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‘Um repórter de romance’

Arnon de Mello antes da política: o escritor e jornalista que começou aos 14 anos

Conferência na Academia Alagoana de Letras recupera os primeiros anos de um autor que saiu de Maceió para cobrir a Revolução de 1930 e retornou autor bestseller no país

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Imagem ilustrativa da imagem Arnon de Mello antes da política: o escritor e jornalista que começou aos 14 anos
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

Para entender um grande homem, é preciso voltar ao menino que ele foi. Essa história começa assim: antes do cheiro de chumbo quente que a linotipo exalava por toda a redação, no silêncio deixado pelos tipógrafos que já foram embora, um garoto debruçado na mesa de revisão caça, com o ímpeto de um desbravador, vírgulas que ninguém mais notaria, palavras intrusas, pensamentos que escaparam dos dedos e foram parar nas notícias.

O menino tem catorze anos e se chama Arnon de Mello. Corria o ano de 1925. Está ali porque Luiz Magalhães da Silveira, dono do Jornal de Alagoas, o viu vendendo assinaturas de jornais porta a porta e lhe deu a vaga de revisor. Antes disso, tinha sido office-boy num armazém de açúcar no Jaraguá, porque a família perdera os dois engenhos de Rio Largo na crise que a Primeira Guerra levou ao litoral alagoano. Nas páginas que ele corrige, ainda mornas do metal fundido, passam parágrafos de Graciliano Ramos, de José Lins do Rego, de Rachel de Queiroz. Ninguém em Alagoas vai lê-los antes dele.

É esse adolescente, não o político ou empresário que ele se tornaria, que a Academia Alagoana de Letras celebra na próxima quarta-feira, dia 2 de setembro, na Casa Jorge de Lima. O pesquisador e poeta Rosalvo Acioli sobe à tribuna para uma conferência batizada de “A Verve Literária e Jornalística de Arnon de Mello”, que marca os 115 anos de nascimento do jornalista, listado pela Academia entre seus sócios efetivos. Para reconstituir essa memória, distinta da do governador e do senador, é preciso voltar no tempo, ir além da sala de revisão, ir às ruas da capital alagoana de outrora.

Aos doze anos, dois antes de vestir o crachá de revisor, Arnon já escrevia por conta própria. Fundara, interno no Ginásio de Maceió, um jornalzinho estudantil feito à mão, O Eco. As primeiras reportagens de verdade, porém, saíram de uma máquina de escrever que não era dele. O dono do Café AFA emprestava-lhe o aparelho depois do expediente, quando a cidade já dormia. Foi nessa máquina alugada pela gentileza que ele escreveu os primeiros textos assinados com o próprio nome.

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Recorte da revista Vida Capichaba de 1928, quando o alagoano Arnon de Mello estava prestes a completar 18 anos
Recorte da revista Vida Capichaba de 1928, quando o alagoano Arnon de Mello estava prestes a completar 18 anos | Foto: Reprodução/Acervo

Em 1927, com dezesseis anos, passou a frequentar as reuniões literárias promovidas na casa do intelectual Manuel Diégues Júnior, de onde nasceria o Grêmio Literário Guimarães Passos. Guarde esse nome. Ele vai voltar. Rosalvo Acioli descreve o jovem que ali chegou: “O adolescente Arnon tornou-se o mais jovem intelectual a integrar o grupo de dezenas de escritores iniciantes, entre os quais Aurélio Buarque de Holanda, Aloísio Branco e Raul Lima. A convivência e a experiência salutares adquiridas no convívio desses intelectuais proporcionaram a Arnon incentivos na formação de jornalista e de escritor”, diz.

O grêmio combinava com o momento. Os anos 1920 viram, em Maceió, algo raro para o tamanho da cidade. Havia sociedades literárias, academias e revistas fermentando quase ao mesmo tempo, entre elas a Academia dos Dez Unidos, a Semana de Arte de Maceió e a revista Maracan. Foi desse caldo que saiu, na década seguinte, uma geração inteira de escritores alagoanos rumo ao Rio de Janeiro, como Jorge de Lima, Aurélio Buarque de Holanda e Graciliano Ramos. Arnon seguiria o mesmo trajeto. Foi por ele que veio a projeção que faltava a um jovem jornalista do Nordeste.

