Cidades
Perigo: o outro lado da rua
A rua é a morada da morte. A noite com medo é a sorte. Os assassinatos em série de trinta sem-teto este ano em Maceió atolam o Brasil num vexame internacional. Este índice de homicídios equivale a quase 10% dos 312 moradores de rua cadastrados no último censo do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), há pouco mais de um mês. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, a cidade de São Paulo registrou cinco assassinatos de moradores de rua em 2010 para uma população de 14 mil pessoas vivendo nessa situação. Confrontada aos 10% da violenta Maceió, a proporção de 0,035% de mortes para cada sem-teto na maior cidade da América Latina é ínfima. A comparação foi feita pelo representante da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Ivair Augusto Alves dos Santos, enviado a Maceió para cobrar o fim da impunidade e políticas públicas de enfrentamento ao problema. Medo de dormir e não acordar Muito se falou sobre as mortes dos moradores de rua, mas eles, os principais envolvidos, ainda não foram ouvidos como deveriam ser. Enquanto isso, a polícia insiste em descartar a hipótese de grupos de extermínio, porque não dá atenção ao que diz, por exemplo, o senhor Paulo Domingo, 39, morador de rua há 20 anos. ?Isso é coisa de gente da alta, que não quer ver pessoas como a gente na rua?, afirma o homem, que virou sem-teto ainda adolescente. O pintor automotivo desempregado José Aldemir Magalhães vive na rua há um ano e é mais específico na denúncia. ?É claro que existem milícias, grupos de extermínio aqui na área nobre, na orla, na Pajuçara, na Ponta Verde, na Jatiúca. Todo mundo sabe disso, e eles estão no auge por causa do voto da gente?. O prazer de ver o dia nascer Escolher um bairro da área nobre para morar pode ser mais perigoso. A arrecadação de esmolas ou de trocados por guardar carros é bem mais lucrativa, mas exige uma série de cuidados. Após a noite de agonia, um pequeno grupo celebra os primeiros raios de sol num banco do calçadão da orla de Pajuçara. São dois homens e uma mulher, todos com mais de 30 anos. Logo se percebe em qual perfil de dependentes químicos eles se enquadram. Para comemorar a chegada do novo dia com vida, eles abrem uma garrafa pet abastecida de aguardente, enchem copos de cafezinho com o líquido transparente e entornam doses goela abaixo. ?A gente é tudo biriteiro, ninguém aqui fuma essa peste dessa noia não?, informa José Aldemir Magalhães. Paulo Domingo virou morador de rua aos 14 anos. Hoje tem 39, conhece todos os perigos e humilhações das noites a céu aberto e afirma que o perigo maior não reside nos outros sem-teto. Ele e seus pares de infortúnio sofrem mais com o preconceito e o ódio social. Drogas são companhia noturna Meninos e meninas de rua se envolvem com crack, alguns morrem, outros sobrevivem na selva de asfalto. Dos 41 anos de Claudenise, ela afirma que mais de trinta foram vividos no meio da rua. ?Já fui para Minas, Salvador, Feira de Santana, São Paulo e Rio de Janeiro. Só não fui para o Tocantins. Viajei a pé, de carona de caminhão e de ônibus, quando recebia passagem. Conheci o Cotó, bebia muito com ele. O Cotó guardava carro e fazia avião para playboy?. À noite, a entrada da Caixa Econômica da Pajuçara é ocupada por outros clientes. A nossa reportagem localizou cinco moradores de rua que haviam acabado de fumar crack no local. ?Se eu já fumei nóia hoje? Fumei ainda agora e vou fumar de novo, eu fumo o tempo todo?, contou um deles, com uma expressão no rosto que misturava sorriso e raiva. Centro tenta recuperar sem-teto das drogas O Centro de Atenção Psicossocial ? Álcool e Drogas (Caps AD) é uma das poucas opções para tratamento de recuperação de dependência química em Maceió. Boa parte dos frequentadores é morador de rua, mas eles reclamam da ociosidade a que são submetidos por falta de atividades terapêuticas e de reinserção social. ?O sistema aqui não funciona. Não tem nada para o cara fazer o dia todo, não tem educação física, grupo de trabalho, grupo terapêutico, oficinas de arte. O cara fica ocioso, é um tédio. É por isso que muitos preferem voltar a se drogar na rua?, reclama Raimundo Almeida, 27 anos. Ele é ex-morador de rua, está há um mês sem fumar crack, orgulha-se ao dizer que estuda no Colégio Marista à noite e que vai arrumar um emprego com carteira assinada. Na última quinta-feira, cerca de dez frequentadores estavam reclamando por causa da suspensão das atividades no local. ?Tem funcionários que estão aqui, sem fazer nada, e querem mandar a gente ir embora?, completa um rapaz que não quis se identificar. Oficialmente, o Caps deveria funcionar das 9h às 17h.