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Suspeito fala sobre morte do estudante

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Nome: Rafael Cícero de França. Idade: 49 anos. Profissão: funcionário público. Local de trabalho: Procuradoria Geral do Município. Endereço: residência fixa em Maceió. Antecedentes criminais: nenhum. O réu apontado como um monstro, preso como principal suspeito do caso Fábio Acioli, indiciado pela polícia e denunciado pelo Ministério Público pode ser inocente. Basta uma rápida olhada na ficha dele para entender por que o juiz da 9ª Vara Criminal, Geraldo Amorim, decidiu libertar o homem que estava com Fábio no coqueiral de Cruz das Almas, quando o universitário de 21 anos foi atacado. Pela tese da defesa, Rafael seria alvo de uma mentira deslavada. Passou de vítima a acusado porque os investigadores se deixaram enganar por um depoimento falso, fantasioso. Teve que esperar um ano para a Justiça aceitar o quarto pedido de revogação da prisão, com base nos requisitos de bons antecedentes, trabalho digno, residência fixa, boa conduta social e total ausência de periculosidade. É muito tempo para manter preso alguém assim, que nem sequer foi julgado. Para complicar, as investigações e instrução criminal estão longe de uma conclusão. Servidor público diz estar doente Após insistentes contatos com os advogados Raimundo Palmeira e Girlene Farias, a entrevista foi marcada em um ambiente neutro, em um shopping no Barro Duro. Trazido por Girlene, Rafael chegou com ar sereno no rosto. Parecia leve ao caminhar no corredor cheio de lojas, cores e informações que nunca mais tinha observado. Por um instante, sentia o frisson da liberdade. Mas a tensão começou a se revelar na voz trêmula, no vaivém constante dos olhos e no teor das respostas, assim que as primeiras perguntas foram feitas. Acuado pela violência do crime, atônito pela força das acusações, atormentado pela ideia de ser alvo de vingança ou queima de arquivo, Rafael também teve sua privacidade invadida. Os segredos de uma vida paralela, com encontros ocultos à beira-mar de Cruz das Almas, vieram à tona durante o caso. Motivos não faltam para Rafael adotar precauções: homicidas e homofóbicos. ?Tenho medo de encarar quem fez isso? Apesar dos problemas da Casa de Custódia, Rafael frisa que a cela 9 não recebia acusados de crimes hediondos. Já na triagem do Baldomero, o servidor público teve uma de suas piores crises de pânico quando se deparou com um homicida perigoso. ?Colocaram um matador na minha cela, à noite?. Com medo de ser assassinado, ele perdeu o controle e foi levado para internação psiquiátrica, na enfermaria. Quando foi transferido para o Cyridião Durval, o servidor lembra que precisou se adaptar à rotina diferente dos detentos que não conhecia e passou novo perrengue. ?Fiquei em uma grade com dois presos. Eles começaram a brigar lá dentro e eu comecei a passar mal, bati na grade pedindo socorro e senti as pernas tremendo?. Quando os agentes penitenciários chegaram foi pior. Atiraram balas de borracha dentro da cela. Rafael pensou que eram tiros de verdade, que ia morrer, e desmaiou. Rafael deseja falar com mãe de jovem O que de fato ocorreu na penumbra, sob as palhas de Cruz das Almas? Esta pergunta é crucial para desvendar o mistério que se tornou um dos casos mais intricados da Justiça alagoana. A reconstituição do crime foi realizada com todo aparato técnico necessário, varou duas noites, mas a resposta continua obscura, cada vez mais encoberta pela maresia na cena do crime. Rafael de França estava lá. É a única pessoa que comprovadamente estava com Fábio quando o crime começou. O servidor público confirma que se encontrou com Fábio quatro vezes, mas sempre por acaso, eles nunca combinavam ou marcavam encontro. Até porque nem sabiam o nome um do outro, conheciam-se apenas do coqueiral e nunca tinham se visto fora de lá, algo comum entre os frequentadores do local. ?Naquela noite, ele me viu, me reconheceu e disse ?oi colega?, aí eu disse ?oi colega? também?. Colegas de trabalho ajudam companheiro Foi tudo muito rápido. O status de Rafael Cícero de França no inquérito avançou de vítima para testemunha-chave, suspeito, acusado e preso. Ele conta que sua maior esperança era a sobrevivência de Fábio. ?Só ele poderia me inocentar?. Detalha como sofria nos interrogatórios, ao perceber que não conseguia convencer a polícia. ?Eu mandava as delegadas olharem no meu olho, dizia ?eu sei que a senhora estudou para isso, sabe quando alguém está mentindo ou não??. Dois fatos cruciais culminaram contra França. A própria morte de Fábio, quinze dias após ser raptado e carbonizado, e o depoimento do garçom do Beto?s Bar, Marcos Aurélio Fernandes de Souza. O rapaz de 26 anos que surgiu como uma ?testemunha-bomba? pode ter sido um tiro pela culatra da polícia e se tornou uma grande dor de cabeça para a Justiça. Acusado nega ser garoto de programa Rafael Cícero de França percebeu o quanto era querido quando voltou à repartição onde trabalhou 26 anos como auxiliar administrativo, na última segunda-feira. Sempre atuou levando e trazendo pastas de processos, sem saber que um dia seria vítima (ou réu) de um. Todos deixaram suas mesas para cumprimentá-lo e comemorar seu retorno. A mesma reação foi visível em uma sala da Procuradoria que funciona no shopping onde deu a entrevista. Colegas faziam questão de lhe dar um abraço, um aperto de mão. Já na praça de alimentação, no 1º andar, a reportagem era interrompida por acenos e parabenizações. Mesmo diante das lentes da Gazeta, uma procuradora se expôs para dizer a Rafael e a quem pudesse ouvir que ele tinha sido preso injustamente. Mesmo assim, o ?principal suspeito? do caso Fábio afirma que Deus quis castigá-lo e não critica o trabalho da polícia. *** Gazeta ? Surgiram informações na imprensa que o senhor teria sido torturado para confessar o crime. É verdade? Rafael Cícero de França ? Não, nunca houve isso, o tratamento dos policiais comigo foi dez. Fui até um pouco pressionado, mas eles não extrapolaram das suas funções policiais. As delegadas fizeram tecnicamente tudo o que tinham que fazer. A polícia agiu certo? Eles foram enganados por depoimentos mentirosos. Não só a polícia. O que mais lhe abalou? Minha esposa ficou muito decepcionada, chocada com todas as notícias, sentindo-se traída. Mesmo assim, ela nunca me abandonou. Amanhã (quinta), completamos 20 anos de casados.

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