Antes de embarcar, porém, já tinha leitores fora de Alagoas. Em 1929, por exemplo, aos dezessete anos, publicou diversos textos em jornais e revistas nacionais. Em um desses textos, acusava Arthur Conan Doyle de plagiar Voltaire. Em outro, dizia que Jorge de Lima, de quem se considerava próximo e mesmo assim tecia críticas acerca do seu fazer literário, deixou de desprezar a “Dona poesia” quando escreveu o célebre “Essa Negra Fulô”.

“Eu sempre tive uma certa admiração pelo poeta Jorge de Lima. Desde aqueles tempos em que ele me dava, com um sorriso de profunda ironia, hoje só por mim interpretado, o XIV Alexandrinos e a Comédia dos Erros”, narrou Arnon. “Lendo Essa Negra Fulô, eu logo rescindi o contrato, firmado comigo mesmo, de não mais escrever sobre os seus labores literários, e não tive outro jeito, senão traçar estas linhas. Essa Negra Fulô é um belíssimo poema. Bonito pra burro! E um poema, além de tudo, brasileiro. Brasileiro da cabeça aos pés, todo sensualismo”, escreveu Arnon.

Imagem ilustrativa da imagem Arnon de Mello antes da política: o escritor e jornalista que começou aos 14 anos
| Foto: Reprodução/Acervo

Meses depois, ao resenhar um livro de charges e versos de Ary Pavão para a imprensa sudestina, a revista Vida Capichaba já o apresentava ao leitor com uma legenda que soa hoje como presságio: “Arnon de Mello, nosso jovem e brilhante confrade em Maceió, no Estado de Alagôas”.

A consagração maior veio com a Revolução de 1930. Aos dezenove anos, recém-chegado ao Rio, Arnon rodou o país entrevistando os políticos que o movimento derrubara e publicou o material em livro lançado pelo Diário de Notícias. A ousadia de um repórter tão jovem tratando de figuras tão poderosas surpreendeu o meio jornalístico da então capital federal. Humberto de Campos, um dos cronistas mais lidos da época, chamou a obra de um dos livros mais interessantes entre os que a Revolução inspirou: “Livro de piedade e de simpatia. Livro de sentimento e de história. Livro, sobretudo, de um belo talento, que se está completando”, disse.

Dois anos depois veio o livro que fixaria seu nome entre os mais importantes do jornalismo literário nacional da época. Em julho de 1932, quando São Paulo pegou em armas contra Getúlio Vargas, os Diários Associados de Assis Chateaubriand mandaram Arnon para o front como enviado especial. Ele passou quase quatro meses acompanhando as tropas, e do diário de guerra que manteve saiu “São Paulo Venceu!”, publicado em 1933. A revista carioca O Malho, ao anunciar o lançamento, resumiu o que distinguia aquele repórter dos demais: “Arnon de Mello, moço e inteligente, diferentemente de seus colegas, ainda tinha uma qualidade rara nos jornalistas: a originalidade”. E definiu o trabalho dele no front paulista numa frase que talvez seja a melhor síntese já escrita do seu ofício: “um completo repórter de romance”.

Costa Rego, também ex-governador de Alagoas, foi na mesma direção. O veredito dele ficaria colado ao nome de Arnon dali em diante. “A narração empolga, pois Arnon de Mello não é só um repórter: é um escritor que se firma, ainda nos vinte e poucos anos de idade”.

A cadeira 16 e o destino traçado de Arnon de Mello

O patrono da vaga que o jornalista e intelectual ocupou na Academia Alagoana de Letras, em 1945, é o mesmo que dá nome ao grêmio literário em que ele entrou ainda adolescente
O patrono da vaga que o jornalista e intelectual ocupou na Academia Alagoana de Letras, em 1945, é o mesmo que dá nome ao grêmio literário em que ele entrou ainda adolescente | Foto: Reprodução/Acervo

