LITERATURA
Romance alagoano aproxima saber ribeirinho e ciência diante de ameaça industrial
Em “O Rio Não Esquece”, Gabriel Gomes Barros Souza acompanha pescador que deixa a vila para estudar engenharia química
Uma comunidade que vive do rio aprende, cedo, a reconhecer os sinais de quando algo muda debaixo d’água. Foi esse tipo de sensibilidade que o escritor alagoano Gabriel Gomes Barros Souza decidiu colocar em movimento em O Rio Não Esquece, romance lançado pela Editora CAB, de Maceió, que acompanha o jovem pescador Benício diante de um episódio capaz de reorganizar por completo a vida ao redor dele: a instalação de uma indústria química na vila onde nasceu.
O empreendimento é comandado por um personagem chamado Dr. Becker, e sua chegada não vem sozinha. Traz promessas de emprego, promessas de progresso e, junto delas, uma ameaça que Benício percebe antes de conseguir nomear com precisão. Ele decide investigar. Sai da vila, vai estudar engenharia química numa universidade e, lá, encontra no pesquisador Dr. Fausto um interlocutor disposto a ajudá-lo a entender, tecnicamente, os riscos que já sentia no corpo desde criança.
É nesse deslocamento que o romance ganha sua camada mais interessante. Benício não abandona o que aprendeu com o rio para adotar o que aprende na universidade. Carrega os dois repertórios ao mesmo tempo e precisa descobrir, sozinho, como fazê-los conversar quando os interesses econômicos por trás da indústria começam a pressionar por respostas mais convenientes do que verdadeiras. Souza usa essa tensão para levantar perguntas que não fecham em slogan: até onde vai a responsabilidade de quem produz conhecimento científico quando esse conhecimento é usado para justificar um risco, e o que sobra de uma comunidade quando ela perde o controle sobre o próprio território.
Não é preciso forçar a comparação para perceber que esse enredo dialoga com um capítulo muito concreto da história recente de Alagoas. A exploração de sal-gema pela Braskem, iniciada em Maceió na década de 1970 e interrompida em 2019, provocou o afundamento do solo em cinco bairros da capital, deslocou mais de 55 mil pessoas e segue, neste ano, gerando disputas judiciais bilionárias sobre indenizações e reparação. O caso virou referência nacional de como uma atividade industrial pode alterar, de forma irreversível, a relação entre uma cidade e o chão que ela pisa. O romance de Souza não trata diretamente desse episódio, mas nasce no mesmo solo simbólico, num estado onde a pergunta sobre o preço do desenvolvimento deixou de ser hipótese de ficção há tempos.
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O título carrega essa ideia de transformação constante. Remete à reflexão atribuída ao filósofo grego Heráclito sobre a impossibilidade de banhar-se duas vezes no mesmo rio, já que tanto a água quanto quem entra nela já não são os mesmos de antes. Benício sai da vila um rapaz e volta outra pessoa, carregando um conhecimento que a comunidade não tinha antes e com o qual agora precisa decidir o que fazer.
A edição, com projeto gráfico de Lua Lins, ilustrações de Luiz Canton Júnior, capa de Simone Matias, revisão de Ana Santana e diagramação de Marco Furmiga, chega às mãos do público através de uma programação pensada para não deixar os temas do livro restritos à ficção. No dia 26 de setembro, Gabriel se reuniu com a equipe da Associação Peixe-Boi para uma conversa sobre conscientização ambiental; em 9 de outubro, é a vez de discutir sustentabilidade e hábitos de preservação na Pousada Zai Patacho, em Zumbi dos Palmares. Um encontro com colaboradores da Engenharq deve levar a discussão para dentro do próprio universo técnico que atravessa a trajetória de Benício, testando na prática os limites entre engenharia e responsabilidade social.
O ponto alto da agenda é o lançamento oficial, marcado para 17 de outubro, na Ilha do Ferro, com sessão de autógrafos.