Cidades
Terreno � rota de traficantes e de desova
A chacina de quatro jovens que chocou o Estado há três semanas, na área de mata entre a Via Expressa e o Conjunto Cidade Sorriso, no Benedito Bentes, revelou um outro problema. O local, além de degradado, é rota de desova de corpos para traficantes e de passagem para centenas de moradores da localidade Alto do Urubu. O terreno de 70 hectares ? que equivale a 70 estádios Rei Pelé ? é parte da Fazenda Ribeiro de Jacarecica e sofre invasões, extração de madeira e argila e poluição por esgoto doméstico. Segundo o biólogo Carlos André Melo, que trabalha para o proprietário do terreno, Ricardo Gomes de Barros, o fato da área ser aberta facilita invasões. ?É uma área onde está a nascente do Rio Jacarecica e, por ser aberta, está sempre sujeita a invasão imobiliária?, explicou enquanto acompanhou a Gazeta durante uma caminhada pelo terreno. Área abrigava várias espécies raras Quem acompanhou de perto o processo de desmatamento e especulação imobiliária da área foi Sebastião Alves da Silva, 64 anos. Vivendo na região desde os quatro anos de idade, ele lembra de como a mata era ?fechada? e cheia de vida. ?Cresci aqui andando por dentro do mato. Era uma diversão, porque tinham muitos pássaros, saguis, gaviões, cobras e preás. Mas com a chegada das habitações os bichos foram sumindo?, recordou Sebastião. Ao chegar próximo a um dos pontos onde fica a nascente do Jacarecica ele lembrou que já se divertiu muito no lugar. Como a água era muito limpa, era comum que os jovens da época tirassem parte do dia para se banhar e, nos finais de semana, fossem acompanhados pelas namoradas para um dia de lazer. Biólogo defende que área se transforme em RPPN Diante de tanta vulnerabilidade da área da Fazenda Ribeiro de Jacarecica, o biólogo Carlos André Melo não vê outra saída senão sua transformação em Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN). Ele lembrou que o projeto que faz esta conversão já foi encaminhado, porém esbarrou em algumas questões técnicas e burocráticas. A iniciativa para cuidar da região está com a Organização Não-Governamental Instituto de Proteção da Mata Atlântica (IPMA). ?O proprietário repassou a área para o IPMA em regime de comodato por 15 anos. Eles iniciaram o processo para transformá-la em RPPN, mas durante a vistoria do Instituto do Meio Ambiente foi detectado um problema?, revelou Carlos. ?O detalhe é que toda a água da chuva que desce do conjunto Cidade Sorriso tem provocado uma erosão inicial. Isso ocorreu porque não foi construída uma escada ou dissipador de energia para levar a água até o fundo do terreno?, completou o biólogo. Criação vai depender de entendimento Para o presidente do Instituto para a Preservação da Mata Atlântica, Fernando Pinto, é possível chegar a um entendimento para que o processo de criação da Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN) seja concluído. ?No momento há um impasse, mas é possível um entendimento entre a prefeitura e a construtora para o cercamento da área e a construção da escadaria (ou dissipador de água). Talvez se resolva até o final do ano?, acredita Fernando. Ele revela que a ONG que dirige tem um plano claro para o replantio da área degradada. No próximo ano ? entre abril e maio, plantará mudas.