TEATRO EM ALAGOAS
Ivana Iza retorna aos palcos, após hiato de sete anos, com seu projeto cênico mais arriscado
Em “Improviso sobre a culpa”, atriz propõe uma experiência aberta à participação do público neste sábado (19), às 19h30, no Theatro Homerinho, em Maceió
Em 1946, um professor de filosofia em Heidelberg fez uma pergunta: o povo alemão é culpado? Karl Jaspers respondeu que depende do que se entende por culpa. Há a culpa criminal, que um tribunal julga. Há a culpa política, que um povo inteiro carrega pelas ações do estado. Há a culpa moral, que cada um resolve — ou não — com a própria consciência. E há uma quarta, a mais difícil de definir, que é a culpa metafísica, que nasce não de um crime, mas de ter continuado vivo enquanto outros morriam. Para essa não há tribunal. Não tem sentença. Apenas o peso a carregar.
Ninguém convocou Jaspers para esta noite no Theatro Homerinho, em Maceió, às 19h30. Mas ele poderia ter escrito o roteiro de “Improviso sobre a culpa”, trabalho que marca o retorno de Ivana Iza aos palcos após um hiato de sete anos. Os ingressos estão esgotados.
Neste sábado (19), ela retorna sem texto, sem personagem, sem uma peça completa, sem nada resolvido. E propõe exatamente isso: sentar com a culpa e ver que tamanho ela tem. Não a sua. A de todo mundo, o que talvez dê no mesmo.
O teatro sempre soube que a culpa é um problema do corpo. Os gregos perceberam isso. Édipo não sabia que era culpado. Matou o pai sem reconhecê-lo, casou com a mãe sem saber. A ignorância, porém, não o absolveu. A cidade adoeceu, e quando a origem da peste foi revelada, ele cegou a si mesmo e se exilou. Era preciso purificar a cidade. A culpa havia contaminado o ar, e o ar precisava ser limpo. Bernard Williams, o filósofo britânico que passou a vida estudando os gregos, chamou isso de agent-regret: a responsabilidade por consequências que você não planejou, não quis, talvez nem soubesse que estava produzindo. É o gesto que não volta. O dano que não se desmancha.
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Ivana propõe explorar as duas topografias, do teatro e da culpa. “A culpa do que não foi dito, a culpa do que foi falado demais, a culpa de não ter feito aquele telefonema, aquela visita, de ter abandonado um grande amor, de ter gritado com a sua criança”. Ela faz uma pausa, e então o salto no escuro: “A culpa por achar que nós somos tão inatingíveis num planeta tão minúsculo no meio do universo, a culpa por tudo, pela guerra, pela fome, pelas dores do mundo. Há tanta culpa e tão poucos culpados”. É a culpa metafísica de Jaspers. “Em que parte do corpo ela está alocada em cada pessoa?”, pergunta a atriz alagoana.
O formato que ela escolheu para essa investigação não tem dramaturgia fechada, não tem cenário, não tem figurino além de uma roupa preta. Existe um pré-roteiro de temas, uma bússola, não um mapa. A plateia pode interferir e ela vai estimular que interfiram. “O que existe é uma provocação. Pode acontecer tudo”, admite. “Inclusive nada”.
Os trinta anos de carreira de Ivana Iza foram construídos em uma direção diferente da que veremos esta noite. Devassas, monólogo que ela escreveu, dirigiu e protagonizou, levou cinquenta mil pessoas ao teatro alagoano e depois a uma temporada em São Paulo, feito que nenhuma artista daqui havia feito antes. Uma carreira inteira construída sobre a certeza de que cada detalhe tem peso, que o controle é uma forma de amor pelo ofício. Então, no meio de uma sessão de A Velha, essa certeza rachou. Ela estava sozinha em cena, sete anos atrás, quando um pensamento intrusivo venceu: “Ainda tem esse texto todo pra fazer?”. Ela diz que não era cansaço e que distingue as duas coisas com precisão. Era um estranhamento frio, como estar do lado de fora de si mesma olhando para uma cena que continuava acontecendo sem ela. A técnica de uma atriz brilhante estava em pé no palco do teatro. Mas faltava a atriz e sua alma. “Cancelei a temporada no dia seguinte. Jamais usaria de crueldade com o teatro. Se eu não estiver inteira, me retiro”, afirma. E se retirou.
De lá pra cá, Ivana fez um mestrado no qual pesquisou a presença do ator no palco do teatro, e ergueu o Theatro Homerinho no Jaraguá. Passou os anos seguintes recebendo os outros em cena enquanto ficava de fora, “agora com prazer”. Planejou a volta de um jeito, com duas peças inéditas e o retorno de A Velha. Mudou de ideia.
