DIA DA VISIBILIDADE LÉSBICA
Cinco perguntas para Cíntia Ribeiro, que decidiu incomodar ‘sonos injustos’
Jornalista e pesquisadora fala sobre linguagem como território de disputa, memória e violência contra mulheres lésbicas; neste sábado, ocorre a 2ª edição do ‘Fala, Bolacheira!’
Theatro Homerinho, Jaraguá, 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. As portas abrem às 18h para um público que só entra se for mulher, maior de idade, e amar mulheres. Lá dentro, uma roda de conversa sobre lesbofobia, lesbicídio e apagamento social divide o palco com pocket shows, discotecagem e até treino funcional. O tema escolhido para esta segunda edição do “Fala, Bolacheira!” não deixa margem para eufemismo: “Parem de nos matar”. Os ingressos, gratuitos, esgotaram em seis horas, bem mais rápido que em 2025, quando o esgotamento levou dois dias.
O evento nasceu de uma conversa entre a jornalista e pesquisadora Cíntia Ribeiro e a museóloga Cármen Lúcia Dantas, casadas há mais de uma década. Cíntia é doutora e mestra em Linguística pela Ufal, com pesquisas que cruzam análise do discurso, raça, gênero e desinformação. Cármen Lúcia é museóloga pela UFRJ e mestra em Literatura Brasileira pela Ufal, onde também foi professora; em 2023 recebeu a Medalha do Mérito Museológico do Conselho Federal de Museologia. As duas idealizaram o “Fala, Bolacheira!” juntas, e é dessa dupla formação, entre a palavra e a memória, que o projeto tira sua lógica.
A parceria entre as duas antecede em muito o evento. Roteirista, Cíntia assina, ao lado do cineasta Celso Brandão, os curtas-metragens “Mestra Virgínia Moraes” (2002) e “Mestra Hilda do Coco” (2013), e roteirizou “As lavadeiras da Ilha do Ferro” (2022). Essas conexões a levaram a frequentar a Ilha do Ferro, no Baixo São Francisco, desde 1999. Cármen Lúcia conheceu o mesmo povoado ainda antes, em 1983, também ao lado de Celso Brandão. Hoje as duas dividem a vida entre Maceió e a Casa Pirambeba, na esquina da descida para o Rio São Francisco, nesse local mágico do Sertão de Alagoas. Documentar mestras populares, catalogar patrimônio e dar nome a quem a história oficial deixou de fora é, no fim, o mesmo ofício, exercido em registros diferentes. E isso sustenta também o “Fala, Bolacheira!”.
O nome do evento vem de um termo que durante gerações funcionou como xingamento em Alagoas. “Aquela bolacheira”, “bolacheira safada”: expressões repetidas como piada e ofensa, uma lesbofobia recreativa misturada à misoginia e LGBTfobia. Foi na análise do discurso, diz Cíntia, que aprendeu a enxergar o funcionamento de um termo assim, “uma ficção de poder cisheteronormativo, feita para oprimir e desumanizar”. Ao ressignificar a palavra, segundo ela, a comunidade se apropria de “arranjos discursivos que demonstram o controle sobre nossos próprios corpos, um modo de resistir”.
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A pauta é dura, mas o formato não abre mão da arte. Shows, discotecagem e treino funcional dividem espaço com a roda de conversa, que reúne uma advogada, uma ginecologista, uma promotora e uma pesquisadora da Ufal para discutir violência institucional, saúde e direitos constitucionais. Nesta entrevista, Cíntia Ribeiro fala sobre o que move o “Fala, Bolacheira!”: o encontro entre linguagem, memória e presente.
GAZETA DE ALAGOAS. Por que “Parem de nos matar” é o tema desta edição, e o que justifica um tom mais urgente?
