TEATRO NO FERIADO
Luiz Fernando Guimarães faz única apresentação em Maceió com a comédia ‘Baixa Sociedade’
Com texto de Juca de Oliveira, peça sobre ascensão social chega ao Teatro Gustavo Leite no feriado de 7 de setembro
Em 1974, um bancário carioca de 25 anos precisou escolher entre duas vidas. De um lado, o banco, o salário certo, a rotina de quem cuida do dinheiro dos outros. Do outro, um convite improvável para um grupo de teatro chamado Asdrúbal Trouxe o Trombone, e uma apresentação à meia-noite no Teatro Opinião. A peça, “O Inspetor Geral”, foi considerada um dos cinco melhores espetáculos daquele ano. O bancário pediu demissão. Meio século depois, Luiz Fernando Guimarães segue em cena. O personagem que ele traz a Maceió no feriado de 7 de setembro também vive escolhendo, ou tentando escolher, entre a vida que tem e a vida que gostaria de ter.
Chama-se Otávio. Desempregado há quatro anos, endividado, ele está disposto a qualquer artifício para sustentar diante da própria família a aparência de que está indo bem: pede dinheiro ao padeiro, ao farmacêutico, a quem estiver por perto, e arma esquemas que nunca dão totalmente certo. Ele é o protagonista de “Baixa Sociedade”, comédia escrita nos anos 1970 por Juca de Oliveira, que faleceu em março deste ano, aos 91 anos, que via nesse texto um retrato do jeitinho brasileiro afiado o bastante para seguir funcionando meio século depois, trocando só o nome do banco e o valor do boleto.
Guimarães, hoje com 76 anos, vestiu Otávio para celebrar os próprios 50 anos de carreira, numa turnê que já passou por Rio, Brasília e São Paulo antes de chegar ao Teatro Gustavo Leite. Ele topou falar sobre isso e sobre o que significa herdar um texto.
GAZETA DE ALAGOAS. O que te atraiu em “Baixa Sociedade” e nesse Otávio especificamente?
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LUIZ FERNANDO GUIMARÃES. O que me atraiu, em primeiro lugar, foi o próprio texto. A partir do convite do Pedro Neschling para fazer a primeira leitura, eu já me vi fazendo esse papel. Conheço, na verdade, vários Otávios na vida — e acho que todo o público que acompanha a gente se identifica bastante com o personagem, que tem várias nuances. Ele é, ao mesmo tempo, um armador, um cara que planeja, mas nem tudo dá certo com ele. Acho que é um personagem totalmente imprevisível, querido, gostoso de fazer. Poderia ser o antagonista do espetáculo, uma pessoa horrorosa, nociva, mas é extremamente fofo, agradável, positivo. Fui construindo ele na medida em que as situações, que são diversas na peça, foram se apresentando.
Você falou em “Otávios” que conhece na vida real. Como eles entraram nessa construção, como funciona isso?
Eu sempre procuro observar o que está à minha volta para construir personagem. Vou observando os Otávios que existem fora, ao meu redor, familiares, amigos, e procuro os que existem dentro de mim também. Já fiz outros parecidos, de formas diferentes. Construo sempre de dentro para fora, nunca de fora para dentro: dou uma mergulhada naquela situação, naquele exato momento. É uma coisa altamente recreativa pra mim. Durante os ensaios, com a ajuda dos colegas, o resultado vai ficando bom, e como estamos em turnê, ele vai se modificando a partir de cada estado, da compreensão de cada público. A gente constrói o personagem junto com quem assiste.
Depois de tantos personagens, ainda existe desafio nesse ofício, ou virou rotina?
Por incrível que pareça, eu nunca vejo como desafio. Vejo sempre como proposta, porque gosto muito de teatro. Quando aceito um projeto — a dramaturgia, a situação, todo o conflito, a trajetória — vejo como oportunidade de fazer um bom personagem, uma boa peça, de transmitir coisas boas pro público, de fazer com que ele se identifique. A construção vai muito aos poucos. Tem o ensaio, que é a preparação, e a gente vai construindo o espetáculo ao longo da temporada.
Essa busca por ascensão social que Otávio traz, carrega algo que você reconhece na sociedade de hoje?
A sociedade é sempre essa busca. É impressionante como um texto escrito na década de 1970 ressoa até hoje. Eu falo com as pessoas no final da peça e elas se identificam; quando não se identificam, conhecem alguém muito parecido. Os boletos chegando, as dívidas, um personagem sem carreira, desempregado há quatro anos, buscando cooperação dos amigos, do cara da padaria, do cara da farmácia, porque está sem dinheiro pra pagar. É aquele armador que todo mundo conhece. Acho que todo rico procura ficar mais rico, o pobre procura ascensão, a classe média quer melhorar de vida. É uma coisa comum na nossa sociedade, se não em todas.
Em que momento da sua trajetória “Baixa Sociedade” chega?
Estou comemorando 50 anos de carreira, e a peça se encaixa nesse aniversário artístico. É muito legal pra mim porque estou fazendo uma peça que adoro, um texto que admiro muito, com um elenco que também adoro — é uma amizade. A peça flui de um jeito: eu entro em cena e não saio mais, quando vejo já está no final. Ela é leve, diferente, tem nuances, eu vou pra cá, vou pra lá. É uma trajetória linda, muito recreativa, muito divertida.
O que você espera que o público de Maceió sinta ao sair do teatro?
A gente sempre espera que o público se identifique. É o que tem acontecido nos lugares por onde a gente passa. Fazemos um trabalho em cada cidade pra entender a lógica daquele estado, como funcionam as pessoas, as referências locais, pra atualizar a peça pra aquele público específico. Isso aproxima demais a plateia.
É a primeira vez que você interpreta um texto do Juca de Oliveira? Como recebeu essa missão, ainda mais neste ano?
Conheci o Juca de Oliveira há muito tempo. Quando o Pedro Neschling me convidou, eu li o texto e já me vi ali fazendo. Não é exatamente o texto original: estamos fazendo adaptações pra atualizar, porque ele foi escrito na década de 70 e precisava dessa atualização. Recebi essa missão como algo maravilhoso. Tenho uma admiração enorme pelo Juca, pelo autor, pelos textos, por tudo. Eu nunca vejo uma proposta como problema, vejo sempre como possibilidade de fazer alguma coisa bacana na minha vida, e foi o que aconteceu: o espetáculo é muito bom pra mim, pro público, pra nossa equipe. Existe uma química entre nós, e estamos felizes de poder viajar pelo Brasil com essa turnê, mostrando pro público brasileiro uma peça extremamente brasileira, bonita, agradável de fazer, divertida — que é o que acho que nosso público precisa agora. E tem sido uma coisa muito interessante, porque eu não tinha noção da quantidade de pessoas que me acompanham desde o início da carreira. Público vindo falar comigo, tirar foto — isso é como um parabéns pelos meus 50 anos de atividade artística.