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O teatro de Homero Cavalcante volta à cena com ‘Você Fala Javanês?’

Comédia inspirada em Lima Barreto será apresentada gratuitamente pelo projeto Sesc em Cena em Maceió e Arapiraca; montagem reúne o veterano de seis décadas de palco a dois atores de uma nova geração

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Na capital, as sessões acontecem hoje e amanhã, às 19h30, no Centro Cultural Arte Pajuçara; em Arapiraca, montagem chega nos dias 29 e 30, no mesmo horário, no Teatro Hermeto Pascoal
Na capital, as sessões acontecem hoje e amanhã, às 19h30, no Centro Cultural Arte Pajuçara; em Arapiraca, montagem chega nos dias 29 e 30, no mesmo horário, no Teatro Hermeto Pascoal | Foto: Divulgação

Antes de entrar em cena, Homero Cavalcante ainda sente o mesmo frio na barriga de quando começou. Aos 77 anos e depois de seis décadas dedicadas ao teatro alagoano, o ator continua descrevendo os minutos que antecedem uma apresentação como um momento de tensão. A imagem que escolheu para explicar a sensação é a de uma guilhotina suspensa sobre a cabeça do ator. “Sem as borboletas, sem essa coisa que dá dentro da gente, acabou”, disse em entrevista à Gazeta de Alagoas, em abril deste ano. “Mas a guilhotina continua lá. Toda vez”.

É nesse estado de expectativa que Homero volta ao palco com “Você Fala Javanês?”, comédia da Associação de Teatro e Cultura Magote Teatral que será apresentada gratuitamente em Maceió e Arapiraca pelo projeto Sesc em Cena. Na capital, as sessões acontecem nos dias 9 e 10 de setembro, às 19h30, no Centro Cultural Arte Pajuçara. Em Arapiraca, a montagem chega nos dias 29 e 30, no mesmo horário, no Teatro Hermeto Pascoal, no Sesc Arapiraca.

A peça parte de um conto publicado por Lima Barreto em 1911, “O Homem que Sabia Javanês”. Na história original, o personagem Castelo conta como conseguiu ascender socialmente ao fingir domínio de uma língua que não conhecia. A montagem alagoana preserva o mecanismo de sátira e leva para o palco uma situação em que conhecimento, aparência e prestígio se misturam.

O ponto de partida é uma carta enviada de Java ao Barão de Jacuecanga, escrita em uma língua que ninguém ao redor consegue compreender. É quando o protagonista percebe a oportunidade de se apresentar como alguém capaz de decifrá-la. O fingimento abre portas e produz uma sequência de situações em que o humor nasce justamente da distância entre aquilo que o personagem aparenta saber e o que de fato conhece.

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Com texto de Leda Almeida Guerra e direção de Raphael Vianna e Homero Cavalcante, a montagem coloca em cena Homero ao lado de João Victor Regis e Mitchel Leonardo. O encontro também aproxima diferentes momentos da história recente do teatro alagoano. Aos 77 anos, Homero carrega uma trajetória iniciada há seis décadas, enquanto os dois atores que dividem o palco com ele pertencem a uma geração mais jovem.

A relação de Homero com o teatro começou ainda na infância, quando morava no Centro de Maceió, perto do Teatro Deodoro. Ele lembra das manhãs em que passava de velocípede pelas imediações do prédio e de uma apresentação da Companhia Internacional de Marionetes Rosana Picchi que assistiu ainda menino. “Eu fiquei enlouquecido”, contou. Pouco depois, outro espetáculo de bonecos, dessa vez apresentado na Feira do Passarinho, mostrou ao futuro ator uma dimensão diferente da cena.

A carreira veio a partir daí. Ao longo das décadas, Homero atuou, dirigiu e escreveu peças, participou da formação de novos artistas e ajudou a construir parte da estrutura do teatro alagoano. Ao lado de Linda Mascarenhas, fundou a Associação Teatral de Alagoas. Também lecionou na Escola Técnica de Artes da Ufal, onde acompanhou a formação de atores, diretores e técnicos que seguiram carreira dentro e fora do estado.

O nome dele acabou batizando o Theatro Homerinho, em Jaraguá, espaço onde apresentou a própria montagem de “Você Fala Javanês?” em abril. Na ocasião, a estreia tinha um significado particular: era a primeira vez que Homero entrava em cena no teatro que leva o apelido pelo qual é conhecido. A experiência se somava a uma comemoração mais ampla dos 60 anos de sua trajetória artística.

A idade também aparece na montagem, embora não como um obstáculo a ser vencido. Homero costuma falar sobre as mudanças que o tempo impõe ao corpo e sobre a experiência que vem com a maturidade. Para ele, a passagem dos anos altera a maneira como o artista enxerga o próprio trabalho. “A maturidade faz a gente perceber quanta coisa poderia ter sido feita melhor”, afirmou. O teatro, acrescenta, continua oferecendo espaço para diferentes gerações.

Essa convivência entre artistas de idades diferentes também atravessa os ensaios. Em entrevista, Homero contou que continua aprendendo com os atores mais jovens com quem trabalha. “Estou ensaiando com dois atores jovens e eles me fazem descobrir coisas todo dia — nuances, malícias. É eterno isso”, disse.

A ideia se aproxima da própria trajetória que ele construiu. Mesmo depois de seis décadas, Homero mantém uma relação cotidiana com a produção teatral de Alagoas e costuma acompanhar as apresentações realizadas na cidade. Ele conta que vai aos espetáculos por entender que assistir ao trabalho dos colegas também faz parte de pertencer ao teatro. “Eu vou porque é o teatro”, afirmou.

“Você Fala Javanês?” chega agora a duas cidades alagoanas dentro da programação do Sesc em Cena, iniciativa que promove apresentações e ações culturais em equipamentos do Sesc Alagoas e espaços parceiros. Para o público, a circulação amplia o acesso à montagem, que poderá ser vista gratuitamente mediante retirada de senhas uma hora antes de cada sessão.

A peça tem duração aproximada de uma hora e classificação indicativa de 12 anos. Em Maceió, as apresentações serão realizadas no Centro Cultural Arte Pajuçara, na Galeria Artcenter Pajuçara. Em Arapiraca, o espetáculo ocupa o Teatro Hermeto Pascoal, no Sesc Arapiraca.

Para Homero, a relação com a cena continua ligada àquilo que o levou ao teatro ainda jovem. Em uma conversa sobre os 60 anos de carreira, ele resumiu a permanência no palco como uma questão de paixão. “Nunca planejei isso — fui puxado pelo próprio ato”, contou. E acrescentou: “Espero que até meus últimos momentos eu esteja consciente fazendo uma cena”.

Serviço:

  • O quê: espetáculo “Você Fala Javanês?”, da Associação de Teatro e Cultura Magote Teatral
  • Quando: 9 e 10 de setembro, às 19h30, em Maceió; 29 e 30 de setembro, às 19h30, em Arapiraca
  • Onde: Centro Cultural Arte Pajuçara, na Galeria Artcenter Pajuçara, em Maceió; Teatro Hermeto Pascoal, no Sesc Arapiraca
  • Quanto: Gratuito | Senhas distribuídas uma hora antes de cada apresentação
  • Duração: 1 hora
  • Classificação: 12 anos
  • Texto: Leda Almeida Guerra
  • Direção: Raphael Vianna e Homero Cavalcante
  • Elenco: Homero Cavalcante, João Victor Regis e Mitchel Leonardo

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