CÍNTIA RIBEIRO. O tema vem num contexto de aumento da violência contra mulheres, de modo geral. E da necessidade de pensar um marcador mais específico, voltado à violência que atinge mulheres lésbicas. Vivemos numa escala cotidiana de lesbofobias simbólicas e materiais, que vai da invisibilidade ao lesbicídio. O assassinato de mulheres lésbicas e bissexuais quase sempre é registrado como feminicídio. Essa invisibilidade estatística esconde a realidade. Impede localizar a violência de ódio, motivada pela orientação sexual, em diferentes esferas da vida social: família, trabalho, escolas e universidades, consultórios médicos e espaços públicos. Sem dados efetivos, não há políticas públicas de saúde, de combate à violência, de emprego e renda pensadas a partir de demandas reais. Esse apagão precisa ser iluminado. É dever do Estado mapear a violência de gênero contra mulheres que amam mulheres.
Como você vê o papel da memória, não só a sua pesquisa acadêmica, mas a de Cármen Lúcia como museóloga, dentro de um movimento como esse?
Uma reflexão que uso bastante, vinda da análise do discurso, é o encontro entre memória e atualidade. Aplicada aos sentidos de palavras como “bolacheira”, ela marca onde nos localizamos politicamente, no tempo e no espaço. Trabalhamos numa encruzilhada: a memória de uma, a atualidade da outra. Não necessariamente nessa ordem. O “Fala, Bolacheira!” é a materialidade desse encontro. Uma das parcerias mais felizes e fortes do “Fala, Bolacheira!” é com as meninas da Festa das Sáficas, que estão na faixa dos vinte e poucos anos. O diálogo intergeracional é a síntese do funcionamento do batimento memória/atualidade.
Sobre a memória em si: mulheres lésbicas da geração de Cármen (80), e da minha (59), aprenderam cedo que nossas histórias não importam. Começa na família. Somos levadas a silenciar a experiência afetiva. Ela existe, mas finge-se que não é real. Essa invisibilização está nos álbuns de família: casais de mulheres lésbicas, sobretudo as mais velhas, aparecem menos nos registros tradicionais dos arranjos heteronormativos. O “Fala, Bolacheira!” vem para colocar não apenas o dedo, mas a mão inteira, nas feridas abertas.
O que te preocupa hoje, especificamente, na forma como a sociedade alagoana trata mulheres lésbicas? O que mudou e o que não mudou?
Produzir conhecimento a partir da perspectiva de mulheres lésbicas é urgente. Me preocupa o vazio deixado por alagoanas que, na época delas, não puderam se posicionar como mulheres que amavam mulheres. Alagoas tem sua história estruturada e contada por homens brancos. Exaltada como terra de Zumbi dos Palmares, mas sem racializar a própria experiência sócio-histórica. Existe uma falha abissal nos registros que desconsidera interseccionalidades de gênero, classe e raça. O que me alegra é o número de mulheres pesquisadoras empenhadas em mudar essa dinâmica.
Existe alguma tensão entre fazer um evento de festa (shows, DJ) e um evento de denúncia (violência, lesbicídio) na mesma noite? Como vocês equilibram isso?
Não. Mesmo sendo visto como uma afronta, o “Fala, Bolacheira!” não opera numa lógica de guerrilha. O enfrentamento está na abertura de espaços de escuta e acolhimento, pela ocupação da linguagem e, a partir dela, das demandas. Começamos com rodas de conversa, refletindo a urgência de políticas de contenção da violência. A arte entra como um alento. Os shows são o momento de olhar essa realidade com esperança, mirando um lugar mais justo e menos violento para mulheres que amam mulheres.
Se pudesse dizer uma frase para a mulher que ouviu “bolacheira” como xingamento e nunca teve esse espaço, o que diria?
Parafraseando Conceição Evaristo em sua reflexão sobre escrevivências, eu, mulher negra e lésbica-raiz, digo: nós, bolacheiras, não estamos aqui para adormecer os preconceituosos, mas para incomodá-los em seus sonos injustos.