EVENTO NO MUSEU
Museu Théo Brandão devolve às comunidades de terreiro vozes ancestrais do Xangô alagoano
Registros sonoros produzidos por Théo Brandão ao longo de décadas de pesquisa serão lançados nesta quarta-feira (2), em Maceió, como parte de uma ação de restituição e reparação histórica
Em 1912, um episódio de violência varreu Maceió. Terreiros foram destruídos, objetos rituais confiscados e praticantes perseguidos. O que ficou conhecido como Quebra de Xangô deixou uma cicatriz profunda na história das religiões de matriz africana em Alagoas e contribuiu para o silenciamento ou a dispersão, por décadas, de vozes, cantos e memórias de comunidades inteiras. Nesta quarta-feira (2), às 16h, o Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore da Ufal caminha na direção oposta: devolve às comunidades de terreiro registros sonoros históricos dos xangôs e candomblés alagoanos preservados em seu acervo.
O evento “Memórias Alagoanas do Axé: Coleção do Museu Théo Brandão” será realizado no pátio do museu e contará com abertura institucional, apresentação do projeto de requalificação do acervo, mesa de debate sobre memória, patrimônio, cultura afro-alagoana e restituição e lançamento público das gravações. A programação será encerrada com apresentação do Afoxé Odô Iyá.
Produzidos pelo folclorista Théo Brandão ao longo de décadas de pesquisa, os registros preservam vozes, cantos e sonoridades de manifestações afro-alagoanas que, sem a conservação do material, poderiam ter desaparecido. Para Wagner Neves Diniz Chaves, antropólogo da UFRJ e ex-diretor do museu entre 2010 e 2014, a importância histórica dos registros é excepcional.
“A importância histórico-cultural é enorme, pois trata-se possivelmente dos registros em áudio mais antigos dos xangôs e candomblés alagoanos”, afirma. Segundo ele, as gravações permitem acessar não apenas a diversidade da musicalidade afro-alagoana — do Nagô à Umbanda, passando pelas modalidades traçadas —, mas também os métodos utilizados por Théo Brandão em suas pesquisas e a relação que estabelecia com seus interlocutores.
Homem que matou mulher na frente da filha de 4 anos é preso no Distrito Federal
Homem morre afogado em rio em Igaci
Suspeito de furto de bicicleta é atropelado e quase sofre linchamento em Arapiraca
JHC desconversa sobre apoio a Flávio Bolsonaro: "Estamos aqui para cuidar de Alagoas
JHC exalta protagonismo de Célia Rocha durante agenda em Arapiraca
A restituição do material às comunidades, para Chaves, também desloca o acervo do lugar de simples documento histórico. “O retorno, a devolução e a restituição dessas gravações às comunidades de axé em Alagoas é um ato de reparação histórica e um modo de aproximação dos praticantes de hoje com as vozes, os toques e as sonoridades de seus antepassados”.
A diretora do Museu Théo Brandão, Hildênia Oliveira, relaciona a iniciativa diretamente ao histórico de perseguição às religiões de matriz africana no estado. “As religiões de matriz africana aqui em Alagoas possuem uma mácula gigante, que é a Quebra de Xangô. Devolver essas vozes a quem pertence é o papel da instituição museológica. Não consigo ver o papel do Museu sem essa ligação direta com as comunidades de terreiro”, afirma.
Para Hildênia, a requalificação do acervo também representa uma mudança na maneira como a instituição se relaciona com o patrimônio afro-alagoano. “Sobretudo, as vozes são vivas — devolvê-las é um dos papéis mais importantes nessa jornada de requalificar o acervo do MTB”.
A diretora defende ainda que o museu assuma uma função ativa na preservação e na compreensão dessas memórias. “O Museu, como a casa da gente alagoana, tem essa obrigação de preservar as vozes, as imagens, os objetos ritualísticos e representativos da religião de matriz africana. É papel crucial do MTB, inclusive de letramento para a sociedade”.
A programação é realizada pelo Museu Théo Brandão em parceria com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Ufal e é aberta ao público.
Serviço:
- O quê: Memórias Alagoanas do Axé: Coleção do Museu Théo Brandão
- Quando: 2 de setembro, às 16h
- Onde: Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore, Ufal
- Quanto: Entrada gratuita.