EUA-BRASIL
De Maceió a Hollywood, Marta Torres questiona o sonho americano em curta-metragem
Dirigido e protagonizado pela artista, "Sweet Suite California" concorre a Melhor Curta Internacional no Los Angeles Brazilian Film Festival
Na infância, em Maceió, Marta Torres não podia ver televisão. A mãe proibia. Em casa havia os livros dos pais, que a puseram em contato com filosofia e psicologia desde cedo, e o mundo ao redor, que ela passou a observar para afastar o tédio. O hábito de olhar as pessoas segue vivo até hoje.
“Para mim, usar redes sociais sempre foi problemático. Acho o mundo real muito mais cativante, e isso me permite atuar ao mesmo tempo como investigadora e como objeto de investigação. Geralmente me sinto muito solitária, porque ao meu redor vejo pessoas imersas nos celulares. Hipnotizadas, elas esquecem que eles são mecanismos de controle. Expresso essa angústia pela arte, na esperança de que mais gente reflita sobre esses vícios sociais”, diz.
Parte dessa angústia está em Sweet Suite California, curta que Marta dirige e protagoniza e que estreou nessa terça-feira (3), no The Culver Theater, em Los Angeles. O filme concorre a Melhor Curta Internacional no Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF), que termina na quinta-feira (5).
Ela interpreta Courtney, uma influenciadora digital estrangeira que chega à Califórnia com a mala cheia de ilusões hollywoodianas.
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Na cidade das suas fantasias, Courtney encontra uma visão surreal do sonho americano, em que entram a exploração digital e o tráfico humano, além da dependência online e da falta de moradia. O material de divulgação cita os casos Epstein, nos Estados Unidos, e Vorcaro, no Brasil, como exemplos da atualidade desses temas.
A personagem veio de uma história ouvida anos atrás, de um agente da CIA que havia trabalhado num caso como o dela. O roteiro foi ampliado depois que Marta chegou aos Estados Unidos para estudar atuação.
“Quando cheguei à Califórnia, em 2022, para aprofundar meus estudos em atuação para cinema, percebi que havia outras questões urgentes a acrescentar à história, como uma bomba-relógio. Acredito que essa bomba explodiu, e o mundo inteiro tem alguma noção de que o filme é inspirado em eventos reais que precisam ser discutidos agora. É um filme que convida a refletir sobre questões difíceis de enfrentar, mas totalmente possíveis”, afirma.
Antes do cinema, Marta conta ter sido bancária, professora, chefe de polícia e defensora pública, e ter feito mestrado em bioética. Como educadora em direitos humanos, diz, percebeu que temas como o tráfico de pessoas e a falta de moradia travavam a conversa diante de pessoas presas a preconceitos e posições de privilégio. O cinema veio depois, como outro caminho para tratar do mesmo assunto com sensibilidade.
“Minha formação em estudos artísticos me ajudou a transmitir essa sensibilidade de uma forma que também respeita as emoções do espectador. Por isso acredito ter encontrado um jeito de apresentar algo belo e doce: é preciso um toque de doçura, mesmo diante do amargo”, explica a cineasta.
Maceió também está no que ela escreve. “Cresci numa cidade tranquila, cercada de natureza, mas marcada por uma desigualdade social terrível. Essa bagagem aparece no meu roteiro e nas personagens que interpreto, no cinema, no teatro ou na literatura. A fantasia também é uma forma de escapar de uma realidade dura, e por isso meu trabalho quase sempre tem um toque de surrealismo”, conta.
O curta foi escrito e rodado em Los Angeles, com a colaboração voluntária de praticamente todos que trabalharam nele. O elenco tem atores de seis países, do Brasil à República Dominicana: Colby Kennedy, Areg Barsegian, Johanny Paulino, Oceana Christopher, Billy Minogue, Anastasiya Varanko e Roberto Gavarrete.
Marta conheceu o LABRFF enquanto escrevia o roteiro e ficou cativada pela programação. “Os melhores filmes brasileiros estavam sendo exibidos, e estar entre eles agora é grande porque antes era um desejo profundo do meu coração. É um filme criado na cidade dos sonhos do cinema, por uma mulher brasileira, com orçamento zero. Isso fecha um ciclo para um projeto que era, para todos os efeitos, impossível de fazer da forma como foi feito”, relata.
Virtualidade, curta de 2024 que ela produziu, dirigiu e protagonizou ao lado de Alan Pellegrino, estreou no Chelsea Film Festival, em Nova York, ganhou o prêmio Best Staff Pick no Around International Film Festival, em Paris, e passou pelo NOX Film Fest, no Uruguai, e pelo Festival DIGO, em Goiânia. Em outubro, o Chelsea exibiu Memorarium, escrito e dirigido por João Castro, no qual Marta divide a cena com Marcus Liberato. Com Sweet Suite California, são três filmes sobre o impacto das novas tecnologias no comportamento humano.
O próximo projeto da diretora é um longa-metragem sobre como a inteligência artificial já alterou as interações humanas, e ela busca parceiros e patrocinadores para filmá-lo. “Ainda estou trabalhando em tudo, e esta estreia é só mais um começo. A distribuição é a parte mais difícil, vamos descobrir como vai funcionar”, diz Marta.