba-meu-boi, Caboclinhos, Chegança, Fandangos e outras tradições presentes em autos e brincadeiras da região, misturando o profano e o religioso numa celebração que remonta ao nascimento do menino Jesus e à visita dos três Reis Magos. Espalhados na capital e no interior, os grupos de Guerreiro são o cartão-postal da cultura popular do estado. Em Maceió, os chapéus em formato de igreja estão em esculturas gigantescas e em miniaturas para quem quer levar um pedacinho de Alagoas para casa.
Dois grupos tradicionais, sediados nos bairros da Chã da Jaqueira e Chã de Bebedouro, o Guerreiro São Pedro Alagoano e o Guerreiro Treme-Terra de Alagoas, receberam recentemente o apoio do Programa de Apoio Cultural do Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS), executado com recursos do Acordo Socioambiental firmado entre o Ministério Público Federal (MPF) e a Braskem, com participação do Ministério Público do Estado de Alagoas (MPAL) e adesão do Município de Maceió. Na prática, o programa garante a confecção de figurinos, chapéus e adereços, a aquisição de equipamentos de som e instrumentos musicais, além da contratação de serviços para necessidades específicas de cada coletivo.
SÃO PEDRO ALAGOANO
Maria Helena da Silva é dona da casa que há anos guarda um tesouro forte e colorido, transmitido por gerações. A menina de São Luís do Quitunde começou a brincar Guerreiro aos 9 anos, quando os ensaios eram a própria festa, e as pessoas se reuniam para uma brincadeira que durava horas, sem cansaço nem descanso. Virou rainha, hoje é conhecida como Dona Marlene e coordena o Guerreiro São Pedro Alagoano, função a ela atribuída pelo fundador do grupo, Mestre Juvenal Domingos (reconhecido como Patrimônio Vivo de Alagoas), antes de sua morte em 2020.
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A sede do grupo é a própria casa de Dona Marlene, na Chã da Jaqueira, onde ensaiam os 25 integrantes do São Pedro Alagoano. Recentemente, o espaço passou por uma reforma, viabilizada pelo Programa de Apoio Cultural do PAS, e ganhou armários novos para guardar figurinos e chapéus. “Arrumei tudinho, botei minha neta para decorar a sede, aí ficou lindo. Isso me deixa muito feliz, porque meu viver é, primeiramente Deus, segundo esse meu Guerreiro”, diz, entre risos.
TREME-TERRA DE ALAGOAS, LEGADO DE PAI PARA FILHO
O Guerreiro Treme-Terra de Alagoas foi fundado na década de 1980, na Chã de Bebedouro, pelo Mestre Benon, também Patrimônio Vivo de Alagoas. O grupo ficou desativado entre 2016, ano da morte de seu idealizador, e 2024, quando o filho de Benon, Mestre Peitika, exímio fazedor de chapéus e sanfoneiro, resolveu resgatar o legado do pai.
Com 61 anos, Peitika conduz os 20 brincantes do Treme-Terra com a mesma vivacidade do garoto que, aos 10, começou a seguir os passos do Mestre Benon em ensaios e apresentações pela cidade de Maceió. “O Guerreiro foi o ouro, a herança que meu pai deixou para mim. Tudo o que ele me ensinou, eu preciso levar adiante. Ele me pediu isso, era o sonho dele, e tenho certeza de que, onde estiver, ele está feliz com o nosso grupo. O Guerreiro corre na minha veia, e eu não pretendo parar”, assegura.
O grupo ensaia hoje numa área anexa ao Teatro Deodoro, e parte dos instrumentos e figurinos, entre eles a sanfona de Peitika, veio do Programa de Apoio Cultural. “Consegui comprar minha sanfona, caixas de som, microfone sem fio, guarda-roupas, materiais para o figurino, fitas e outros adereços. Agora vou comprar sapatos, meias e novas espadas. Eu, que nunca imaginei comprar uma sanfona, hoje estou rico”, brinca Mestre Peitika.
GUARDIÕES DO GRANDE PODER
Na Casa de Taipa Mestre Verdelinho, na Chã da Jaqueira, habitam as vestes e os saberes do Guerreiro Grande Poder. O endereço dos filhos do saudoso mestre, conhecidos como “Os Verdelinhos”, virou ponto de encontro para quem faz ou admira a cultura popular em Maceió. Foi lá que, em 2023, nasceu o Grande Poder, grupo que carrega o legado de um dos grandes nomes do Coco e do Guerreiro de sua geração. Desde 2025, os Verdelinhos desenvolvem iniciativas para preservar essa herança.
PAS
Além dos recursos financeiros, os coletivos participam de capacitações para o desenvolvimento sustentável das atividades enquanto negócio, e para este ano estão previstas ações de apoio socioemocional aos brincantes. Além dos grupos de Guerreiro, outros 16 coletivos da Cultura Popular e Afro-brasileira serão atendidos até o fim do ciclo de 2026 pelo Programa de Apoio Cultural, que também colabora com o resgate de festividades tradicionais nos bairros de Chã da Jaqueira, Chã de Bebedouro, Bom Parto, Vila Saem e Pinheiro.
O PAS também mantém em andamento o Edital Cultura em Movimento, com mais de 100 projetos voltados à Cultura Popular e Afro-brasileira contemplados com valores entre R$ 15.250 e R$ 30.800, conforme a categoria de inscrição (acompanhe em @editalculturaemmovimento). Um Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial, conduzido por especialistas da Fundepes/UFAL, identificou fazedores culturais e manifestações tradicionais nas áreas desocupadas e no entorno.
O Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS) engloba ainda obras e medidas nos eixos de políticas sociais e redução de vulnerabilidades, atividade econômica, trabalho e renda, e qualificação urbana e ambiental, incluindo construção ou reforma de creches, mercados, praças e unidades de saúde. Parte das ações é executada pela Braskem, outra pelo Município. O orçamento atualizado, custeado pela petroquímica, é de R$ 260 milhões.