Rosalvo resume os três livros que, na década de 1930, projetaram o jornalista alagoano fora de Alagoas. “Foram livros significativos para o jornalismo e a Literatura no Rio de Janeiro e em São Paulo: Os Sem Trabalho, editado em 1931, relatos escritos após as entrevistas com políticos vencidos na Revolução de 1930, reportagem que realizou com mestria aos 19 anos para o Diário de Notícias, surpreendendo o meio jornalístico; São Paulo Venceu!, editado em 1933, diário sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, levante armado que Arnon escreveu cumprindo a determinação de Assis Chateaubriand para cobrir durante quase quatro meses o conflito iniciado em 9 de julho de 1932 entre os paulistas e as forças de Getúlio Vargas; e África, descrição sociológica e histórica da viagem que Arnon realizou ao continente africano integrando a comitiva do Presidente Carmona. Esses três livros, escritos com qualidade jornalística e literária, obtiveram repercussão e destacaram Arnon de Mello no meio jornalístico e literário do Brasil”, resume.

O terceiro título tinha uma explicação de bastidor pouco lembrada hoje em dia: Arnon integrou a comitiva oficial do presidente português Óscar Carmona numa visita às colônias africanas de Portugal, e do que viu naquela viagem saiu seu último livro-reportagem. Depois dele não há registro de um quarto título assim assinado por Arnon de Mello. Ele continuaria escrevendo pelas três décadas seguintes, mas sobre outra matéria: o próprio mandato e a política.

De volta a Alagoas, assumiu a direção do Jornal de Alagoas em 1936, ano em que o veículo passou a integrar a cadeia dos Diários Associados. A Gazeta de Alagoas só entraria nessa história dezesseis anos depois, em 1952, já sob um Arnon governador.

Foi ainda como jornalista e escritor que a Academia Alagoana de Letras o chamou. Em março de 1945, tomou posse na cadeira 16. O patrono é Guimarães Passos, o mesmo nome do histórico grêmio onde o adolescente Arnon fora aceito, dezoito anos antes, como o mais novo do grupo.

O escritor Rosalvo Acioli conduz a conferência “A Verve Literária e Jornalística de Arnon de Mello”, na Academia Alagoana de Letras
O escritor Rosalvo Acioli conduz a conferência “A Verve Literária e Jornalística de Arnon de Mello”, na Academia Alagoana de Letras | Foto: @Ailton Cruz

“O ingresso de Arnon de Mello na Academia Alagoana de Letras se deveu sobretudo por ter ele obtido projeção nos meios intelectuais e literários no Rio de Janeiro e pelo apoio dos conterrâneos Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Jorge de Lima, Romeu de Avelar e Valdemar Cavalcanti, entre outros interlocutores e apoiadores”, conta Rosalvo. “Em Maceió, Adalberon Cavalcanti Lins e José Maria de Melo também contribuíram para que a Academia elegesse o jornalista e escritor Arnon com louvor”, detalha Rosalvo Acioli.

Cinco anos depois da posse, em 1950, Arnon venceu a eleição para governador de Alagoas, superando o adversário Campos Teixeira por ampla margem de votos. Dali em diante, o nome que a crítica carioca chamara de “um escritor que se firma” seria lembrado por outra coisa: pelo governo, pelos jornais que viria a adquirir, pelo Senado. O repórter que colecionara elogios de Costa Rego e Humberto de Campos nunca mais assinaria um livro de reportagem.

Rosalvo não vê nisso, porém, um apagamento total. “Após administrar Alagoas, Arnon manteve-se inspirado, escreveu o livro Uma Experiência de Governo, editado em 1958, e, eleito senador, continuou escrevendo uma dezena de opúsculos durante o mandato no Senado da República”.

Para o presidente da Academia Alagoana de Letras, Alberto Rostand Lanverly, celebrar a vida e a obra literária de Arnon de Mello é uma forma de humanizar o político e restabelecer a memória da literatura alagoana. “A Academia Alagoana de Letras vem celebrando a memória de seus membros, com muito respeito e alegria. Neste mês, que tradicionalmente chamamos de Mês de Arnon de Mello, nos 115 anos desse empresário e político, trazemos essa conferência como um lembrete de um legado que passa por um destaque empresarial, de inovação, de pioneirismo na política e na comunicação, mas que começa ali, com o menino que vendia assinaturas de jornais, que revisava ainda na adolescência, que aprendeu a amar as letras e dedicou parte de sua vida a esse ofício que compartilhamos, o de escrever”, pontua o presidente da AAL.

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