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Alagoas tem 25 mil estudantes sem aulas

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A cheia ?afogou? o ensino público. Mais de 52 mil alunos estão com o ano letivo comprometido nos 19 municípios em estado de calamidade ou de emergência. A correnteza arrastou sonhos e livros didáticos. Dois meses e onze dias após o dilúvio alagoano, pelo menos 25 mil estudantes permanecem fora da sala de aula. Crianças ribeirinhas esquecem o alfabeto e lições de matemática, enquanto a burocracia e a falta de organização emperram a mudança de desabrigados de escolas para os acampamentos. A chuva afetou 115 escolas estaduais e municipais. Algumas ficaram danificadas, outras foram totalmente destruídas. Entre as que sobraram, muitas foram ocupadas por famílias que perderam as casas. O Ministério da Educação (MEC) já enviou R$ 122 milhões para a construção de novas escolas, mas nenhuma pode ser erguida no lugar onde estavam as antigas. A enxurrada ensopou o calendário escolar. Para tentar salvá-lo, nas duas últimas semanas, algumas turmas conseguiram retornar às aulas, de forma improvisada. Paredes são levantadas, faxinas realizadas e bancas recuperadas. Adolescentes são enviados para creches, disputam espaços com os pequenos do ?prezinho?. Há escolas sem muros, salas sem janelas, horário intermediário das 10 às 14 horas, aulas em garagens alugadas, no pátio, sem birô ou quadro. Mães temem falta de ocupação O problema é urgente, mas a recuperação anda a passos de tartaruga em alguns casos. Um exemplo da lerdeza institucional fica na Escola Marechal Deodoro da Fonseca, em Rio Largo. Parte do muro caiu, quase todo mobiliário foi perdido e a água chegou à altura de um metro e meio. Passaram-se mais de dois meses e nada tinha sido feito. Só na última segunda-feira, um grupo de cinco rapazes começava a lixar as paredes das salas, que atendem 299 alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal), mais de 10 mil alunos ficaram sem aulas em onze escolas de Rio Largo. Seis delas continuam paradas, duas aguardam por reforma e quatro têm desabrigados. Um quadro que se complica pela indefinição. ?O pessoal, hoje, está em dúvida, nem sabe direito onde vão ser construídas as barracas, os desabrigados não querem sair das escolas porque não sabem para onde vão. Mesmo que consigam começar as aulas em setembro, isso já vai sufocar o ano letivo de 2011? , afirma Eraldo Souza, diretor do Sinteal em Rio Largo. Locais de ensino são improvisados A falta de aulas é crítica. E onde ela acontece, reina o improviso. Uma creche praticamente esquecida na periferia, que vivia com salas vazias, depredada por vândalos, transformou-se em uma sede estratégica para a retomada do ensino em Rio Largo. ?A gente tinha espaços ociosos, que estavam danificados, com janelas e portas destruídas, paredes com infiltração e mofo?, explica Carmen Lúcia Santos, diretora-adjunta da creche Pedro Paulino, situada no Conjunto Mutirão. As 198 crianças da educação infantil, do pré-escolar, agora dividem o espaço com 430 alunos do 6º e do 7º ano da escola Rosineide Tereza e 200 integrantes do Programa Nacional de Inclusão de Jovens, que tinham cursos na Judith Paiva e na Evanda Carneiro. ?Ficamos com cinco salas e cedemos quatro e o pátio?, diz a diretora da creche. Diretores denunciam depredação Enquanto as barracas não ficam prontas, os diretores de escolas veem o calendário atrasar e denunciam a depredação do patrimônio. ?Temos 1.600 alunos sem aula, a maioria vai fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio, exames para cursos técnicos e profissionalizantes, vestibulares, o PSS (Processo Seletivo Seriado) e continuam sem noção de quando voltam a estudar. É um desespero, eles perguntam se sei alguma coisa, mas não posso responder