Cidades
Trabalhadores enfrentam riscos
?Tá vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar...?, diz a música Cidadão, do cantor e compositor José Geraldo. Sucesso nos anos 70, a canção revela a dura realidade dos peões da construção civil. ?Lá eu quase me arrebento, pus a massa, fiz cimento e ajudei a rebocar?. Quando conquistou as paradas de sucesso, o País vivia uma ?explosão? imobiliária como a atual ? que foi provocada pelo Programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal. Além desse fato em comum, os dois períodos distintos escondem os riscos e o desrespeito às condições de trabalho. O resultado mais imediato disso tem provocado acidentes com risco à vida dos trabalhadores. Há uma semana, no Sítio São Jorge, oito operários ficaram feridos quando uma laje do prédio em que trabalhavam desabou. Nenhum deles se machucou gravemente, mas o acidente acendeu o sinal de alerta para os perigos presentes nos canteiros de obras. Contratados recebem orientação A garantia de que os trabalhadores são devidamente orientados é dada pelo presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), Marcos Holanda. Ele revelou que a cada 15 dias uma comissão da entidade tem se reunido para avaliar e sugerir melhorias que garantam a segurança e o desenvolvimento das obras. Ele reconhece avanços no sentido da segurança do trabalho, mas não deixou de observar que atualmente o mercado sofre com as exigências ambientais e trabalhistas. ?O empresário tem de ter muito cuidado. O que é necessário nestas situações é que haja um diálogo franco entre empresário, o trabalhador e a Procuradoria Regional do Trabalho. É importante que se procure as empresas, porque estamos vivendo um boom de empreendimentos?, comentou Marcos. Ele demonstrou compreender a necessidade de prevenir os acidentes e a importância social da geração de empregos no setor. Conforme destacou, as construções ocorrem numa nova conjuntura que obriga, inclusive, que o trabalhador seja qualificado. PRT e SRTE tentam inibir ocorrências em construções É para conter e enquadrar quem ainda não respeita a legislação, que a Procuradoria Regional do Trabalho (PRT), junto com a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), tem se desdobrado para percorrer os canteiros de obras. Depois de algumas visitas e de se deparar com a realidade, o procurador Cássio Araújo reconheceu que ainda há empresas que não cumprem o seu papel social. ?Constamos isso quando visitamos e ouvimos os trabalhadores. O que procuramos é verificar a proteção deles, bem como a dignidade e a segurança?, destacou Cássio. Ele revelou ainda que em alguns casos, os trabalhadores são persuadidos pelos fiscais das obras para confirmarem que está tudo bem no trabalho. Mas é aí que alguns se aproximam e comentam em voz baixa que não é bem assim. Na prática, os auditores fiscais e procuradores já sabem o que procuram. Em alguns casos já seguem para obras que foram denunciadas anteriormente. ?Em geral colhemos denúncias do próprio trabalhador?, garantiu Cassio. Acidente faz operário ficar parado Depois do acidente, trabalhador está parado e tentando um acordo para não ficar sem amparo. ?Por isso não quero foto, nem divulgar meu nome completo. Tem uma pessoa vendo isso para mim. Só estou nessa porque preciso de alguma ajuda?, tentou se justificar o operário. Indagado sobre como foi contatado para o trabalho, ele contou que foi por meio de um amigo. A partir daí conheceu o ?gato?, que havia lhe prometido um contrato. ?Como estava sem nada aceitei. O cara disse que se uma pessoa da firma gostasse do serviço todo mundo seria contratado. Mas nada aconteceu?, finalizou Paulo. Pai de duas filhas e casado com uma empregada doméstica, ele só tem tomado medicamentos com a ajuda de amigos. O raio-X que fez da coluna e membros inferiores não apontou nenhuma fratura ou lesão. Mas, como não foi para nenhum especialista, não sabe explicar por que ainda sente dores. Com o dinheiro que ganharia na obra, iria tentar acabar a reforma de sua própria casa.