Cidades
Desabrigados disputam doa��es
Tal como a chuva pesada, problemas desabam sobre as cabeças da população ribeirinha dos vales do Mundaú e do Paraíba. Não bastasse perder a casa, o trabalho, ter parentes mortos, sentir frio nos abrigos, passar fome, ficar doente e sem água potável, as vítimas da cheia se atolam numa outra dimensão de carências. A esperança de reconstruir a vida estanca na desorganização, na falta de logística, de estrutura e de critérios para socorrer quem mais precisa. E o pior de tudo, também esbarra no que há de pior no ser humano: a desonestidade, a vontade de se dar bem à custa da miséria dos outros. As denúncias de que pessoas recebiam donativos sem precisar já começaram a surgir no dia seguinte à enxurrada que destruiu cidades como num efeito dominó. Mas nesta última semana chegaram ao ponto que mais se temia. Oficiais do sempre brioso Corpo de Bombeiros são acusados num esquema para roubar objetos da central de donativos da Defesa Civil. Enquanto crianças contraem doenças por pisar na lama e no esgoto descalços, bombeiros são flagrados desviando uma carga de sandálias novas. Abrigos têm rotina de roubos e brigas Além da carga desviada na central de arrecadação da Defesa Civil, em Maceió, os roubos de donativos acontecem todos os dias nos abrigos, atormentando a vida de quem já não tem quase nada. Com as famílias espalhadas de qualquer jeito nos biombos, o nível de segurança é zero, os furtos se multiplicam e a desconfiança mútua deixa o ambiente carregado de tensão. Os furtos podem parecer mínimos: um desinfetante, uma mortadela, um pedaço de sabão em pedra, uma garrafa de água potável, mas quando não se tem nada, o pouco já é muito, o bastante para provocar grandes confusões. Há cerca de duas semanas, houve mais um caso de esfaqueamento dentro do ginásio de Murici. Por sorte, o ferimento não foi fatal. Falta de segurança agrava a situação A convivência nos abrigos é insuportável. Dezenas de famílias, centenas de pessoas de origens diferentes, com hábitos diversos, que ficaram sem lar e são obrigadas a conviver no mesmo espaço. Quase sempre um grande vão subdividido por lençóis, molambos e papelões. O apoio mútuo existe, mas nem sempre. Enquanto uns se preocupam com os vizinhos doentes, outros ouvem som alto, tomam cachaça e fumam drogas. As confusões são tão constantes como os roubos. Em muitos casos, a discórdia evolui para um bate-boca e logo descamba para agressão física, briga e tentativa de assassinato. Aconteceu com Rosângela Moraes, a Zanza, que se apresenta como jogadora de futebol. Mães temem que filhas sejam estupradas Os índices de promiscuidade, violência, consumo de álcool e drogas avançam entre os jovens desabrigados. ?Aqui tem muita família de bem, mas também tem muito assédio e a gente fica com medo até de estupro?, teme Maria Cilene da Silva, mulher de José Cláudio Batista. A filha mais velha do casal, Renata Batista, tem 13 anos e está grávida de seis meses. Gestação precoce não muito diferente da mãe, que teve Renata aos 12 anos e vai ser avó com 25. Com mais dois filhos de 8 e 9 anos e duas meninas de 11 e 12, Maria vive aperreada com as ?más influências? que eles encontram nos abrigos. Comunidades ainda sem acesso A vida está longe de voltar ao normal em Santana do Mundaú. Talvez nunca mais volte a ser a mesma. Dezenas de famílias desistiram de morar na cidade e se mudaram para nunca mais voltar. A Secretaria de Educação já conclui que será impossível reiniciar as aulas este ano, falta água potável, muitos povoados ainda estão isolados por causa da queda de quase vinte pontes. Mais de um mês após a cheia, há lugares onde o burro e o cavalo são os únicos meios de transporte possíveis. Por mais que se mande donativos e equipes de trabalho para combater o caos, o recomeço da vida esbarra em problemas de logística. Os agentes de saúde da família sabem das missões urgentes que precisam realizar para combater a grande quantidade de doenças que chegam após a cheia. Muitos medicamentos já foram enviados para a cidade, mas é praticamente impossível transportá-los para comunidades como a Vila Munguba, a 27 quilômetros da cidade. Calendário escolar está prejudicado Nenhuma escola de Santana do Mundaú deve voltar a funcionar em 2010. Das cinco que havia na cidade, quatro foram destruídas e a que restou, a maior de todas, agora serve de abrigo para famílias. Na zona rural, mais duas caíram, uma foi invadida por desabrigados e outra está com todo mobiliário danificado. Com 3.077 alunos fora da sala de aula, o secretário de Educação, Antônio Duarte, não esconde a preocupação com o censo educacional de 2010, que garante a liberação de cerca de R$ 389 mil do Fundo de Educação Básica (Fundeb) do governo federal para o município em 2011. ?Estamos correndo o risco desse dinheiro deixar de vir?, preocupa-se Duarte. População ignora novos riscos Apesar de ser proibido construir de novo na margem do rio, muita gente ainda junta tijolos na esperança de reerguer a casa no mesmo local. É o caso de Wellington Alves da Silva, 27, que vai à Rua da Ponte todos os dias para reerguer as três paredes da casa dele que caiu. Já chegou a catar sozinho até 1.800 tijolos num dia. Como o lava-jato onde trabalhava também desabou, ficou desempregado. Mesmo com um recém-nascido de três meses, a esposa de Wellington tinha começado a trabalhar como empregada doméstica, mas a casa da patroa também foi afetada e ela perdeu o emprego também. Com quase todos os tijolos que necessita, o mais difícil vai ser comprar o cimento, já que não tem a quem recorrer da família. ?Tenho na base de uns quinze parentes que também ficaram desempregados?, lamenta. Entrega de donativos irrita a população Apesar do sem número de problemas registrados nos galpões, ginásios e escolas, muitas famílias que perderam as casas bem que gostariam de estar em um deles. Mas o flagelo chegou a tal ponto que desabrigados denunciam que está faltando abrigos em municípios afetados pela cheia. ?Não tem mais vaga aqui em Murici não, eles mandaram eu ficar em casa de parente, mas não tenho para onde ir?, revela Solange Pereira da Silva, que usa uma lona para se proteger nos escombros da casa que morava. Já Luciene Alves da Silva conseguiu um lugar melhor, mas preferia estar num galpão a ser obrigada a ficar na casa de um parente como hóspede indesejável. ?É melhor estar num abrigo do que ficar na casa dos outros ouvindo charada?, reclama Luciene, revoltada porque não teve o cadastro aprovado, já que muitas famílias que estão em abrigos, ou até nas barracas do governo, também teriam casas de parentes para ir.