nada?, desabafa Antônio Valdir, diretor da Escola Estadual Fernandina Malta. Antônio lembra que a Fernandina é praticamente a única escola pública de ensino médio de Rio Largo. ?Só tem duas, a outra é bem pequena?. Mesmo quando os desabrigados saírem, muitos problemas serão deixados. ?A escola está com todo tipo de problema, banheiros estão destruídos, pias e ralos entupidos, nenhuma porta mais tem ferrolho, uma bacia sanitária, uma infinidade de carteiras e birôs novos que eu tinha comprado foram quebrados?. Algumas escolas já retornaram ao normal A assistente social da SEEE, Maridalva Campos, afirma que o principal desafio dos educadores agora é conseguir retomar as aulas dentro de comunidades que já sofreram tanto. ?Há crianças que ficaram sem o pai ou a mãe, famílias que perderam o pouco que tinham. É um abalo psicológico muito grande. Se já foi um choque para quem não estava lá, imagine para quem está envolvido diretamente. Como fazer esses alunos voltarem a prestar atenção nas aulas??, indaga Maridalva. Quase toda a documentação das 115 escolas afetadas diretamente pela água foi perdida. Por isso, o esforço agora está concentrado na chamada pública para recuperar a vida escolar dos alunos. ?Todas as escolas estão fazendo relatórios a partir da memória dos professores, com levantamento de notas, endereços, nomes dos pais e outras informações, que vão ser encaminhadas para avaliação do Conselho Estadual de Educação?, informa Maridalva. Volta aos estudos ainda é incerta Um portão que não tranca mais nada é o que sobrou da Escola Municipal Denilma Bulhões, em Santana do Mundaú. Crianças e mães de alunos o seguram em pé, em meio ao vão do terreno deserto que antes abrigava as salas de aula, o pátio, a secretaria e a cantina. O Rio Mundaú engoliu tudo, ensopou cadernos, arrastou carteiras, derrubou paredes e ?demoliu? o ano letivo de 243 alunos da educação infantil até o 5º ano do ensino fundamental. A diretora Rosângela Rodrigues parece encabulada quando volta ao antigo local de trabalho, como se sentisse vergonha por não poder mais ensinar aos alunos. Está tudo vazio, triste, um terreno sem vida. Ela tenta mostrar onde ficavam as quatro salas e uma extensão da escola. ?Depois da cheia, ficou só um pedacinho de parede, mas já demoliram. Perdemos toda a documentação, carteiras, TV, livros, a biblioteca, não ficou nada, nada mesmo?. Santana do Mundaú tem pior cenário Santana do Mundaú é o único município castigado pela cheia que ainda está com todas as escolas públicas sem aulas. São mais de 3 mil alunos em 33 unidades da rede municipal, sendo trinta na zona rural, e a escola estadual Manoel de Matos, com 622 estudantes, à espera de uma definição. Cinco escolas foram destruídas, as outras estão inacessíveis por causa de quedas de pontes e a única que não foi afetada serve de abrigo para 33 famílias. Na zona rural, algumas escolas menores já foram limpas e devem reabrir esta semana. O problema maior será transportar a merenda escolar. Como a ponte nova caiu, vai ser preciso fazer baldeação pelo rio, em pequenas balsas improvisadas. Na zona urbana não há a menor previsão de retorno. Recomeço nas creches deve demorar mais A vida escolar está voltando ao normal em Quebrangulo. Duas escolas municipais foram desocupadas, desabrigados foram transferidos para o ginásio, casas foram alugadas e a extensão danificada já foi parcialmente reformada. O problema maior é a creche Bem-me-quer, que foi totalmente destruída e deixou 230 crianças desamparadas. Quarenta delas ainda foram transferidas para uma escola, mas as demais não devem voltar a estudar nem tão cedo. A secretária de Educação do município, Andréia Maia, afirma que, para complicar, as creches não entram no projeto de reconstrução do MEC.

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