“Eu precisava voltar com o mesmo respeito que me fez sair de cena. Eu precisava me experimentar de novo, voltar para esse lugar de pesquisa em cena, de risco, de prova, de corpo a corpo com a plateia, comigo mesma, com o teatro. Eu precisava encarar o teatro de frente. E isso se faz se colocando nessa posição”, explica Ivana.
“Não houve processo. Houve uma inquietação. Eu me vi inquieta, me vi um pouco aprisionada pelo modelo de interpretação que eu já fazia há muito tempo, que era bom, que funciona ainda até hoje, mas que eu precisava experimentar outras formas de comunicação com a minha plateia. Que no caso agora ela é uma personagem, nós estamos juntos em cena. Eu não estou para ela em cena. Nós estamos juntas.”
Os gregos também sabiam que a plateia não era neutra. Na tragédia ática, os espectadores não assistiam de fora, participavam de um ritual coletivo de purificação. A catarse de Aristóteles não é entretenimento, é a descarga, pelo teatro, de emoções que a vida cotidiana não tem onde colocar. Ivana vai nessa direção, mas inverte o movimento. Em vez de purificar a culpa, ela quer distribuí-la. “É um espaço para que a gente divida as nossas culpas”, ela diz. “É a culpa que se tem, que se herda, que se constrói, que se bota no outro, que se exime. Tem culpa para todo mundo”.
É um movimento de risco de uma atriz que pode se arriscar no mar revolto das cenas não ensaiadas. E ele vai na direção do que Ivana Iza vem fazendo nos últimos anos, mesmo fora dos holofotes, que é tornar ainda mais robusto o seu legado de artista. Em cena, ela defende, “precisa estar alguma ideia, mesmo quando a gente trata no riso, na comédia, com leveza”.
“Improviso sobre a culpa” provocará uma plateia diante de um mundo quase tão caótico quanto aquele de Heidelberg, em 1946, pós-Segunda Guerra Mundial. E talvez ainda mais insensível.
Voltar aos palcos, assim como a culpa, também afeta o corpo. “Parece que o meu coração tá ocupando todo o peito, assim, sabe? É uma sensação de preenchimento, assim, muito diferente das outras vezes. Talvez até por conta do próprio desafio e ir para cena sem algo definido, ou melhor, sem algo finalizado”. Anos atrás, ao falar sobre o que sente quando a cortina abre, Ivana Iza havia usado outra imagem: “Como se uma luz saísse do peito, da boca, dos olhos, assim, de todos os lugares, das pontas dos dedos. Como se tudo fosse uma grande faixa de luz, indo e, consequentemente, voltando”.
A plateia que vai recebê-la também não é a mesma que ela deixou há sete anos. E ela se diz pronta para arregaçar as mangas e reconquistar o público. “Estamos sempre na construção dessa plateia. Não há uma continuidade dessa plateia, não só por minha causa, mas por conta dos outros colegas também. É culpa desse hiato que o teatro alagoano passa o tempo inteiro. Isso desconstrói essa plateia. Então, pessoas que me viram há sete anos atrás, provavelmente hoje já têm filhos de cinco, sete anos. Tem pessoas que já não estão mais aqui. Passamos por uma pandemia, muitas pessoas, infelizmente, não sobreviveram. É realmente um trabalho de reconstrução a partir de agora”.
Jaspers escreveu que a culpa metafísica não tem como ser paga, só reconhecida. Que o reconhecimento, por si só, já é uma forma de transformação. Ivana Iza não está propondo exatamente isso, mas está propondo algo parecido: um lugar onde a culpa pode ser dita em voz alta, entre desconhecidos, sem que ninguém precise ser condenado.
“Eu me encontro totalmente vulnerável, porque não há personagem. Sempre mantive o controle de tudo, da produção, do cenário, do figurino, de quem dirige, de quem faz a luz. Agora não há nada disso. Um palco nu, completamente despido das minhas vaidades, do meu controle, dos meus ritos. Quase como se eu estivesse me gerando para começar de novo.”
A única instrução desta noite é chegar antes das 19h30. Depois que a porta fechar, ninguém mais entra. O que acontecer acontece uma vez.
Ivana Iza descreve a si mesma, nesta noite, como um barco sem motor. “Deixando que o fluxo da água me leve até a margem", ela diz. "Ou que me leve mais para dentro do mar. Sou uma atriz à deriva”.