Cidades
Desabrigados n�o recebem cesta b�sica
Quase dois meses depois das enchentes que destruíram cidades alagoanas, milhares de desabrigados ainda sofrem e enfrentam as consequências da tragédia. Nos abrigos, onde as condições de vida são mais que precárias, os problemas se multiplicam. Além de roubos, confusões, ameaças de morte e um assassinato registrado em Rio Largo, as doenças se proliferam. As crianças são as principais vítimas. Amontoadas em galpões, ginásios e escolas públicas, praticamente todas elas estão gripadas, apresentam problemas respiratórios e doenças de pele, além de outras enfermidades. Para completar o quadro dramático, uma epidemia de varicela, a catapora como é conhecida, explodiu na última semana nos abrigos de Murici, conforme a Gazeta mostrou, em primeira mão. Vários casos em crianças foram detectados e outros mais podem surgir nos próximos dias. Na quinta-feira pela manhã, durante atendimento médico feito por pediatras voluntários da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), da Sociedade Alagoana de Pediatria e da ONG Médicos Sem Fronteiras, dezenas de pequenas vítimas da tragédia apresentavam sintomas que indicavam o quadro inicial da doença. ?É falta de respeito com a gente? Já passava das 13 horas e o eletricista Carlos Eduardo Berto Correia ainda penava na fila. Chegou ali às 4 horas da madrugada. Passou a manhã levando sol na cabeça. Ele é um dos cerca de 2 mil desalojados de Rio Largo. Perdeu tudo na cheia e está na casa de parentes. Cadastrado pela Secretaria de Assistência Social de Rio Largo como vítima da enchente, ele tem direito a uma cesta básica a cada oito dias, todas às quintas-feiras. Carlos Eduardo estava agoniado. Além de ter dado viagem perdida na quinta-feira, 29, quando as cestas não foram entregues, ainda era obrigado a enfrentar aquela ?viacrucis?. ?Aqui é sempre assim, não tem jeito. Várias pessoas chegaram depois de mim e já foram atendidas?, reclama Carlos Eduardo. Ele ficou ainda mais decepcionado quando soube que não receberia mais a cesta que não foi entregue na quinta passado. ?Como não entregaram na semana passada, eu acho que a gente tinha o direito de receber duas cestas hoje?, argumentava ele. Doenças se alastram nos alojamentos de Murici Em Murici, enquanto a instalação dos acampamentos segue com mais de 15 dias de atraso, a situação nos abrigos é cada vez mais crítica. Como consequência da condição subumana a que estão submetidos nos galpões e no prédio da rodoviária da cidade, transformados num amontoado de miséria, as mazelas se multiplicam. Como se não bastassem os roubos, as brigas, as ameaças de morte, as doenças respiratórias e as doenças de pele, crianças e adultos estão ameaçados por uma epidemia de catapora. A Gazeta trouxe a reportagem em sua edição da última sexta-feira. Mostrou que pediatras, entre eles o presidente da Sociedade Alagoana de Pediatria, Cláudio Soriano, atendeu pelo menos 6 crianças com catapora. Outras tantas também foram medicadas com sintomas da doença. ?É uma situação de epidemia?, disse Soriano. Das 481 barracas, apenas 162 foram montadas até agora As crianças infectadas são o filho e o sobrinho da desabrigada Alba Correia do Nascimento. Na quinta-feira passada, ela levou os meninos para serem atendidos. Um deles já estava na fase da doença em que aparecem as ?bolhinhas? avermelhadas. Segundo especialistas, antes mesmo do aparecimento das bolhinhas, a pessoa infectada já transmite a doença. Como o município não dispõe de locais para isolar as crianças infectadas e Alba não tem parentes que possam abrigá-la, depois da consulta, ela, o filho e o sobrinho voltaram para o galpão. Ela e os outros mais de 1.800 desabrigados de Murici só devem ser transferidos para as barracas no fim do mês. Isso se o tempo ajudar. Segundo o técnico da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Carlos Góes, responsável pela montagem das barracas em Murici, Branquinha, União dos Palmares, Santana do Mundaú e São José da Lage, a chuva é o principal motivo do atraso.